Cabernet sauvignon: A casta “multinacional”da vitivinicultura mundial

“Life is a Cabernet” (A Vida é um Cabernet)

Em muitas de minhas viagens à Itália, Espanha, Chile ou Estados Unidos é comum ouvir de alguns amigos a pergunta sobre qual vinho eu mais aprecio. Nessas ocasiões, sempre repito que não é uma resposta fácil de dar, devido à complexidade do tema pois, a qualidade de um vinho pode variar de ano para ano, dependendo de uma série de fatores e das regiões onde são elaborados.

De forma geral, tenho uma queda especial pelo pinot noir desde os anos em que vivi em Baden-Würtemberg na Alemanha, zona produtora de bons “Spätburgunder Rotwein” (como é conhecido o Pinot noir). Ali, conheço bem os diferentes terroirs e as possíveis oscilações climáticas anuais; além disso, tinha acesso diário aos bons Pinot Noir da Borgonha cuja região conheço bem. Isso, claro, influenciou o meu gosto.

Por outro lado, tenho residência em um dos grandes paraísos terrestres da Cabernet sauvignon que é o Chile e conheço bem seu território, suas variações edáficas, geológicas, fisiográficas e climáticas. Ali, a vida é um Cabernet. Isto, também, me influenciou bastante.

Resumindo, essas são minhas duas castas tintas preferidas. Uma fica ao lado direito e a outra no lado esquerdo. Com isso, não quero deixar de reconhecer que existem mundo afora, excelentes vinhos tintos de outras castas.

Ah, esqueci de dizer que prefiro as tintas às brancas.

 Vivi algum tempo em Valladolid, Espanha, porta de entrada da Região de Ribera del Douro e passei, também, a apreciar grandes vinhos elaborados com a Tempranillo (às vezes com corte de Cabernet Sauvignon). Esse foi tema de dois Posts que escrevi nesse blog há algum tempo. Lembram-se do que falei sobre os vinhos Pingos, Pesquera, Pago de Caraovejas, Vega Sicília, e outros? Creio que vale a pena dar uma olhada naqueles textos.

Em outro post sobre vinhos italianos, revisamos as degustações de tantos anos do Brunello de Montalcino (casta Sangiovese) e do Barolo (Casta Nebbiolo) que são vinhos magníficos.

Como a Cabernet sauvignon é uma casta bem popular e, o seu “fã –clube” é muito grande, a segunda pergunta que me fazem é o que acho dessa casta. Outra pergunta de difícil resposta. Contudo, procurarei desenvolver esse tema pois, é bem interessante.

Claro que não vou aprofundar sobre todos os bons Cabernet sauvignon que já degustei nesses tantos anos de estrada pois, a lista seria bem longa, enfadonha, e perderíamos o foco sobre o tema.

Degustei bons cabernets no Chile, no início desse século que hoje já não parecem estar em evidencia ou serem tão bons como eram. Ou eu evoluí nas minhas escolhas ou esses vinhos realmente ficaram atrás no tempo!

Darei apenas um pequeno passeio pelo reino dessa casta, em uma tentativa de abrir o seu interesse em pesquisar mais profundamente sobre o tema. Ou melhor, abrir de forma esclarecida mais garrafas do saboroso Cabernet sauvignon.

Qual o Melhor Cabernet Sauvignon?

A casta Cabernet sauvignon é a mais plantada do mundo, com quase 312,000 hectares. Só com esta frase já se pode imaginar os diferentes tipos de Cabernet sauvignon que podemos encontrar!

A França possuiu 19,15% desse total, sendo o maior produtor mundial. O Chile, com 14,33% é o segundo. Os Estados Unidos (em especial a Califórnia) com 12,24% é o terceiro e, a Austrália, com 9,13% do total é o quarto maior produtor.

Eu decidi considerar apenas os Cabernet sauvignon do Novo e Novíssimo Mundo. Explico: os franceses de Bordeaux são, em sua maioria, muito bons (há também os que são “razoáveis”) porém, eles vêm sempre acompanhados de merlot e cabernet franc (o famoso blend de Bordeaux). Como considero o merlot bordalês o melhor do mundo (especialmente os do Pomerol – ver o Château Petrus), não seria justo considerar esse um vinho de Cabernet sauvignon como os varietais do Novo e Novíssimo Mundo.

Na verdade, os italianos, espanhóis e outros países europeus, também, plantam Cabernet sauvignon. Porém, como os franceses, os utilizam normalmente para blend com outras castas nacionais (vejam os super toscanos), não serão considerados nesse pequeno post. Aqui desejo falar da varietal Cabernet sauvignon.

Já degustei bons Cabernet sauvignon da África do Sul (ver meu post sobre África do Sul) e muitos da Argentina. No caso da Argentina o meu preferido é a Malbec e, sobre essa casta, já escrevi um post ano passado nesse blog.

Aqui decidi selecionar três países que, atualmente, são campeões na elaboração de vinhos de Cabernet Sauvignon. O Chile, os Estados Unidos(leia-se Califórnia) e a Austrália .Uma espécie de “primeira divisão” da Federação Internacional de Cabernet sauvignon.

Sobre a Califórnia já falei muito em outros posts sobre a Pinot noir e a Zinfandel. Sobre o Chile, já escrevi até demais sobre a Pinot Noir e Carmenere.

Sobre a Austrália, desejo preparar em breve um post sobre sua uva estrela que é a Shiraz (Syrah). Farei isso em outra oportunidade.

O importante é saber que cada Cabernet sauvignon(assim como outras castas) varia de região para região e, por essa razão, é difícil dizer qual o melhor. Depende muito do degustador e da região. Uns são atraídos por determinadas características que a outros não atraem. A mim, por exemplo, não me atraem os vinhos com muita madeira. Eu acho que mascara as verdadeiras características aromáticas, olfativas e gustativas originais das castas. A outros , essa peculiaridade é muito atraente. Claro que reconheço o seu papel no amaciamento (aveludamento) e equilíbrio dos taninos e acidez, especialmente, nos vinhos mais densos para guarda. O problema é que isso nem sempre é bem feito, e no fim ficamos com o aroma e sabor de madeira no vinho.

Mesmo sendo um Engenheiro Florestal prefiro a madeira para outras finalidades!!

Para o modesto exercício que fazemos nesse post, usei observações de algumas degustações feitas em vários países, assim como selecionei alguns vinhos de minha pequena adega. Alguns são vinhos bem caros e outros, mais simples, para termos melhor ideia da amplitude de variação dos valores.

Juntei a dados de minhas recentes degustações no Chile(Junho de 2019) e Califórnia, especificamente à Robert Mondavi, assim como algumas degustações feitas recentemente em Denver, em Maio de 2019.

Sobre a Austrália, uni experiência de minha viagem há alguns anos, com degustações recentes em Denver.

 É muito comum encontrar bons e variados vinhos australianos em qualquer “Liquor Store” dos Estados Unidos.

Um pouco mais de informação sobre a casta Cabernet sauvignon

Atualmente, a casta é cultivada em quase todo o mundo. Desde as regiões mais frias como o norte da Califórnia, Washington, Oregon e New York, e Sul do Chile, assim como em regiões muito quentes como as mais desérticas do Chile, próximas ao Deserto de Atacama, ou mesmo Tunísia, Austrália, África do Sul e Líbano.

A casta é originária do sudoeste da França, resultado do cruzamento(espontâneo?) da Cabernet franc com a Sauvignon blanc.

O vinho apresenta características gerais bem típicas: encorpado, coloração vermelho escura, com taninos densos e acidez pronunciada (pH entre 3,0 e 4,0), o que contribui para seu envelhecimento.

Normalmente, estes guardam estreita relação com o clima da região de onde se originam; climas frios- favorecem aromas que lembram pimenta negra, groselha negra, e até menta ou seja, notas vegetais. Climas quentes- predominam os aromas de ameixas negras super maduras, chocolates e tabacos ou mesmo terra molhada. Clima moderado, os aromas podem lembrar cerejas e azeitonas negras.

No Chile, observei em vinhos de determinada vinícola, um forte e delicioso aroma a menta já há alguns anos. Posteriormente, visitando essa vinícola, observei que os vinhedos foram estabelecidos próximos a plantações de eucaliptos.

Na verdade, a Cabernet sauvignon produz um vinho “fácil de beber” e tem um excelente potencial de envelhecimento, acidez pronunciada e versatilidade para acompanhar diferentes pratos e queijos, especialmente, aqueles leves. É um vinho “multi-facético”.

Quando jovem, pode acompanhar diferentes pratos e pastas à base de molhos fortes de tomate ou pizzas, muito embora com o envelhecimento e consequente redução dos taninos e acidez, seja recomendável para pratos mais delicados.

Pratos com mais gorduras ou proteínas(como as carnes vermelhas grelhadas) são bons companheiros do Cabernet sauvignon pois, neutralizam os fortes taninos do vinho.

Observar que os vinhos, com alto teor alcoólico, acentuarão o amargor dos taninos e, por isso, se recomenda não acompanhar pratos mais picantes ou apimentados.

Quer acompanhar queijos? É recomendável mozarela, gorgonzola, cheddar ou brie; evite os queijos muito fortes.

Os Californianos

Analisando videiras de Cabernet sauvignon na Robert Mondavi, Napa, Califórnia

 As principais regiões Vinícolas da Califórnia estão no Vale Napa, Sonoma, Mendoncino, San Luis O’Bispo, Carneros, Santa Barbara e Vale Central.

Os melhores e mais reconhecidos Cabernet sauvignon são plantados em Napa e Sonona. O Vale Central, também, está elaborando bons vinhos para consumo corrente porém, os vinhos mais finos, se concentram no Vale Napa (mais de 500 vinícolas), Sonoma (mais de 300 vinícolas), Mendocino e Carneros.

A Califórnia possui 194.200 hectares plantados com vitis viníferas dos quais 37,4%(mais de 72,000 hectares) são de Cabernet sauvignon.

De forma geral, se reconhece que a maioria do tinto californiano é encorpado e madeirado. Esse parece ser o “gosto californiano”!!!.

Na realidade, há de tudo na Califórnia e as diferenças são notáveis entre os vinhos. Os elaborados com castas plantadas nas colinas e encostas das montanhas diferem daqueles plantados nas planícies aluviais e áreas baixas.

O excesso de aromas originados pelo uso da madeira, para meu gosto pessoal, não é uma boa característica, pois mascara as características originais das castas. Mas há quem goste!!

Em princípio, se objetiva com a passagem por certo tempo pelas barricas de madeira de carvalho francês, americano ou croata, melhorar aquele vinho que possui boas características, originadas de um “bom ano”, suavizando e arredondando seus taninos e equilibrando sua acidez; contudo, muitas vezes esse processo(ou técnica) não é bem controlado e isso descaracteriza o produto final.

Pensando nessas diferenças, degustamos dois vinhos que se situam em polos opostos:

  1. Um de Sonoma, do Vale Alexander, área reconhecidamente de excelentes e premiados Cabernet sauvignon;
  2. Outro do Vale Central, do Condado de San Joaquin, ao sul da capital Sacramento, perto da cidade de Lodi. Não tão longe do Vale Napa. Área de vinhos mais populares

O nosso primeiro californiano é o “Devil’s Inkstand” (tinteiro do Diabo) de 2013, da Vinícola Geyser Peak do Vale Alexander no Condado de Sonoma. Plantado em áreas próximas às colinas da cidade de Geyserville onde existem várias fontes de águas termais (Geyser). É um vinho de cor púrpura muito escura parecendo tinta(daí o nome de tinteiro).

Seu preço no mercado norte americano se situa entre os US$55 a 60 a garrafa (às vezes bem mais), o que aliado às suas características específicas, não seria propriamente um vinho para consumo diário, sendo mais apropriado para “meditação” ou culto. Um vinho para “ocasiões especiais” quando se encontra com outro amigo enófilo. Recebeu 91 pontos de “Wine Spectator”, o que já é um bom cartão de visitas.

Possui um teor alcoólico de 14% de volume; é forte, denso, vermelho-púrpura escuro(como tinta) porém bem estruturado. Aromas fortes a anis, azeitonas negras, pimenta e terra úmida. O gosto e aroma são influenciados pelo carvalho das barricas e as vezes mascara o aroma frutal do vinho.

Como já mencionado, a madeira é uma característica dos tintos californianos que já nascem para ser Premium. O Californiano aprecia!!

Esse vinho recebeu uma pequena colaboração das uvas Petite Verdot e Petite Syrah(porém muito pouco),

Ideal para carnes vermelhas grelhadas.

Nosso segundo californiano é da vinícola Woodbridge de Robert Mondavi. É um vinho da cidade de Lodi onde nasceu Robert Mondavi. Se localiza entre a Baia de San Francisco e a Sierra Nevada, ao sul de Sacramento.

O vinho no mercado americano é de uso corrente e custa entre US$ 9 e 12 dólares (no Brasil custa entre 65 e 70 Reais).

É seco, medianamente encorpado, os aromas são frescos a madeira de cedro, cerejas e pão tostado com algo de chocolate. Notei um aroma secundário à pimenta branca, talvez devido a madeira onde permaneceu algum tempo.

É um bom e simples vinho para ser consumido habitualmente.

Recomenda-se acompanhar carnes vermelhas grelhadas, porco ou mesmo frango. É também, uma agradável companhia para pastas com molhos de tomate, como spaghetti à bolonhesa (ou Ragú).

Pode acompanhar queijos(não fortes) como mozzarella, cheddar ou gorgonzola. Eu o degustei com um brie francês e estava bem agradável.

Somente à título de curiosidade, uma maioria significativa dos consumidores americanos, consome vinhos mais modestos, que são comercializados em caixas tetra-pak de 1,5 litros ou de 3 litros. Veja o exemplo que fotografei em um hipermercado americano, em maio 2019. Se tratava de um Cabernet sauvignon bem simples. Para o norte americano médio, vinho é um artigo caro pois, o preço de uma garrafa de melhor nível, supera o salário de 1 hora ou mais de trabalho(o que lá varia de 14 a 22 dólares americanos).

Os Australianos

A Austrália é um gigante vitivinícola e o quinto maior exportador mundial de vinho.

Abaixo, ilustro o mapa das principais regiões vitivinícolas do país e chamo a atenção para a região da Austrália do Sul(SA) em tom laranja no mapa. Essa região tem quatro vales que são excepcionais para produção de tintos. O Vale Barossa e os vales McLaren, Clare e Éden. São desses vales os tintos mais apreciados e disputados do país.

Os australianos são grandes apreciadores de vinho, consumindo 530 milhões de litros anualmente, o que equivale, aproximadamente, a 30 litros per capita, sendo 50% de vinho branco e 35% de vinho tinto.

Existem 2468 vinícolas em todo o país que empregam cerca de 173 mil trabalhadores, contribuindo, anualmente, com US$ 40 bilhões.

A área plantada chega a 136 mil hectares com a uva Shiraz (syrah) ocupando 40 mil hectares (29,5%), a Cabernet sauvignon com 25 mil hectares (18%), seguido da chardonnay com 21,5 mil hectares (16%), a merlot com 8,5 mil hectares (6%) e a sauvignon blanc com 6,0 mil hectares (5%).

A Austrália do Sul (SA), cuja capital Adelaide, é a região maior produtora de vinhos do país.

Segundo o conhecido livro “1001 Vinhos que Hay que Probar Antes de Morir”, os melhores Cabernet sauvignon australianos se encontram na Austrália do Sul, especificamente, nos Vales de Barossa e Coonawarra. É a região dos famosos Penfolds Bin 95 Grange – Hermitage (blend de Shiraz e cabernet sauvignon) e o Penfolds Bin 707 de Cabernet sauvignon, que é a referência dos Cabernets da Austrália. São vinhos para “meditação” ou Culto.

O Bin 707 é um vinho encorpado, denso, com álcool entre 13,5 e 14,0% de volume, com taninos maduros, bem equilibrados e aromas a frutas doces. Envelhecido em barricas de carvalho americano por 18 a 20 meses, o que lhe confere um aroma característico do carvalho americano (algo de baunilha) e uma boa estrutura. Possui um potencial de guarda de 10 anos. O preço da garrafa de um 2015 pode chegar a  US$ 420,00 no mercado norte americano.

Trata-se de um vinho de alto nível que exige sólido conhecimento do enófilo que desejar abrir a garrafa(e o cartão de crédito!!) e desfrutar como se deve.

Eu poderia mencionar outros 15 a 20 excepcionais Cabernet sauvignon de Barossa(e outros tantos de Shiraz) porém, iríamos andar em círculos e repetir histórias.

Preferi selecionar e degustar um conhecido vinho que bem representa as características de Barossa que é o “Barossa Valley Estate” de 2015, cujo preço flutua entre os US$ 13 a 15 dólares no mercado norte americano.

O Barossa Valley fica a 70 Km a norte da cidade de Adelaide, sendo uma das regiões vinícolas mais antigas da Austrália. Ali existem mais de 150 vinícolas e cerca de 80 adegas.

Atualmente, é a principal região australiana para enoturismo.

Esse Cabernet sauvignon de 2015 foi premiado na Nova Zelândia (2017) como o melhor do ano.

Possui aromas e sabores ricos e intensos a cerejas e morangos maduros, com taninos aveludados e equilibrados com pouca interferência da madeira em suas características originais. Bem refinado ao olfato. Vinho encorpado porém, leve ao paladar. O teor alcoólico é de 14% e ideal tanto para carnes vermelhas, carneiro e mesmo frango grelhado com espeçarias.

Confesso que foi uma boa surpresa esse vinho de 2015, e o recomendo para aqueles que apreciam um Cabernet sauvignon sedoso, maduro, não tão seco, com madeira sem excessos, corpo denso, um bom balanço frutal e harmonia entre acidez e taninos.

Os Chilenos

Minha experiência com vinhos chilenos vem do início dos anos 1970. Lembro-me dos primeiros rieslings e cabernets que degustava naqueles anos. O que temos hoje é um grande avanço.

Minha primeira marcante experiência com um Cabernet sauvignon chileno foi em Roma, nos anos 1990, com um Don Melchor da Concha y Toro. Virei fã já nas primeiras gotas(mesmo sabendo que 3% do vinho era de cabernet franc).

Ainda hoje o considero como rei honorário dos Cabernet sauvignon chilenos. Reconheço que nos últimos 20 anos muitos outros tintos de alto nível(vinhos Premium ou de culto) estão disputando a coroa do Don Melchor. Luta dura!! Um “problema” do vinho pode ser seu preço.

Em Santiago, há poucos dias atrás, verifiquei em uma enoteca que a garrafa está custando cerca de 120 mil pesos chilenos, algo como 190 dólares americanos.

É impressionante a quantidade de rótulos de Cabernet sauvignon que podem ser vistos nos supermercados e adegas chilenas. É difícil escolher pois, mesmo os mais modestos, são bons. Veja abaixo um exemplo do que digo.

Prateleiras de vinhos Cabernet sauvignon em um supermercado de Santiago

Dos 105.543 hectares de castas tintas plantadas no país o Cabernet sauvignon ocupa 42,211 hectares, ou seja, 30,45 % desse total.

No Chile, o vinho é produzido há mais de 150 anos.

Abaixo, ilustro uma fotografia dos anos 90 da “biblioteca dos vinhos” da vinícola Cousiño Macul onde se nota um lote de Cabernet sauvignon do ano 1938. Na época, quando tirei essa foto, eu fazia parte do “Círculo de Amigos da Cousiño Macul”. Anos agradáveis!

Outra fotografia bem interessante é do histórico barril de 22,000 litros, de 1883, da Concha y Toro onde era envelhecido o Cabernet sauvignon daqueles anos.

Tradição é o que não falta no Chile, na elaboração do velho e honesto Cabernet.

Como já observamos anteriormente, no Chile há grande predominância das uvas tintas sobre as brancas. As tintas ocupam uma área de 105,543 hectares(74,7%) enquanto as brancas ocupam 36,375 hectares(25,3%). É um país de tintos!!

Contudo, não se pode subestimar os bons brancos locais, dentre eles os Chardonnays e excelentes Sauvignon blanc (que se assemelham aos da Nova Zelândia!!). Até os Viognier, Riesling e Gewürztraminer estão entrando na parada! A fila anda!!

Um fato importante é que os vinhedos chilenos não foram afetados entre 1850 e 1890 pela praga da filoxera. Por isso, as videiras são plantadas diretamente no solo, algo que raramente ocorre em outros países. Esses países usam um sistema de enxertia onde castas de vitis americanas(imunes ao ataques da filoxera) são utilizadas como cavalo, enquanto as de vitis viníferas são os cavaleiros.

O Cabernet sauvignon chileno é o original francês importado nos anos 1850 e, segundo alguns estudiosos, é o mais delicioso do mundo.

Em junho de 2019, ou seja, dias antes de escrever essas linhas, o Gran Reserva Cabernet sauvignon da Vinícola Carmen(a mais antiga do Chile , fundada em 1850) foi galhardonado em Londres pelo 16º Concurso Internacional da Revista Decanter, como o melhor Cabernet do mundo. Recebeu 97 pontos e a medalha de platina. Algo importante: custa somente US$ 10 dólares. Em uma semana de vendas foi todo vendido no mercado chileno. Tive a sorte de comprar uma garrafa que guardo comigo.

Regiões Produtoras do Chile

O mapa acima é autoexplicativo e não entrarei em detalhes. Chamo atenção para a área cor laranja entre Santiago-Puente Alto, Buin e Maipo que é a sub-região do Alto Maipo no Vale Central onde se produz o melhor Cabernet sauvignon. O Vale Central é composto por quatro sub-vales ou sub-regiões, Maipo, Rapel, Curicó e Maule.

 O Vale Central é uma grande planície aluvial situado entre a Cordilheira da Costa do Pacífico e a Cordilheira dos Andes.

Como já mencionei, o sub-vale mais reconhecido onde se produz o melhor cabernet sauvignon é do Maipo, em especial o Alto Maipo, nas encostas da Cordilheira dos Andes e que se inicia, praticamente, em Santiago, Puente Alto e Pirque, onde está estabelecida a vinícola Concha y Toro.

A verdade é que existem diferenças regionais de qualidade entre as diferentes sub regiões produtoras de Cabernet sauvignon(o que é natural!!).Abrir os olhos para esse detalhe importante.

No Chile, a relação é bem forte entre a classe de consumidores e os vinhos que consomem. Nem sempre essa diferença tem a ver com a qualidade dos vinhos.

Cerca de 70% da população consome, habitualmente, vinhos reservados ou similares(vinhos de consumo corrente); são vinhos cujos preços por garrafa se situam entre os 1,300 e 4,000 pesos chilenos(2 a 6 dólares americanos) onde se pode encontrar bons vinhos;

Pouco mais de 20% da população tem acesso habitual a vinhos reserva ou Gran Reserva cujos preços não ultrapassam os 8,000 pesos chilenos(12 dólares americanos). Normalmente, são adquiridos por consumidores mais informados sobre vinhos e com melhor poder econômico;

Menos de 10% da população consumidora de vinhos tem acesso habitual aos chamados vinhos Premium, de meditação ou de culto. São vinhos caros(alguns podem chegar aos US$ 550,00 a garrafa) e que exigem melhor conhecimento(e cartão de crédito) do consumidor, para que possam desfrutar plenamente o produto. A média de preços desses vinhos se situa entre os 20 e os 100 dólares americanos por garrafa de 0,75 litros). Alguns são muito exclusivos e, normalmente, exportados; vivem à procura de medalhas de reconhecimento mundo afora.

Alguns exemplos de vinhos que representam esses três grupos:

Grupo 1

Grupo 2

Grupo 3

As listas seriam enormes e ficaremos por aqui.

Há outros tintos “super-chilenos” que não entraremos em detalhes pois merecem várias páginas como o Seña (Viña Seña de Robert Mondavi e Eduardo Chadwick), o Chadwick (Vinhedo Chadwick, o único chileno a obter 100 pontos em um concurso internacional) ou o Almaviva (Philippe de Rothschild e Concha e Toro).

Quando tiverem oportunidade de degustar-los, não a percam!

Obrigado e até a próxima.

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