Uruguai e seus Vinhos … muito mais que Tannat

O vinho bebido com moderação aquece o corpo, melhora a digestão, incrementa o apetite, ajuda o sono e tem muitas propriedades medicinais

Dioscórides, médico, farmacêutico e botânico grego (Grécia 60AC)

No início dos anos 1970 quando vivia em Santa Maria, Rio Grande do Sul, período em que era professor da Universidade Federal de Santa Maria, costumava visitar com certa frequência, o Uruguai. Essa frequência aumentou, entre os anos 1990 e 2011 quando era Oficial Sênior da FAO/ONU e prestava assistência técnica a projetos florestais no país.

Graças a essas viagens, tive o privilégio de acompanhar o desenvolvimento gradual da vitivinicultura do Uruguai.

Recentemente, revendo alguns livros, me deparei com uma etiqueta e algumas anotações de um vinho uruguaio de 1998 que reproduzo abaixo.

Don PASCUAL- me foi presenteado por um amigo uruguaio no ano 2000, para celebrar meu aniversário que coincidiu com uma das viagens feitas ao Uruguai. Gratas recordações vieram à mente ao encontrar essa etiqueta!!

O vinho era um blend (assemblage, corte) de tannat com merlot. Seus taninos eram equilibrados, pouco ácido, provavelmente amaciado pela merlot e pelo carvalho do barril, no qual permaneceu seis meses (assim anotei há 18 anos as sensações organolépticas no verso da etiqueta).

Recordo que os vinhos elaborados com tannat naqueles anos eram mais ácidos, ásperos, adstringentes e nesse caso, aquele corte da tannat com merlot, “amaciando a fera”, era uma boa indicação de que as coisas estavam mudando para melhor.

Com os anos a casta tannat passou a ser parte da tradição e cultura nacional, pois acompanha (e bem) os famosos “asados” uruguaios.

Essa casta foi introduzida no país por Don Pascual Harriague em 1838 e, por isso, é ainda hoje conhecida como Harriague.

Com o passar dos anos (e de minhas viagens ao Uruguai), passei a notar uma gradual e positiva transformação da viticultura nacional.

Hoje seus vinhos são mais “globais”, acompanhando as tendências de apreciadores e consumidores nacionais e internacionais mais exigentes e esclarecidos sobre a ciência do bom vinho. Vários prêmios internacionais foram recebidos por esses vinhos, nos últimos anos.

Atualmente, as opções são maiores e mais diversificadas com relação aos diferentes produtos oferecidos embora a tannat seja ainda a “bandeira nacional” da vinicultura.

 O Uruguai se transforma no “pequeno notável” com relação à qualidade dos seus vinhos. É só observar os vários prêmios internacionais recebidos nos últimos anos!!

Essa última observação pode ser verificada no livro “1001 vinos que hay que probar antes de morrir” (Beckett & Bellier, 2008) que enumera o vinho uruguaio AMAT, 2002-Tannat, da Bodega Juan Carrau (terroir Cerro Chapéu), pertencente à família Carrau, como um desses vinhos.

Curiosamente, é um vinho do nordeste uruguaio da região de Rivera, fronteira com Livramento/Brasil, o qual possui clima mais quente e solos mais arenosos. É um bom exemplo do que pode ser elaborado com a tannat quando se usa tecnologia moderna e condições técnicas de alto nível, aliadas a um terroir próprio para a variedade.

Da mesma forma o AMAT Tannat 2009, foi reconhecido pela Guia Descorchados como o melhor tinto de 2009. Seguindo esses passos, o Reserva Tannat 2010 foi premiado como o segundo melhor tinto.

Embora a história da viticultura uruguaia tenha sido iniciada no século 19, por volta de 1870, somente na década de 1970 é que foi acelerado o seu processo de modernização (como em muitos outros países), com técnicas mais avançadas de plantio, seleção de melhores clones, experimentos com novas variedades e maior tecnologia aplicada à elaboração dos vinhos. Entre essas técnicas podemos mencionar a micro oxigenação.

Da mesma forma, os novos blends (cortes) da Tannat com outras castas francesas (Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Syrah além das brancas como Alvarinho, Chardonnay, Sauvignon blanc, Ugni-blanc, Viognier e outras), deram uma nova identidade aos seus vinhos.

A função social da vitivinicultura é muito importante para o país, pois emprega mais de 50 mil trabalhadores.

Vinhos Uruguaios no cenário Internacional

Com cerca de 190 vinícolas, o Uruguai é o quarto produtor sul-americano depois da Argentina, Chile e Brasil. Em termos quantitativos, sua produção não poderia ser comparada com os gigantes Argentina e Chile e, muito menos, a outros “gigantes mundiais” como Itália, França, Espanha ou Estados Unidos.

Só a título de curiosidade, 81% da produção mundial está nas mãos de apenas 10 países e, os outros 19% é repartido por muitos outros países produtores.

Aprofundando nessas estatísticas, a produção mundial de vinhos em 2017 foi de 250 milhões de hectolitros e a do Uruguai foi, aproximadamente, 600 mil hectolitros, o que equivale a 0,25% da produção mundial.

Em outras palavras, estatística e economicamente é uma tarefa muito difícil para esse pequeno país competir comercialmente com os gigantes, especialmente, nos custos de produção, o que faz com que esses vinhos sejam relativamente caros no comércio internacional, reduzindo a sua competitividade.

Isso explica, em parte, porque a maior parte de seus vinhos, cerca de 80%, é destinado ao consumo interno.

Contudo, minha experiência pessoal ensinou que com vinho, mesmo em pequenos países produtores, pode-se esperar boas surpresas com o fator qualidade; esse é o caso do Uruguai onde mais importante que as estatísticas é o próprio vinho aliado à tradição e a cultura nacional (como é o caso de muitos outros países).

 O consumo interno aproximado é de 26 litros por habitante/ano, ou seja, o Uruguai é o 17º país maior consumidor de vinho do mundo.

Quando a qualidade é alta, a competitividade é facilitada através de um adequado marketing.

Vinhedos e Vinhos


Foto da Garzón

Segundo estatísticas de 2018 do Instituto Nacional do Vinho (INAVI), o país tinha 6.348 hectares plantados com Vitis viníferas. A maioria dos vinhedos está em dois Departamentos. Cerca de 65,2% desse total está no Departamento de Canelones e 11,6% no Departamento de Montevideo.

De forma geral, 76,7% dos vinhedos não ultrapassa os 20 hectares e só 6 vinhedos (0,4% do total) possuem mais de 50 hectares.

Cerca de 36% dos vinhedos de todas as idades estão plantados com Tannat. A merlot está em segundo lugar com 11,2% do total, seguida da Marselan (7%), cabernet sauvignon (6,8%) e cabernet franc (4%).

Castas Tannat

Os vinhedos de Marselan têm crescido substancialmente nos últimos anos e hoje ocupam 7% de toda área com uvas tintas, ou seja, 126 hectares.


  Marselan

A Marselan é uma casta de origem francesa, resultado do cruzamento em 1961 da cabernet sauvignon com a Garnacha. É também plantada na Espanha, Itália, China, Estados Unidos, Brasil e Argentina.

As uvas tintas correspondem a 80% das plantações (5.043 hectares) e as brancas a 20% (1.245 hectares).

Com relação às castas brancas, a liderança está com a Moscatel de Hamburgo com 19% do total. Essa casta é muito utilizada na elaboração de vinhos de mesa (Vinho Comum-VC); em seguida vem a Ugni Blanc (Trebbiano10,5%) e outras. A novidade mais recente é a uva Albariño (alvarinho) originaria da Galícia/Espanha, e também responsável pelo ótimo vinho verde branco português. Esta casta está tendo bons resultados no Uruguai e, recentemente, provei um albariño da Bodega Garzón de Maldonado. Era um vinho fresco e bem frutado, com aroma a pêssego e limão. Muito agradável! Encontrei certa semelhança com o vinho branco da uva verdejo de Rueda, Castilla y León (Espanha).


Casta Albariño

Classificação dos Vinhos

Há dois níveis principais de classificação dos vinhos, de acordo com o INAVI.

  1. Vinho de Qualidade Preferente (VCP) – Vinho fino de melhor qualidade.
  2. Vinho Comum (VC) – É o Vinho de Mesa. São mais simples e, normalmente, comercializados em garrafões, em embalagens do tipo Tetra Pak, ou na elaboração de vinhos do tipo Rosé.

Informações adicionais:

Para obter mais informações sobre os vinhos uruguaios, recomendo visitar alguns sítios web selecionados de algumas vinícolas e do INAVI que acrescento abaixo. Como o número de sítios é considerável, apenas menciono aqueles cujos vinhos conheço.

INAVI: www.inavi.com

Bodega Bouza: www.bodegabouza.com

Bodega Santa Rosa: www.bodegasantarosa.com

Bodega Spinoglio: www.bodegaspinoglio.com

Bodega Alto de la Ballena: https://altodelaballena.com

Bodegas Carrau: www.bodegascarrau.com

Bodega Pizzorno: www.pizzornowines.com

Bodega Garzón: https://bodegagarzon.com/pt/

Bodega Stagnari: www.stagnari.com

Bodegas Castillo Viejo: www.castilloviejo.com

Bodega Pisano: www.pisanowines.com

Bodega DeLucca: www.delucawines.com

Vinícola Don Pascual:    www.vinodonpascual.com.br


Tannat 2017 de Canelones (com uma saudação especial de um saxofonista da Orquestra Sinfônica de Praga)

“En la buena música, como en los pinot noirs y los cabernets, cultivar un gusto instruído es en realidad el fundamento para adentrarse más a fondo en el tema”

Ted Gioia – Cómo Escuchar Jazz, 2016

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