A Bela Toscana (Itália) e seus Vinhos

Os vinhos da Toscana são como a luz do sol engarrafada (Leonardo da Vinci)

Minha recente viagem em outubro 2018 à Itália, e em especial à Toscana, trouxe lembranças sobre uma das minhas regiões italianas preferidas que é a toscana, por isso aproveito a ocasião para oferecer aos amigos minhas memórias sobre essa incrível e bela região e seus vinhos.

Muitas vezes apreciamos um vinho porque ele nos lembra uma bela excursão que fizemos a seus vinhedos; outras vezes, porque a cidade com sua cultura, a paisagem e outros aspectos nos lembra grandes momentos. E até mesmo porque o vinho era muito bom!! A Toscana e seus vinhos é uma espécie de resumo de todas essas sensações e isto a faz especial.

A Toscana, situada na Itália central e epicentro do renascimento italiano, cuja   capital é Firenze (Florença) é uma das regiões mais belas da Itália. Suas paisagens, seus campos de flores, seus vales, oliveiras, seus ciprestes e vinhedos, sua gastronomia e seus vinhos, fazem dessa região algo inesquecível para quem teve a fortuna de conhecê-la. Se diz que é necessário mais de uma vida para conhecê-la bem.

Foi aqui que Dante Alleghieri, o pai da língua italiana e autor da Divina Comédia, juntamente com Boccaccio e Petrarca desenvolveram a grande literatura italiana. Assim como Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti grandes gênios da escultura, arquitetura e pintura, desenvolveram suas obras consagradas e de valor universal. Verdadeiras joias da arte renascentista.

Desde os anos 1970, sempre que posso, e como fiz em outubro de 2018, visito essa linda terra e cada vez mais minha admiração aumenta.

No que tange ao seu vinho, a minha “amizade” vem dos anos 1950, da minha infância, pois guardo na memória aquela garrafa arredondada com uma cintura gorda e toda revestida de palha, característica do Chianti que o meu pai costumava beber.

Em 1977, na minha primeira viagem a Roma, Giovanni, um amigo italiano, recomendou visitar o restaurante Giardinaccio que ficava próximo ao Vaticano. Lá, notei que Chianti era o vinho da casa. Era um Chianti elaborado em San Gimignano, exclusivamente para o proprietário que se chamava Nicolino. Ali me dei conta que a típica garrafa (Fiasco) era mais folclórica e turística que verdadeira representante do Chianti.

O proprietário, muito gentil, ofereceu minha primeira aula sobre esse vinho. Ele enfatizava que a garrafa “típica” não era sinônimo de vinhos de qualidade. Essas eram muito exportadas para os Estados Unidos, pois esse país, com a grande quantidade de imigrantes italianos que tinha, era o maior comprador desse vinho. Na realidade, os Estados Unidos da América segue sendo o mercado que mais consome os vinhos toscanos.

Nicolino mencionou que o vinho era elaborado pela mistura de quatro uvas. A sangiovese (70%), a cannaiolo nero (20%), a trebbiano e algo de malvasia (10%). As duas primeiras eram tintas e as duas últimas eram brancas e “amaciavam” a dureza da sangiovese. A “ fórmula” do Chianti moderno havia sido “inventada” pelo Barão Bettino Ricasoli em 1872 em seu castelo de Brolio. Claro que hoje essa “fórmula” foi alterada como veremos mais adiante.

 Retirei a etiqueta da garrafa, como sempre fazia, e a guardei até hoje. A sua fotografia é indicada abaixo.

Ha poucos anos fui visitar o Giardinaccio e, para minha surpresa e tristeza, verifiquei que aquele restaurante que significava algo para mim, já não existia. O Nicolino havia falecido e hoje o antigo restaurante era abrigo de sem tetos e imigrantes. Que pena!!

Nas minhas idas e vindas à Itália e, especialmente, nos 6 anos que vivi em Roma, aprendi que a Toscana tem muito mais que Chianti e vamos descrever uma pequena parte dessa rica vitivinícola.

A Toscana

O cultivo das vinhas e produção de vinhos na Itália central já tem quase 3000 anos. Desde os etruscos e gregos, passando pelos romanos. Porém foi na idade média que nobres famílias florentinas deram o grande impulso a esses vinhos. Quem não conhece os nomes Antinori ou Frescobaldi? São famílias que estão ligadas ao vinho toscano desde o século 13.

É uma região de clima mediterrâneo com invernos não tão frios, porém, chuvosos; seus verões são ensolarados, secos e bem quentes (mais agradáveis nas áreas mais altas).

As condições climáticas e edáficas favorecem a produção de vinhos aromáticos e fortes. As diferentes zonas de cultivo são mais favorecidas pela topografia de suas colinas e montanhas do que pela latitude. Por isso, a tendência na região é plantar as videiras nos pendentes dessas colinas que possuem solos mais vulcânicos, drenados e calcários além de receberem mais luz do sol. E vale notar que cerca de 75% da Toscana é de colinas e montanhas.

As uvas tintas são plantadas até a cota de 550 metros e as brancas até 700 metros (seu período de maturação é mais longo e são mais ácidas).

Nas áreas próximas a Firenze, os solos são formados por uma rocha argilosa e que se desintegra com o ar e luz do sol conhecida como galestro que tem a característica de formar solos áridos e pobres, ótimos para o cultivo de castas viníferas.

Nas minhas primeiras visitas à região no final dos anos 70, a indústria vitivinícola era ainda bem conservadora e tradicional. Hoje, está bem modernizada não só nos sistemas de plantação das vinhas como também pela adoção de variedades internacionais como a cabernet sauvignon e a merlot entre as tintas e a chardonnay e sauvignon blanc entre as brancas.

Existe um competente grupo de jovens enólogos, com muito conhecimento internacional e ótima visão de negócios internacionais.

Atualmente, a Toscana é a região que traz a maior receita em enoturismo no mundo pois cada visitante gasta em média US$ 201 por dia. Em Bordeaux, na França, cada visitante gasta US$ 75/dia. Em Napa Valley, Califórnia, o valor é de US$ 188/dia e em Mendoza, Argentina, não passa dos US$94/dia.

As Uvas

A mais famosa das uvas tintas da Toscana é a Sangiovese que constitui a base dos vinhos Chianti Clássico, Brunello di Montalcino e Vino Nobile di Montepulciano (há vários clones dessa uva, porém, não entrarei em detalhes)

Também, atualmente, cultivam uvas estrangeiras como a cabernet sauvignon, merlot e outras; porém essa história contarei mais à frente.

Cannaiolo nero é outra uva tinta autóctone que participa cada vez menos da composição do Chianti.

Também acrescentaríamos a Prugnolo Gentile (clone de sangiovese) e Pollera Nera.

Nas montanhas não tão distantes de Firenze, há duas variedades tintas nativas que vale a pena mencionar: Pomino e Carmignano. São conhecidas desde 1716. Visitei essas localidades em 2012 a convite da Marchesi di Frescobaldi. Região muito bonita a sudoeste de Florença.

Sangiovese da toscana

Das uvas brancas a mais cultivada é a Trebbiano toscano, seguida da Malvasia toscana e Malvasia candia, a Vermentino di Luni, a Ansonica, além de Chardonnay e Sauvignon blanc. Sem dúvidaa mais reconhecida é a Vernaccia di San Gimignano que produz o melhor branco da Toscana. Vale dizer que esse foi o primeiro vinho branco italiano a receber o grau de DOCG (Denominazione d ‘Origine Controllata e Garantita)

Classificação dos Vinhos

A pirâmide abaixo ilustra a classificação dos vinhos não só da toscana como da Itália em geral.

Denominação de Origem Controlada e Garantida (DOCG)

São os que seguem rigorosamente a normativa oficial de qualidade. Se supõe serem os melhores em termos de qualidade embora nem sempre seja assim (ver os super-toscanos). São produzidos em zonas geográficas específicas com certa prioridade para aqueles que já eram reconhecidos de 5 a 10 anos como DOC. Existem 11 DOCG na Toscana.

Antes de serem colocados no mercado são rigorosamente analisados (testes organoléptico e físico) por uma comissão oficial.

Denominação de Origem Controlada (DOC)

São vinhos que se originam em uma área certificada delimitada com regras específicas de produção. São submetidos a uma análise físico-química durante a produção e um teste organoléptico final com requisitos rígidos de tipicidade. Existem 42 DOC na Toscana.

Indicação Geográfica Típica (IGT)

Vinhos originados de áreas mais amplas e abrangentes que não satisfazem os requisitos legais DOCG ou DOC. São etiquetados com a localidade de sua produção.

Equivalem ao “Vin de Pays” na França. Existem subcategorias de IGT na Toscana.

Vinho de Mesa

Vino da Tavola em italiano. Conhecido no dia a dia como Vinho da Casa. É o mais popular e econômico e pode ser elaborado com diferentes uvas, sem indicação de região ou de safra.

Vamos ver mais adiante que, atualmente, os famosos “Super Toscanos”, até pouco tempo, eram vinhos de mesa. Veremos o porquê.

Os Vinhos

Os vinhos que predominam na toscana são os tintos. Cerca de 90% da produção e consumo são de tintos. A produção toscana alcançou em 2017 as 279 mil toneladas de castas viníferas correspondendo a 1,8 milhões de garrafas.

Nesse grupo os mais importantes são:

  • Brunello di Montalcino
  • Vino Nobile di Montepulciano
  • Chianti

Esses três são conhecidos como os três mosqueteiros da viticultura toscana.

Super Toscanos (grupo especial com vários representantes famosos)

O grupo dos brancos é liderado por dois vinhos:

  • Vernaccia di San Gemignano
  • Vino Santo

Outros não tão famosos como o Galestro (Vino da Tavola) também fazem parte da festa. O galestro Frescobaldi é excelente como aperitivo. Bom para peixes, frutos do mar ou carnes brancas com pouco tempero e sal.

Sobre o Brunello di Montalcino e o Vino Santo, já publiquei dois posts anteriormente. Convido os amigos interessados a acompanhar esses dois posts nesse blog.

O Vin Santo da Frescobaldi é também excelente. Tive o prazer de degustá-lo no próprio Castelo di Pomino.

Vino Nobile di Montepulciano

Embora exista uma variedade de uva que se chama montepulcianoesse vinho não tem nada a ver com essa uva. Esse DOCG é elaborado nas colinas a sudeste de Florença com o clássico corte que produz o Chianti (nesse caso sem a cabernet sauvignon), São vinhos robustos que permanecem dois anos em barris de carvalho, possuem uma cor púrpura escura, aroma a frutos vermelhos escuros e “liquirizia”.

Como são vinhos caros e que levam algum tempo para ir ao mercado; os produtores elaboram um vinho mais jovem e com bem menos tempo de amadurecimento (máximo um ano) que é vendido como Rosso di Montepulciano. Essa é a mesma estratégia utilizada pelo Brunello que elabora o Rosso di Montalcino.

Chianti

Existem três níveis de vinho Chianti:

  • Chianti
  • Chianti Clássico
  • Chianti Clássico Riserva

O nome Chianti, segundo dados históricos, já existia a 700 anos DC.

Brolio, o maior produtor de Chianti, já está nesse negócio desde 1141 e, as 33 gerações da família que se seguiram, compartem o negócio até hoje.

Contudo, o Chianti moderno, como hoje conhecemos, foi elaborado em 1872 pelo Barão Bettino Ricasoli em seu castelo de Brolio.

O Chianti original era produzido com a clássica “fórmula” de uvas sangiovese (70%), cannaiolo nero (20%), trebbiano e malvasia (10%). Hoje se mistura sangiovese (75%), cabernet sauvignon (15%) pouca cannaiolo e até 5% de sauvignon blanc. Porém, poucos produtores utilizam, atualmente, as uvas brancas.

As exigências da legislação é de que todo Chianti DOCG tenha pelo menos 75% de sangiovese.

Notaram acima a cabernet sauvignon? As mudanças na legislação em 1984 permitiram a adição de “uvas estrangeiras”, especialmente a cabernet sauvignon, cabernet franc, syrah e merlot o que contribuiu para melhorar o nível do Chianti.

Em 1716, o Grão-Duque Cósimo III da família dos Medici, demarcou a área de produção do vinho Chianti entre as colinas das cidades de Florença e Siena que era o centro da Toscana. Essa área vai desde Arezzo a leste até o Mar Tirreno entre Gaiole e Castellina. É essa a área do Chianti Clássico.

Em 1924 foi estabelecido o Consórcio do Chianti Clássico cujo símbolo é um Galo Negro (Gallo Nero), que vem colado no gargalo da garrafa. Quando o Galo está sobre um fundo amarelo o Chianti é jovem. Quando o fundo da etiqueta for prateado, o Chianti deve ter pelo menos dois anos de elaborado. Quando o fundo é amarelo-ouro o Chianti é reserva.

A demarcação foi motivo de muita briga dos produtores “excluídos” da zona clássica e estes criaram o “Consórcio Chianti Putto” simbolizado pelo Deus Baco quando criança. Recordo bem o Chianti Putto nos anos 1970.

Esse consórcio não mais existe; hoje, mesmos esses vinhos, são chamados simplesmente de Chianti, zona que inclui os conhecidos Colli Fiorentini (Firenze), Colli Senesi (Siena), Colli Pisani (Pisa), Colli Aretani (Arezzo), Colli Empolesi e os Chianti Rufina e Montalbano.

Produtores recomendados: Há pelo menos 25 produtores e vinicultores consagrados na zona do Chianti Clássico, porém mencionarei apenas aqueles que tenho conhecimento “de campo” e aprecio.

Antinori (Santa Cristina entre outros), Frescobaldi (Castello di Nipozzano, Pomino Rosso de Rufina e Montesodi) Ricasoli (Riserva del Barone), Ruffino (Riserva Ducale), Serristori (Riserva Machiavelli) e Pasolini.

Com referência aos vinhos brancos, o que mais me agrada é o Vernaccia di San Gimignano produzido desde o século 13 com a casta Vernaccia nas colinas da cidade de San Gimignano.

Recentemente, fiz uma pequena cata em Florença (10/10/2018) com vinhos Chianti, e creio que estão com uma qualidade superior.

“Os Super Toscanos”

Nos anos 1960, os vinhos Chianti estavam perdendo muito do seu prestígio pelo excesso de produção e baixa qualidade da maioria desses vinhos.

Alguns produtores insatisfeitos com essa situação decidiram por conta própria modernizar as suas produções investigando outros blends com uvas estrangeiras, especificamente as francesas cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot e syrah.

Como a legislação vigente do Chianti restringia esse tipo de atividade, decidiram seguir seus próprios caminhos e produzir vinhos de mesa de alta qualidade.

Foi assim que o Marquês Mario Incisa della Rochetta na área costeira de Bolgheri produziu em 1968 o primeiro vinho resultado da assamblage de duas uvas francesas, a cabernet sauvignon (75%) e a cabernet franc (25%) a que chamou de Sassicaia (Tenuta San Guido). A ideia original era produzir um vinho com características de um Bordeaux Premium.

A região de Bolgheri, outrora pouco apreciada e próxima à costa do mar Tirreno, surgiu então como uma grande produtora nos anos 70.

Outro conhecido Bolgheri é o tinto Ornellaia elaborado pela família Antinori com cabernet sauvignon e franc e merlot. Esse vinho chegou ao mercado em 1988 como um tinto de guarda.

Piero Antinori produziu outro cinco estrelas toscano que é o Tignanello. O Ornellaia foi produzido pelo seu irmão e o Sassicaia pelo seu tio. Em 2003 lançou no mercado outro famosos, o Guado al Tasso com cabernet sauvignon, merlot, syrah e outras uvas.

O Tignanello, que originalmente era um Chianti Clássico Riserva, se transformou em um super-toscano elaborado com sangiovese, cabernet sauvignon e franc. Vinho para guardar de 10 a 15 anos.

O irmão do Tignanello é o Solaia que é elaborado com as mesmas uvas. Em 1978 era um simples Vino da Tavola por não seguir a normativa DOC; hoje é uma lenda internacional.

Outro que destacaria é o Ca’Marconda-Magari de Bolgheri e que provei recentemente em Roma. Se trata de 50% de merlot,25% de cabernet sauvignon e 25% de cabernet franc. O vinho é seco, com 14% de volume alcoólico, com taninos doces, e fresca acidez. Os vinhedos são da região de Maremma próxima ao mar Tirreno.

O próximo que indicaria seria o Carmignano produzido em região vinícola a oeste de Firenze com um blend de sangiovese com cabernet sauvignon oferecendo certas características de um Bordeaux de alto nível. Recomendo o Villa de Capezzana.

Para finalizar a lista de alguns notáveis, mencionaria o Morellino de Scansano. Morellino é um clone da Sangiovese. O vinho é produzido na região de Maremma ao longo da costa ocidental da Toscana, nas colinas da Vila de Scansano. É um vinho fresco e seco que não necessita envelhecimento; aromas a cerejas negras, ameixa e grapefruit.

Os “Super Toscanos” são “vinhos de culto” e alguns são considerados “vinhos de troféu ou de investimento” Podem, também, ser considerados vinho de proprietário pois cada produtor elabora seu vinho de acordo com suas próprias “investigações” sem preocupações com a normativa DOC ou DOCG.

Com a reformulação da legislação dos vinhos italianos muitos desses vinhos são atualmente classificados como IGT, DOC ou DOCG.

A verdade é que a lista que poderíamos citar é bem grande, fugindo um pouco ao objetivo desse post. Hoje, como já mencionado, cada grande produtor elabora o seu super Toscano.

Em abril desse ano (2018) estive em uma grande enoteca de Nova York, e contei 15 estrelas super-toscanas que não conhecia a preços nada econômicos.

Mille Grazie. Ci rivedremo presto.

Obrigado. Até a próxima.

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