Os Vinhos da África do Sul

“A person with increasing knowledge and sensory education may derive infinite enjoyment from wine”

(Ernest Hemingway)

(Uma pessoa com crescente conhecimento e educação sensorial pode obter grande prazer do vinho)

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A região vinícola da África do Sul se situa na parte meridional do país, entre os oceanos Atlântico e Índico, tendo a cidade do Cabo como porta de entrada.

O navegador português Bartolomeu Dias foi o primeiro a explorar a região em 1497, porém, as primeiras videiras só foram plantadas por colonos holandeses em 1655, na Península do Cabo (aos pés da Mountain Table) com mudas trazidas da Espanha e França. Os primeiros vinhos foram elaborados em 1665.

Nessa época os holandeses fundaram na cidade do Cabo a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais pois a região havia se tornado importante rota comercial da Europa para o Oriente (as Índias).

Conhecer a história da África do Sul significa compreender melhor sua atual diversidade política, cultural e vinícola.

De forma bem resumida, os bôeres (colonos franceses e holandeses), primeiros colonizadores, enfrentaram no final do século 19 os britânicos em duas guerras sendo derrotados em 1902. Como consequência foi criada em 1910 a União Sul-Africana com domínio britânico. Em 1931, a União tornou-se independente e em 1961, abandonou o Reino Unido. Em 1994 ocorreram as primeiras eleições democráticas onde Nelson Mandela foi eleito Presidente.

Isso explica em parte porque a África do Sul tem três capitais: Pretoria, capital administrativa, Cidade do Cabo, capital legislativa e Bloemfontein, capital judiciária. Além disso, conta com 11 idiomas oficiais sendo o africâner e o inglês sul-africano os mais importantes, além de 8 outros idiomas que são utilizados pelos sul-africanos. Nesses aspectos é um país bem complexo!!

Foi na década de 1990, com o fim do Apartheid (segregação racial), posterior abertura comercial e término do boicote internacional, que os vinhos sul-africanos começaram a ser qualitativamente melhorados, reconhecidos e aceitos pela comunidade internacional.

Nos últimos 20 anos o país tem investido muito em ciência, educação, alta tecnologia e inovação sendo a razão de seus merecidos e reconhecidos êxitos incluindo o setor vitivinícola.

No final da década dos 80 provei em Roma, pela primeira vez, um tinto sul-africano que tinha o selo da KWV (Associação das Cooperativas dos Vinicultores Sul-Africanos). Se tratava de um cabernet sauvignon-shiraz muito “verde”, pouco balanceado e rústico. Hoje, quando degusto um vinho do país, sinto o notável progresso que ocorreu no setor em tão pouco tempo.

Esse desenvolvimento foi iniciado nos anos 1990 com o replantimage002io de vinhedos com novos clones de variedades europeias, alta capacitação técnica de enólogos e boa gestão das vinícolas. O processo foi bem-sucedido pois, atualmente, a exportação de vinhos corresponde a 10% do PIB nacional.

 

A África do Sul por seu caráter, solos, clima mediterrâneo e vegetação lembra aspectos da Europa mediterrânea. Seus verões são longos e quentes e os invernos suaves e úmidos.

O país, lamentavelmente, é o 30º mais seco do planeta e apresenta um sério déficit hídrico. As videiras dependem muito de irrigação.

O que ajuda o clima da região é a influência moderadora dos ventos úmidos soprados pelos oceanos Atlântico e Índico e os ventos alísios da corrente fria de Benguela que vem da Antártica e sopram na costa sudoeste da África do Sul.

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Vale de Franschoek e as montanhas Helderberg

Uvas Cultivadas

Por sua história e colonização europeia, além de seu clima mediterrâneo, as variedades cultivadas na África do Sul foram trazidas da Europa com maior presença das castas francesas (como em outros países!).

O total da área cultivada em 2016 com uvas destinadas à produção de vinhos era de 95,775 hectares. As exportações em 2017 corresponderam a 448,5 milhões de litros. No total o mercado de vinhos corresponde a mais de 10% do PIB e emprega direta e indiretamente mais de 300 mil trabalhadores.

A África do Sul é o sétimo maior produtor mundial de vinho e o sexto maior exportador (cifras de 2013).

As variedades brancas são a maioria com 55,2% do total. As variedades tintas constituem os 44,8% restantes.

Das brancas a mais cultivada é a chenin blanc localmente conhecida como steen (18,5%), seguida da colombard (12%), sauvignon blanc (9,7%), chardonnay (7,2%), moscatel de Alexandria (5%) e a riesling do Cabo (2,8%).

A tinta mais cultivada é a cabernet sauvignon (12%), seguida da Shiraz (10,4%), merlot (6,8%), cinsault (5,7%). Pinotage (5,5%), e outras (4,4%).

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Castas pinotage

Classificação dos Vinhos

Antes de comprar ou degustar um vinho é recomendável que se conheça sua origem, nível e qualidade. Essas informações podem ser obtidas ou estimadas diretamente de sua classificação através da etiqueta da garrafa.

Na África do Sul o Organismo Nacional Regulador dos Vinhos e Bebidas Alcoólicas (KWV por suas siglas em Africâner) estabeleceu em 1973 um sistema para a classificação dos vinhos, segundo suas origens geográficas, que segue parcialmente padrões franceses. O KWV foi criado em 1918 para disciplinar o processo de produção e distribuição nacional e internacional do vinho, e com as mudanças dos anos 90 foi bem reformulado.

O sistema sul-africano se baseia no chamado Vinho de Origem. Esse sistema busca garantir que toda uva utilizada proceda de determinada origem.

Nas garrafas a etiqueta indica a uva com a qual foi elaborado o vinho e este deve conter pelo menos 75% dessa uva colhida no ano que indica a etiqueta. Para vinhos de exportação esse percentual aumenta para 85%.

Casta e vinho chenin blanc (steen)

O sistema se baseia na localização geográfica das áreas de produção sendo criticado por alguns como impreciso por não normatizar ou controlar a qualidade dos vinhos.

Para se entender bem o sistema de classificação é necessário prestar muita atenção pois há certa mistura entre regiões, distritos, vales e zonas razão pela qual muitos o considera complexo e ambíguo.

O sistema de “Vinho de Origem” enfoca essencialmente o sistema de etiquetagem e não entra em detalhes sobre regras e regulamentos técnicos para a produção dos vinhos.

Montanhas e vinhedos do vale de Stellenbosch

O Sistema de Classificação

Nunca será demais repetir que no momento de escolher uma garrafa é aconselhável conhecer um pouco sobre o sistema de classificação dos vinhos do país; esse pode ser um bom indicador de sua qualidade e do seu preço!! Seja qual for o país!! Minimiza a possibilidade do neófito “comprar gato por lebre”.

Vamos ao sistema de classificação:

1. Unidade Geográfica: Não é uma denominação de origem sendo usada desde 1993 para indicar as quatro grandes áreas de produção.

  • Área da Península do Cabo;
  • Área do Cabo Ocidental (Vinhedos do Sul);
  • Área do Cabo Ocidental (Vinhedos do Oeste);
  • Área do Cabo Ocidental (Vinhedos do Leste).

2. Região: Zona de Origem composta por vários distritos ou áreas de distrito. Criticada por ser imprecisa.  Essas regiões são:

  • Stellenbosch, Constância e Paarl (maiores áreas de produção de vinhos da África do Sul).
  • Overberg, Olifants River, Swartland, Vale de Breede e Klein Karoo (áreas mais quentes e produzem vinhos mais simples).

3. Distrito: Se refere a uma zona vinícola maior e contínua dentro das regiões como por exemplo o Vale de Stellenbosch ou Paarl (vejam que esses distritos estão na região de mesmo nome). Os 18 distritos são indicados a seguir.

  • Stellenbosch, Paarl, Cape Town, Tygerberg, Overberg, Elgin, Walker Bay, Cabo Agulhas, Olifants River, Swartland, Darling, Tulbagh, Breederkloof, Worcester, Robertson, Swellemdam, Calitzdorp, Langeberg-Garcia.

4. Ward: Descreve uma zona ou parcela pequena e bem definida. Os wards mais conhecidos são de Constância e Franschoek (reduto dos franceses em Africâner). Essa é a classificação mais específica e equivale no sistema francês a uma parcela ou zona com bom terroir. No contexto do sistema o ward é mais uma exceção que regra.

Adicionalmente, há outro termo que é recomendável conhecer: Estate (Propriedade). São áreas que possuem condições ecológicas semelhantes. Se refere a uma propriedade formada por uma ou mais áreas de produção que só pode utilizar uvas dessas áreas, devendo ser vinificadas e engarrafadas na mesma propriedade. Equivale à expressão francesa “Produit et mis en bouteille au château”. Ou “a la Proprieté”.

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Vale de franschoek e um premiado pinotage com as montanhas Helderberg ao fundo

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Vinhos de algumas regiões

Em primeiro lugar é bom saber que para visitar a área produtora de vinhos da África do Sul, a região do Cabo, normalmente, a única opção que se tem partindo da América do Sul é chegar por via aérea a Johanesburgo. Há voos que partem da Europa direto para a cidade do Cabo.

A cidade do Cabo fica a 1 hora e meia por avião ou 1400 km por carro (15h30). É uma região bem a sudeste do país onde o Atlântico encontra o Índico.

A cidade do Cabo, com seus 3,5 milhões de habitantes é a segunda maior do país, depois de Johanesburgo e uma de suas capitais. É uma linda cidade situada entre o mar Índico e as montanhas (Mountain Table).

O mapa ilustrado a seguir mostra as principais áreas vinícolas e suas proximidades com a cidade do Cabo (Cape Town em inglês).

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           Áreas vinícolas próximas à Cidade do Cabo

As regiões de Stellenbosch e Constância situadas próximas à costa, são as áreas mais antigas na produção de vinhos e contam com mais de 200 vinícolas. É uma região com cerca de 20% das vinícolas do país, concentrando forte turismo eno-gastronômico.

Outra região que se destaca é Paarl (em idioma africâner significa Pérola) situada ao norte de Stellenbosch.

A região de Stellenbosch é a mais conceituada na produção de vinhos. Aqui se elaboram excelentes brancos com a uva chenin blanc.

No século 17, com as guerras entre a França e Inglaterra e fechamento das fronteiras comerciais entre os dois países, Napoleão Bonaparte que era um dos grandes apreciadores dos vinhos fortificados e licorosos sul-africanos elaborados com chenin blanc e moscatel de Alexandria, costumava importar esses vinhos para sua corte. Os Czares russos faziam o mesmo.

É interessante notar que na África do Sul a área plantada com chenin blanc é bem superior àquela francesa do Vale de Loire, região de origem dessa uva.

Essa casta produz um vinho com aromas a maçã verde, melão maduro e limão e na boca exalta sabores cítricos.

Há um excelente vinho branco o Robusto Chenin elaborado pela vinícola Rudera com uvas bem maduras. Se trata de um vinho semiseco com passagem por barris de carvalho que o deixa com uma acidez equilibrada, bem balanceados e bem-acabados.

Outra vinícola que se recomenda é a Vergelegen que elabora um vinho seco, com 14% volume de álcool, com semillon (67%) e sauvignon blanc (33%) plantados em altura nos vinhedos da montanha de Helderberg. Acidez equilibrada e bem balanceado.

A Vergelegen também elabora excelentes tintos em assamblage de cabernet sauvignon com merlot e cabernet franc. São vinhos mais fortes, bem balanceados, com 14% em média de volume alcoólico.

Chamaria a atenção para a vinícola Le Riche de Stellenbosch que é conhecida por elaborar bons e bem-acabados cabernet sauvignon no Vale de Jonkershoek (um dos wards de Stellenbosch).

Ainda citaria a vinícola Meersburg também de Stellenbosch, que lançou o Rubicon Estate uma excelente assamblage de cabernet sauvignon-merlot e cabernet franc.

Em Stellenbosch os viticultores, de forma geral, preferem seguir o processo francês de Bordeaux de elaborar tintos de mistura (assamblage). Não muitos produzem tintos varietais como Le Riche. Nessa região existem sete wards que produzem excelentes vinhos. Os tintos dessa região são os mais balanceados de toda a África do Sul, destacando as castas cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc, shiraz e pinotage.

Na cidade de Stellenbosch está a destacada Universidade de Stellenbosch que é conhecida por sua Faculdade de Enologia e Viticultura, seu Centro de Pesquisas Vitivinícolas e a sede atual da KWV que antes estava em Paarl e foi transferida para Stellenbosch.

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 Região de Stellenbosch (montanhas Helderberg ao fundo)

Da vizinha região de Paarl, uma das mais famosas da África do Sul, indicaria o vinho de sobremesa Edelkeur Noble Late Harvest, elaborado pela vinícola Nederburg com a Chenin Blanc botritizada (afetada pela Botritis cinerea). Esse vinho segue a tradição europeia sendo naturalmente suave e um produto final bem-acabado. Um verdadeiro clássico que já foi galhardonado com vários prêmios e reconhecimentos internacionais.

A vinícola Nederburg é a mais condecorada da África do Sul tanto nacional como internacionalmente e elabora bons vinhos de estilo clássico, com aromas e sabores frutados exportando para Europa, América do Norte e Latina.

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Um bom tinto de 2006 da Nederburg resultado de assamblage de Cabernet Sauvignon e Shiraz

O pinot noir e outras variedades de clima frio como chardonnay e sauvignon blanc estão encontrando boas condições para seus desenvolvimentos plenos nos distritos de Elgin e Walker Bay que são áreas situadas em terras mais altas, frescas e próximas ao oceano índico. (Veja no pequeno mapa ilustrado anteriormente).

O país, também, produz vinhos fortificados tipo Porto, licorosos e vinhos espumantes. Neste post não entraremos em detalhes sobre esses produtos. Quiçá no futuro escreveremos algo sobre esse tema.

Uma breve degustação: Pinotage

Como a casta pinotage não é algo que se prove ou deguste frequentemente por essas latitudes, além de ser uma autêntica representante da vitivinicultura sul-africana, decidi tecer alguns comentários sobre a mesma e fazer uma pequena e simbólica degustação.

Essa casta é o resultado do cruzamento da pinot noir com a cinsault (conhecida também como hermitage), ambas francesas, realizado pelo Professor Abraham Perold em 1925 na Universidade de Stellenbosch.

Os grandes vinhedos de pinotage só existem na África do Sul embora a casta tenha sido plantada sem muito êxito comercial em outros países. O auge das plantações de pinotage se deu nos anos 90 quando seus vinhedos chegaram a ocupar 7,4% dos vinhedos sul africanos (hoje estão em torno de 5,5%).

Quem degusta a pinotage logo se dá conta que o resultado organoléptico não tem muito a ver com a clássica pinot noir ou com a cinsault, tanto na cor quanto nos aromas ou no paladar.

Coisa típica desses cruzamentos! Eu sempre falava o mesmo na Alemanha quando me referia à Müller Thurgau que é o cruzamento da Riesling do Reno com a Sylvaner.

Como diz um amigo enófilo: Essas uvas têm o seu próprio “caráter”. Não se parecem com o pai nem com a mãe.

Conheço a pinotage há vários anos e para essa pequena degustação escolhi o Pinotage 1791 da vinícola Nederburg. Essa vinícola situada no distrito de Paarl é a mais condecorada da África do Sul e foi selecionada em 2017 pela Platter’s (Guia dos Vinhos Finos da África do Sul) como a vinícola do ano e, em 2016, foi premiada pela IWSC (Sociedade Internacional de Vinhos e Bebidas Alcóolicas) como a melhor do ano. O 1791 refere-se ao ano em que o seu fundador Phillipus Wolvaart chegou à África do Sul.

Vinho de estilo clássico, “envelheceu” por 6 meses em barricas de carvalho francês, cor vermelho escuro, com aromas a frutos vermelhos do bosque, café torrado e defumados, sendo ligeiramente picante ao paladar. É um vinho com acidez equilibrada, balanceado, retro gosto não muito acentuado e foi degustado a 16 graus centígrados.

Nessa oportunidade acompanhou uma entrada (antepasto) de queijo italiano pecorino romano e um primeiro prato (primo piatto) de “Spaghetti al Ragú”.

Acompanha bem carnes grelhadas tanto de aves quanto bovinas.

Para os apreciadores de vinhos brancos, recomendo degustar um Chenin Blanc (steen) sul-africano. Será uma boa experiência.

Recentemente, em 2015, o Concurso Mundial de Vinhos de Bruxelas, Bélgica, selecionou um Chenin Blanc 2013 da reserva familiar de Kleine Zalze, antigo vinhedo de Stellenbosch, como o melhor branco do mundo.

Da competição participaram mais de 8000 vinhos representando a 45 países e foram analisados e julgados por 299 especialistas. Um grande logro!!

Muitos acreditam que graças à Chenin Blanc, o vinho branco sul-africano é pouco superior ao tinto. A meu modo de ver, este é um tema subjetivo e relativo que vai depender de alguns fatores naturais, geográficos e tecnológicos assim como o gosto de cada especialista. Recomendo que cada um tire suas próprias conclusões e para isso será necessário degusta-los.

Vinho é um tema que somente ler não é suficiente. Só apreciando e degustando é que aprendemos!! “Experiência é vida” como dizia um velho amigo.

Se recomenda iniciar pelos mais simples e ir crescendo na escala de exigencias à medida que se adquire mais conhecimento e educação sensorial.

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Vinhos sul-africanos mais comuns e encontrados em muitos países.

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Dankie!!! Tot wederom!!! (Africâner)

Obrigado!! Nos vemos em breve!!

Wine makes daily living easier, less hurried, with fewer tensions and more tolerance” (Benjamin Franklin)

 

 

 

 

 

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