Nova Zelândia e seus Vinhos

Give me a bowl of wine, In this I bury all unkindness (Shakespeare, Julius Caesar)

(Dê-me uma jarra de vinho e nela enterrarei todas as indelicalezas)

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Lago Wanaka,Ilha Sul,Nova Zelandia

Você já teve a oportunidade de degustar um vinho neozelandês? Ainda não? Então, não perca a oportunidade de degustá-lo pois, a experiência será muito agradável.

Sabia que seus vinhos de Sauvignon Blanc e Pinot Noir estão entre os melhores do mundo?

Trata-se de vinhos tão agradáveis como a hospitaleira e simpática gente deste lindo país.

Nesse post darei algumas informações essenciais para que conheçam um pouco desse longínquo e oceânico território. É importante, quando degustamos um vinho, que tenhamos algum conhecimento de como êsse vinho é elaborado e da cultura de onde êle provem. Então…boa leitura, bem-vindos à terra do Kiwi, dos All Blacks e divirtam-se.

A Nova Zelândia se situa na Oceania, a sudoeste do oceano Pacífico. O país é formado por duas grandes ilhas: A Ilha Norte e a Sul e por outras ilhas vizinhas que juntas cobrem uma área de 269.000 quilômetros quadrados.

O país é uma monarquia constitucional e uma democracia parlamentar. Como faz parte do “Commonwealth” (Reino Unido), a Rainha Isabel II da Inglaterra é, também, Rainha da Nova Zelândia. Quem governa o país é o Primeiro Ministro neozelandês.

A capital do país é Wellington, situada no extremo sul da Ilha Norte, ao lado do Estreito de Cook que separa as duas ilhas. Abaixo, a sua bandeira e o seu símbolo nacional que é a simpática ave Kiwi.

A história dos primeiros vinhos neozelandeses começou em 1819, com a introdução das primeiras castas híbridas pelo Reverendo e missionário anglicano inglês Samuel Marsden. Essas plantações sofreram perdas consideráveis a partir de 1853 pela praga da filoxera e, o primeiro empreendimento vinícola do país só teve início em 1863.

Contudo, nos anos 1960, os primeiros ventos de modernização da vitivinicultura nacional começaram a soprar. Mesmo assim, a qualidade dos vinhos ainda era bem modesta, resultado da utilização da casta híbrida americana conhecida por Albany Surprise (Isabella).

Nos anos 1960/70, por orientação de consultores alemães, foram introduzidas as primeiras castas de Müller-Thurgau (cruzamento de riesling do Reno com sylvaner) responsáveis por vinhos simples, leves, de cor verde-palha e frutados. Uma espécie de casta da série B para alguns (embora muitos não estejam de acordo com essa afirmação).

Era em muitos países, a década, da “síndrome do Liebfraumilch”, uma imitação de um vinho meio-doce do Baixo Reno alemão (originalmente da Paróquia de Nossa Senhora da cidade de Worms). Esse vinho era imitado em algumas partes do mundo como no Brasil e nos Estados Unidos onde ainda existe com o nome de Blue Nun (Freira Azul).

Os neozelandeses, também, começaram a produzi-lo com Müller-Thurgau e exportar para a Inglaterra. O vinho ainda sobrevive na Alemanha, mas, é de nível bem modesto.

O salto qualitativo foi dado pelo setor vitivinícola com a introdução de bons clones de Sauvignon Blanc, Pinot Noir e Chardonnay e eliminação incentivada pelo próprio governo de 20% das plantações de Müller-Thurgau, nos anos 1980, em uma tentativa de melhorar a qualidade dos vinhos nacionais.

Como resultado, no início do presente século, esses vinhos já estavam ganhando reputação internacional e sendo comparados aos seus primos do Vale de la Loire e Borgonha na França.

Nesse mesmo período as novas plantações de Pinot Noir já haviam suplantado às de Cabernet Sauvignon e Merlot.

Atualmente, o Pinot Noir neozelandeses está entre os melhores do planeta.

Confesso que fui um afortunado e lhes direi porquê!!

 Em 1981, Jane e eu visitamos a Nova Zelândia a convite das Empresas Fletcher, um grande conglomerado industrial nacional. O objetivo era conhecer suas enormes plantações de Pinus radiata (pinheiro da Califórnia) que estão entre as mais belas e importantes do mundo florestal. A Fletcher, também, se dedica ao ramo de grandes construções em vários países vizinhos e, a madeira é utilizada para essas construções.

A visita técnica à Ilha Norte durou uma semana e após concluída, nossos anfitriões nos convidaram para visitar a Vinícola Cooks na região de Te Kauwhata (Armazém vazio em Maori) que se situa no centro da Ilha Norte. Naquele ano, essa vinícola junto com a Montana e a Carbons, era uma das três maiores do país( em 1987 foi comprada pela Carbons).

Para nossa surpresa, a visita se estendeu ao Centro Nacional de Pesquisas Vitivinícolas na mesma localidade. No Centro, tivemos a grata oportunidade de conhecer as investigações e discutir com pesquisadores e diretores sobre o presente, o passado e o futuro do setor vitivinícola da Nova Zelândia.

Para mim a visita foi uma oportunidade histórica de conhecer o que realmente significava o setor para o país e, ter sido testemunha ocular do “ponto de virada” entre o que era e o que hoje é o vinho da Nova Zelândia 35 anos depois.

Como havia vivido na Alemanha e conhecido suas castas vinícolas, foi bem interessante observar, mesmo nos anos 80, a influência alemã introduzindo as castas “Chasselas” (gutedel) e Müller-Thurgau. Verificamos, também, a tendência da indústria local de imitar vinhos franceses, alemães e espanhóis. A maioria era vinhos de caixa ou de garrafas Magnum de 1,5 litros ou 2,2 litros como indicam as etiquetas abaixo que fazem parte do que resta de minha coleção.


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A visita ao Centro Nacional de Pesquisas antecipava o enorme desenvolvimento que estaria por vir, fato confirmado nos últimos 30 anos.

À título de curiosidade, ilustro abaixo a edição de agosto de 1981 do Jornal do Centro de Pesquisas, onde um vinicultor demonstrava técnicas de anelamento nas suas vinhas.

Um dos grandes desafios que enfrentavam era o das enfermidades fúngicas, motivadas pelas fortes chuvas e umidade na Ilha Norte.

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Em meu post de junho de 2017 sobre “ Eu e a Rainha Pinot Noir” há algumas linhas que mencionei sobre a Nova Zelândia que gostaria de repetir:

“Viajei à Nova Zelândia em Setembro de 1981 para visitar as operações florestais da Fletcher Company, um grande conglomerado industrial daquele país.

Depois das visitas oficiais, que duraram uma semana, fomos convidados para visitar a vinícola Cooks na cidade de Te Kauwhata. Chamou minha atenção o fato de que a maioria do vinho produzido no país era comparado a algum outro vinho europeu. Assim, diziam que o vinho era produzido com as mesmas uvas daqueles do Mosel no Baixo-Reno alemão, ou como o Cooks Alicante fazia menção aos vinhos espanhóis ou como os vinhos da Borgonha quando se tratava de vinhos tintos com Pinot Noir. Porém nada diziam do terroir local (vejam as etiquetas que reproduzo acima).

Perguntado sobre o porquê dessas comparações, era comum ouvir que era para melhor informar ao grande público consumidor sobre os vinhos daqueles países e que eles estavam investindo forte em pesquisa e comunicação, para no futuro elaborar vinhos tão bons ou melhores do que aqueles dos países que agora usavam como fator de comparação nas etiquetas.

Atualmente, a Nova Zelândia elabora um dos melhores Pinot Noir do planeta e um Sauvignon Blanc espetacular e suas etiquetas são bem diferentes”.

Hoje, possivelmente, sejam outros países que copiam as suas etiquetas. Assim é a vida!!

Regiões vinícolas e suas Castas Viníferas

As regiões vinícolas da Nova Zelândia se estendem por 1.200 Km da parte setentrional da Ilha Norte (Northland) até a parte meridional da Ilha Sul (Central Otago).

As primeiras e mais importantes zonas vinícolas do país eram Auckland, Hawke’s Bay e Gisborne, adquiridas por títulos de nobreza. As zonas de Wairarapa e Martinborough, no extremo sul da Ilha Norte, só foram reconhecidas em 1980.

Na parte central da Ilha Norte o clima varia de marítimo fresco, com verões moderados e invernos suaves, com precipitações abundantes. Já na Ilha Sul há forte influência continental, com névoas, muito frio ou calor, dependendo da estação do ano.

O país tem uma grande variedade climática e edáfica o que propicia grande variedade de vinhos.

Acompanhando os mapas acima, descreveremos as castas mais importantes por região.

Ilha Norte

  1. Nortland – a mais quente- Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay;
  2. Auckland – Cabernet Sauvignon e Franc juntamente com Merlot;
  3. Ilha de Waiheke – Cabernet Sauvignon e Merlot;
  4. Waihako /Bay of Plenty – Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Franc Merlot e Syrah;
  5. Gisborne – Capital nacional da Chardonnay, Sauvignon Blanc e Cabernet Sauvignon;
  6. Wairarapa/Martinborough – Pinot Noir e Sauvignon Blanc.

Ilha Sul

  1. Nelson- Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling e Pinot Noir;
  2. Marlborough (vinhos e espumantes) – Pinot noir, Sauvignon Blanc; Chardonnay e Riesling – Região famosa pelo Sauvignon Blanc;
  3. Waipara – as mesmas castas que na região anterior;
  4. Canterbury – as mesmas castas anteriores;
  5. Wanaka – Mesmas castas anteriores;
  6. Central Otago – vinhos de altitude (mesmas castas anteriores).

Desde 1983, a lei definiu que a etiqueta do vinho deve mencionar a uva e, esta deverá participar com pelo menos 85% em sua composição. A região, também, deve ser mencionada, como, por exemplo: Central Otago, Marlborough ou Hawke’s Bay.

A Zona de Wairarapa tem sua etiqueta própria como, por exemplo: “100% Martinborough Terrace Apellattion Committee” o que certifica que o vinho provém 100% dessa região.

A partir de 1994, a lei delimitou as Zonas de Produção, Sub-Regiões, Vinhedos ou Propriedades.

É interessante observar que a maioria das plantações se situa na costa leste (Pacífico Sul), usando as montanhas como forma de proteção contra as chuvas.

O que dá certa acidez e frescor aos vinhos do país é o longo período de maturação das castas, associadas às frias temperaturas; isso propicia importante balanço entre o desenvolvimento dos aromas e acidez.

Segundo as cifras de 2017, a área de videiras da Nova Zelândia era de 37.129 hectares, com uma produção total de 313,9 milhões de litros. O número de vinícolas era de 675.

A Sauvignon Blanc é a uva mais plantada no país com 22,085 hectares (59,48% do total), seguida da Pinot Noir com 5,653 hectares (15% do total). Outras seis castas dividem menos dos 25% restantes (Chardonnay, Pinot Gris, Merlot, Riesling, Syrah e Cabernet Sauvignon).

É interessante observar que as castas brancas correspondem a mais de 84 % de todas as plantações. Ou seja, a Nova Zelândia é, predominantemente, um país de vinhos brancos.

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A Nova Zelândia é hoje, mundialmente, reconhecida e apreciada, especialmente, por dois vinhos de superior qualidade: Sauvignon Blanc e Pinot Noir

Fotos de wine folly

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E também pelos lindos carneiros… (tinha que ser carneiro!!). Mais de 40 milhões de carneiros para uma população de 4,6 milhões de habitantes. NZ é a maior exportadora de ovinos do mundo, exportando para cerca de 70 países.

Vinhos Recomendados

Como já mencionado, atualmente, a Nova Zelândia é internacionalmente mais conhecida por seus Sauvignon Blanc e Pinot Noir.

  1. Na realidade, como já mencionamos, outros vinhos são também elaborados em “assamblage” de uvas francesas no estilo Bordeaux com Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Syrah e Petit Verdot.

Esses “blends” são comuns nas zonas mais quentes da Ilha Norte, em especial, na região de Hawke’s Bay (costa leste para o oceano Pacífico sul).

Bons exemplos de tintos e brancos são elaborados nessa região pela vinícola Te Mata Estate. Vale a pena guardar esse nome.

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Região de Hawke’s Bay situada na costa leste da Ilha Norte próxima ao Pacífico Sul.

A Ilha Norte, também, produz bons Pinot Noir na sub-região Waipara/Martinborough já próxima do Estreito de Cooks que separa as Ilhas Norte e Sul.

Na Ilha Sul, em Marlborough, encontraremos os famosos Sauvignon Blanc neozelandeses. Essa área é belíssima e fica ao lado do Estreito de Cooks e o Pacífico Sul. Possui 24.020 hectares de vinhedos que correspondem a 72% de todos os vinhedos do país. A Sauvignon Blanc ocupa 85,8% de todas as variedades plantadas em Marlborough, seguida da Pinot Noir com 6% e a Chardonnay com 3,3%. A região é a capital nacional do Sauvignon Blanc.

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Região de Marlborough. Baía de Clifford no Estreito Cook. Capital do Sauvignon Blancnc

A reputação da Sauvignon Blanc na Nova Zelândia deve- se à vinícola Cloudy Bay de Marlborough que, também, elabora bons Pinot Noir e Chardonnay.

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Cloudy Bay,vinhedos em Marlborough

Os vinhos das safras de 2015 e 2017 são excelentes e receberam pontuações internacionais, que variam de 87 a 93 pontos (em uma escala de 1 a 100). São vinhos que guardam certa semelhança em aroma e sabor com os melhores Sauvignon Blanc chilenos.

Possuem fragrâncias e aromas variados a cítricos, maracujá, frutos tropicais, pêssego, grapefruit, melão e maçã verde. Esses aromas dependem do terroir, da época e do ano em que foram colhidas as uvas, do clima, dos clones utilizados e outros fatores.

Em geral, possuem bom estilo e são bem balanceados. Na boca, mostram sensação final refrescante e mineralizada. Devem ser degustados jovens.

Um detalhe interessante é que cerca de 90% desses vinhos já não mais utilizam as tradicionais rolhas de cortiça (Quercus sauber). Agora, a moda é utilizar as “screwcaps” (rosca) que mantém os vinhos inalterados. Além de dar uma boa mão ao meio ambiente.

 

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Sauvignon Blanc de Cloudy Bay
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Sul da Nova Zelândia com seus Alpes ao fundo

Quando se trata de Pinot Noir, recomendo duas regiões: Marlborough e Central Otago (ambas na Ilha Sul). Sobre a primeira já descrevemos algumas de suas características, porém para os especialistas, o melhor Pinot Noir é o de Central Otago.

Dando uma olhada no mapa que colocamos nesse post, nos damos conta de que a região é a última da Ilha Sul da Nova Zelândia. A mais meridional! E a que produz vinhos nas maiores altitudes (vinhos de altura) no país. Por aí passam os Alpes do sudoeste neozelandês.

É a sétima maior produtora de vinhos do país e, ao lado do Pinot Noir, também existem vinhedos de Chardonnay e algo de Sauvignon Blanc e Riesling.

Seu clima é continental, com extremos climáticos diários bem pronunciados, recebendo os ventos do Mar da Tasmânia a oeste e do Pacífico Sul a leste. Os verões são quentes e secos e os invernos muito frios, com nevadas e geadas. Seus solos possuem estruturas bem diferentes daqueles do resto do país, com muitos depósitos minerais e silte. Por todas essas características produzem um Pinot Noir único que está entre os melhores do planeta. São vinhos elegantes e de boa longevidade.

Alguns especialistas internacionais colocam essa região entre as cinco melhores do mundo na produção de Pinot Noir, juntamente com o vale de Willametee no Oregon, Stellenbosch na África do Sul, Napa Valley na Califórnia e Margaret River em Perth, Austrália. Falamos do Novo Mundo!

A cidade de Queenstown, bem ao sul, é a porta de entrada para a região de Central Otago onde existem mais de 200 vinícolas, sendo uma região com forte fluxo turístico em todas as estações do ano.

A região é subdividida em cinco sub-regiões produtoras que são: Gibbson, Cromeell/Pisa/Lowburn, Bannockburn, Bendigo, Wanaka/ Alexandra.

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Cidade de Queenstown, porta de entrada de Central Otago tendo os Alpes ao fundo
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Central Otago e os Alpes neozelandeses
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Central Otago com seus vinhedos de altura
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Pinot Noir de Marlborough e de Central Otago

Recomendo, se sua preferência for o Pinot Noir, os de Marlborough e/ou Central Otago.

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Alpes neozelandeses na região de Queensland.

Cenário de filmes como Senhor dos Anéis, Harry Potter, Crônicas de Narnia, Game of Thrones, Hobbit, entre muitos outros.

“I love the connection between wine and music. Both are best when shared…be it a quiet rendezvous, time with good friends or for inspiration along the journey. In each bottle is a new melody to be discovered, a symphony of notes and infinite possibilities”

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Dave Koz, Jazz Musician (saxophonist) and Wine Producer

Até a Próxima!!

 

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