A Tunísia e seus Vinhos

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“O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança quando tomado com sabedoria” (William Shakespeare)

É quase certo que não encontraremos um vinho premium tunisiano no livro “1001 Vinhos que temos que provar antes de morrer” (Beckett & Bellvev) pois, a Tunísia não é considerada uma das grandes regiões vinícolas do nosso planeta.

São verdades relativas já que não podemos deixar de reconhecer que o peso dos vinhos tunisianos reside em sua história e vêm sendo elaborados, (embora de forma pouco consistente), há mais de 2000 anos. As vinhas foram levadas para a Tunísia pelos fenícios no período Púnico, ou seja, há exatamente 815 anos antes de Cristo e foram estabelecidas em torno a cidade de Cartago, a outrora capital da Tunísia.

A história é longa e passa pela invasão romana no século III AC. quando foram saqueados e levados para Roma todos os compêndios vinícolas escritos pelo pai da vitivinicultura tunisiana, o Agrônomo Magon, originário de Cartago

Com a expulsão dos romanos pelos árabes que dominaram a região até o século VII depois de Cristo, a cultura do vinho foi praticamente abolida.

Com a invasão dos franceses em 1881 e caída do Califado Otomano, a Tunísia passou a ser um protetorado francês, revitalizando a produção de vinhos.

Em 1956, com a independência da Tunísia, os franceses deixaram o país. Os 30 anos seguintes, por várias razões, foram difíceis para a economia do país minimizando a produção de vinhos.

Nos anos 80/90 o país iniciou, com apoio de investimentos estrangeiros, um processo de modernização de sua indústria vitivinícola. Vale lembrar que mesmo sendo um país muçulmano, à diferença de seus vizinhos, a Tunísia não proíbe o consumo de álcool.

Por se encontrar na faixa equatorial e ser parcialmente coberto pelo deserto de Saara, a produção de vinhos restringe-se à região nordestina do país, em sua maioria próxima a Túnis e à faixa costeira, que recebe refrescante influência da brisa marinha. Hoje o turismo europeu e os vinhos são importantes fontes de divisas.

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Os europeus buscam as aprazíveis, exóticas e ensolaradas praias do mediterrâneo tunisiano (foto do Departamento de Turismo tunisiano); o país é um destino exótico para os ocidentais.
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 Praia de Hammamet, Tunísia (Foto Detur)  
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Litoral mediterrâneo tunisiano no golfo de Hammamet (foto Detur)

Curiosidade

Um dos meus mentores na Alemanha definia curiosidade como investigação com um objetivo.

A minha curiosidade inicial por esses vinhos originou-se do fato de serem uma parte da cultura e história mundial.  São 2000 anos de história!!! E essa curiosidade nasceu na Alemanha nos anos 70. Lembro-me daqueles vinhos simples que atraíam bom número de consumidores de menor poder aquisitivo como os estudantes da Universidade de Freiburg, grupo ao qual eu me incluía.

Desfrutar desses vinhos era como fazer parte da história. Bebíamos discutindo entre amigos de vários países sobre os desertos, as praias tunisianas, o folclore e a história milenar do país. Eu era o único latino americano no grupo e que nunca havia estado na Tunísia. A maioria era de colegas otomanos e árabes. Era nossa forma de reconhecer a herança de um povo que passou por momentos difíceis em sua história sabendo sempre levantar com altivez e humildade a sua cabeça. Em nossas celebrações multiculturais não era importante discutir se eram vinhos mais simples que os europeus. Aprendi muito com esses colegas!!!

Lamentavelmente, grande parte dos meus “slides” que incluíam esses vinhos e nosso grupo se estragou nos últimos 40 anos.

Lembro-me de colegas franceses do nosso Instituto citando que os franceses desde o final da primeira guerra mundial, importaram grandes volumes à granel de vinhos tunisianos para dar mais corpo e aroma aos vinhos de mesa franceses.

Com a melhoria da qualidade dos vinhos de mesa do sul e sudeste da França nas últimas décadas, mais precisamente das regiões de Languedoc e Provence, essa importação, se ainda existe, deve estar reduzida ao mínimo.

Também recordo de algumas queixas de amigos tunisianos que diziam que os franceses não reconheciam a contribuição dos vinhos tunisianos já que as etiquetas só mencionavam “vinho francês”.

A minha “segunda fase de curiosidade” ocorreu nos anos 90, época que residíamos em Roma.

Nesse período, minha família e eu visitamos a Tunísia. Fomos passar parte do verão no balneário mediterrâneo de Hammamet e conhecer um pouco mais da cultura milenar daquele lindo país. Foi uma boa oportunidade para melhor conhecer os vinhos, cultura, praias e gastronomia.

Fiquei impressionado com a deliciosa e variada gastronomia nacional; o vinho (e o chá) sempre estava associado a essa gastronomia.  Tivemos a oportunidade de conhecer pratos exóticos (as vezes um pouco picantes) como Brik, Chorba Frik, Couscous, Kamounia (guisado de carne de carneiro com cominho), chakchouka (assado de carne), Kefteji (legumes com azeite de oliva) ou Mirmiz (estofado de cordeiro com feijão branco). Já conhecem essa culinária? Abaixo ilustro algumas imagens dessas delícias.

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Cuscuz
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Kefteji

 

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Chorba Frik
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Couscous com uma excelente garrafa de Magon (foto de Giulia Blocal)
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Cuscuz de peixe

Acrescento abaixo uma fotografia que guardo com carinho de uma visita que fizemos a um restaurante na cidade de Nabeul, onde conhecemos interessantes tradições locais, a rica gastronomia nacional e distintos vinhos.

Jarras como a que carrega a senhora são usadas para servir água e vinhos.

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Nabeul está situada no norte do Golfo de Hammamet a 68 km a sudeste de Túnis e se transformou em uma área de prestígio na produção de vinhos.

As Uvas e seus Vinhos

A produção de vinhos na Tunísia alcançou 240 milhões de litros em 2017. Desse total 65% de Rose, 30% de Tinto (especialmente Syrah e Cabernet Sauvignon) e apenas 5% de brancos (especialmente Muscat de Alexandria). A maior parte foi exportada para França, Alemanha, Polônia e Itália.

O consumo médio anual per capita é de 9 litros.

Em recente viagem que fizemos em março de 2018 aos Estados Unidos, pude comprovar a presença de vinho tinto tunisiano em uma enoteca da Praça Union (Union Square). Sinal de que a modernização de sua indústria vinícola começou a dar frutos.

Graças ao envolvimento e influência dos franceses por muitos anos na história da vitivinicultura tunisiana, as variedades viníferas plantadas são as mesmas de parte de Côtes de Rhône, Provence e Languedoc; isso pode ser explicado, também, pela semelhança nos Terroirs destas regiões francesas com o nordeste da Tunísia (clima mediterrâneo e solos rochosos e pobres).

Seguindo essa linha, as castas tintas mais plantadas são:

Carignan, Cinsaut, Grenache, Syrah e Mourvedre (lembram-se do post do Chateauneuf Du Pape?)

Também cultivam Cabernet Sauvignon Merlot e algo de Pinot Noir (na minha opinião esse não parece ser o melhor terroir para Pinot Noir).

Fotografias dessas castas já foram publicadas em posts anteriores.

As castas brancas são a Chardonnay, Clairette, Ugni Blanc, Muscat de Alexandria e a espanhola Pedro Ximenez.

Como ocorre na Provence, a maior parte dos vinhos tunisianos são rosados (65% da produção). Contudo, nota-se que a elaboração de tintos tem crescido de forma significativa.

Resumindo, a Tunísia sempre foi um país consumidor de vinhos rosados. Essa é a preferência nacional!! Talvez por seu clima quente e pelos rosados expressarem melhor suas qualidades quando estão mais frios, como devem ser apreciados.

O mapa abaixo ilustra as regiões produtoras de vinhos. Observe que quase todas estão concentradas no Nordeste (ver o pequeno mapa abaixo à esquerda). Essa é a grande área turística do país (Golfo de Hammamet, o Estreito da Sicília, Túnis e suas praias).

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A grosso modo e com poucas excessões, as plantações se concentram entre Cap-Bon, Túnis, Bizerta e Beja-Fondouba( a noroeste) somando pouco mais de 27,000  hectares distribuídos nas seguintes áreas:

  1. Haut Mornag (tintos e brancos)
  2. Kaudiat (tintos e brancos)
  3. Saint Cyprien (tintos)
  4. Thibar (tintos e brancos)
  5. Tardi (tintos e brancos muscatos)
  6. Carthage (Cartago)
  7. Hassan Bey
  8. Kelibia

Como considero os tintos os melhores vinhos do país darei algumas recomendações sobre esses vinhos.

Os tintos de Magon são bem conhecidos internacionalmente. Recomendo o de 2013. São vinhos secos e elaborados com 65% de Syrah e 35% de Merlot. O teor alcoólico é de 12,5%.

Os vinhos “Les Domaine de Carthage”, especialmente o Syrah, são também muito conhecidos, assim como os “Les Vignerons de Carthage” o qual destacaria o “Magon Majus Gran Vin de Mornag”. São vinhos com notas minerais e frutais e com toque na boca de especiarias e frutas como morangos.

Outro recomendável é o “Château Mornag (Vin Rouge) que é bem-conceituado. Mornag é uma pequena cidade de uns 2000 habitantes situada a 19 Km de Túnis.

Como sou apreciador de Pinot Noir, uma curiosidade foi ver que os Domaine de Carthages elaboram um pinot noir. Não é bem um clássico, começando pela garrafa do tipo bordalesa (característica dos vinhos de Bordeaux) já que os Pinot Noir se caracterizam pelas garrafas “barrigudas “do tipo borgonhesa. Conheço casos iguais de outros países do leste europeu (naturalmente sem tradição com pinot noir). Esse pinot noir é bem escuro, com aromas intensos, mas não é um grande vinho. Contudo, vale como curiosidade.

Para resumir, os vinhos tintos mencionados nos fazem lembrar alguns do sul da Itália (veja o post sobre os vinhos do sul da Itália) especialmente os da Puglia (uvas primitivas) e Nero d’ Avola da Sicília. Na realidade a parte nordeste da Tunísia fica bem próxima à Sicília apenas separadas pelo Estreito da Sicília.

O sistema de classificação é semelhante ao francês e foi aprovado em 1957.

  1. Vins de Consommation Courante (vinhos simples de mesa)
  2. Vins Superieurs
  3. Vins de Qualité Superieur
  4. Appelation d’Origine Controlee (AOC)

Obrigado por me acompanhar. Vemo-nos em breve. 

Chukran… (Merci beaucoup) !!

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