Os Vinhos do Estado de Nova York, Estados Unidos

 

“Vinho melhora com a idade: Quanto mais velho fico mais gosto dele” (“Wine improves with age: The older I get, the better I like it”)

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Mesmo nos Estados Unidos ainda há pouco conhecimento sobre os vinhos da costa leste do país.

Na verdade, além dos já consagrados Califórnia e Oregon, vários estados também elaboram vinhos como o Estado de Washington, Texas, Colorado e os estados do nordeste do país.

Nos anos 70, tive uma experiencia interessante com um vinho do Estado de Nova York; foi quando comecei a conhecer um pouco sobre o tipo de vinho que se elaborava nessa região e, aproveito este espaço para relembrar aquela experiência e ampliar o tema sobre os vinhos desta região.

Para começar, o Estado de Nova York é o quarto maior produtor de vinho dos Estados Unidos, atrás somente da Califórnia, Oregon e do Estado de Washington (não estou me referindo à qualidade dos vinhos). Claro que a Califórnia é responsável por 87% da produção nacional e o Estado de Nova York contribui apenas com 3,5% do total, ou seja, fica difícil estabelecer comparações quantitativas.

A minha pequena história começou em dezembro de 1978 quando fui visitar com minha família em Washington DC, o colega Jim Space. Estava voltando da Alemanha onde havia concluído meu doutorado e decidimos passar por Washington, antes de retornar ao Brasil.

Jim Space era Oficial Florestal Superior do Serviço Florestal dos Estados Unidos (USFS) e um amigo que fizemos nos tempos de Alemanha.

No jantar oferecido à minha família pelos Space, foi servido um vinho branco delicioso que curiosamente, vinha em uma garrafa quadrada e era elaborado pela Vinícola Taylor na região dos “Finger Lakes” que se situa a oeste do Estado de Nova York, próxima ao grande lago Ontario.

Era um vinho da safra de 1977 elaborado por uma mistura de castas autóctonas e híbridas, provavelmente, catawaba, delaware, cayuga e seyval blanc sobre as quais eu não tinha o menor conhecimento.

O vinho tinha uma cor amarelo-palha, frutado, lembrando maçã- verde e pera; sua graduação alcoólica se situava na casa dos 12 graus por volume. Delicioso para acompanhar o jantar.

Para minha surpresa, estávamos desfrutando a última safra produzida pela histórica vinícola Taylor que, em 1977, foi vendida à Coca Cola. Entretanto seguiu produzindo vinhos até 1995, ano em que revendeu a empresa à Vintners International. Atualmente, já bem desfigurada, a antiga-Taylor pertence à Canandaigua Wine Company que funciona na região dos Finger Lakes.

Abaixo, a título de “saudosismo”, ilustro a etiqueta “histórica” daquele vinho que desfrutamos em dezembro de 1978. Talvez seja a única etiqueta original ainda ”viva” que existe da famosa Taylor.

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A Taylor foi criada na cidade de Hammondsport em 1880 por Walter Stephen Taylor e até 1882 só produzia suco de uva; a partir daí iniciou a produção de vinhos com uvas nativas (Vitis labrusca). No ano 1920 era reconhecida como uma gigante na produção de vinhos nos Estados Unidos.

 

Um pouco da história dos Vinhos do Estado de Nova York

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Região dos Finger Lakes

A maior e melhor região produtora de vinhos do Estado de Nova York é a AVA American Viticultural Area) Finger Lakes (foto acima). Suas plantações foram iniciadas em 1677.

É uma bela região, formada por 11 lagos glaciais na forma de dedos possuindo cerca de 212 vinícolas e seu vinho mais atraente vem da casta Riesling. Nos anos 70, passaram a cultivar pinot noir, merlot, cabernet sauvignon, cabernet franc e outras. Atualmente, mais de 15,000 hectares já foram plantados e produz 90% dos vinhos do Estado.

A maior parte desses vinhos é qualitativamente modesta quando comparada a seus primos europeus ou mesmo aqueles da costa oeste.

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Região dos Finger Lakes – vista de satélite

No passado, a região só elaborava vinhos com uvas nativas como Seyval blanc ou Cayuga. Com a chegada do Ucraniano Konstantin Frank, Doutor em vitivinicultura, em 1952, foram iniciadas pesquisas com castas viníferas europeias. Em 1962, já se produzia vinhos de melhor qualidade. A partir desse período os vinicultores da região começaram a melhorar a qualidade de seus vinhos, com a plantação de híbridos franceses e, posteriormente, Vitis viníferas europeias.

A partir de 1976 várias vinícolas familiares foram abertas com a aprovação do Farmer Winery Act (Decreto da Vitinicultura Familiar).

Como mostra o mapa acima quatro Áreas Oficiais de Produção foram delimitadas no Estado de Nova York, as chamadas AVA, correspondendo aproximadamente as DOCs francesas ou italianas:

  1. Finger Lakes – a sudeste de Rocheste, é a mais famosa e produz 90% dos vinhos do Estado de Nova York;
  2. Long Island – a nordeste da cidade de Nova York;
  3. Hudson River – a norte da cidade de Nova York;
  4. Lago Erie, nas proximidades do Lago Erie a oeste do Estado que produz em sua maioria sucos de uva.

 

 As castas do Estado de Nova York


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 Entre as variedades nativas de castas brancas destacam-se Catawaba, Delaware, Diamond, Duchess, Elvira, Isabella e Niágara.

Entre as tintas as mais usadas são Concord, Ives e Steuben.

Castas híbridas são também utilizadas como aurora, cayuga, seyval blanc, vignoles ou baco noir, chambourein, chanceller, rosette e villard noir.

Cerca de 83% da área com uvas no Estado de Nova York ainda é de Vitis labrusca, ou seja, uvas nativas, especialmente a variedade ”Concord”. Somente 10% da área é plantada com Vitis vinífera e uns 7% com uvas híbridas de nativas com francesas.

As híbridas deram uma força no melhoramento da qualidade dos vinhos, porém, essa era ainda insuficiente e os produtores da região em anos mais recentes, seguindo os passos do Dr. Konstantin Frank, iniciaram o cultivo de vitis viníferas sobretudo das castas brancas riesling, chardonnay, gewürztraminer, semillon, chenin blanc e sauvignon blanc. Outras tintas também são utilizadas como a cabernet sauvignon e franc, merlot, gamay e pinot noir.

Os Vinhos

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“Nunca fiz amigos bebendo refrigerantes, mas fiz muitos bebendo vinho” (S. Sequetin)

A região elabora vinhos brancos, rosados e tintos, porém os brancos, na minha percepção, são os melhores, especialmente os rieslings. Entretanto ainda não são comparáveis aos franceses da Alsácia, dos Alemães do Reno ou mesmo da Áustria.

Os chardonnay ainda têm um bom caminho a percorrer e não estão no nível dos da Califórnia.

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Em minha última visita a Nova York, em abril de 2018, analisei alguns brancos como o da Hermann J. Wiemer, Riesling de 2016, vinícola tradicional de Ithaca, nos Finger Lakes.

Em geral os brancos são vinhos frescos e de corpo médio a leve. Os melhores são secos, com notas florais e frutais (maçã – verde, pêssego jovem, peras) graduação alcoólica pouco superior aos 11 graus e devem ser consumidos jovens.

Alguns dos produtores são de origem germânica o que fica evidenciado nos vinhos elaborados.

Os preços dos vinhos não são baixos se agregarmos as altas taxas cobradas em Nova York, oscilando dos 14 aos 70 dólares norte-americanos ou mais. É conveniente que se faça uma rápida análise de qualidade e custo/benefício, comparando esses com os preços californianos ou europeus.

Sempre observei que grande parte população norte americana aprecia o estilo de vinho elaborado nessa região (em especial os mais doces) principalmente aqueles que não conhecem muito bem o tema ou não são bem informados sobre elementos básicos de vinicultura.

Porém, como dizem alguns: “vinho bom é aquele que lhe faz sentir bem e cabe no seu bolso”. Outros preferem dizer: “gosto não se discute”. Pessoalmente, prefiro Mario Quintana quando diz que “uma vez que o homem é o único animal que bebe sem ter sede, convém que o faça com discernimento”.

É prudente advertir que se nos concentramos nos rieslings, notamos que esses vinhos são diferentes dos bons rieslings europeus. Naturalmente há algumas pequenas exceções aqui e ali.

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Um riesling Dr. Konstantin Frank de 2016

A revista Wine Spectator (maio de 2018) concedeu 91 pontos ao Riesling do Lago de Sêneca 2016, da Vinícola Hermann Wiemer, o que é bem interessante para a vinícola. Pessoalmente, eu daria uma pontuação mais realista.

Um vinho de US$ 29 dólares com 91 pontos teria que ser algo excepcional e pouco comum. A mesma revista, por outro lado, apresenta excelentes europeus e californianos com pontuação inferior.

Bom, como sou maior apreciador dos tintos, dirigi minha artilharia para dois tintos (procurei por um cabernet franc recomendado, porém, não tive sorte): Um Cabernet Sauvignon e outro Pinot Noir.

Para quem está habituado a desfrutar os Cabernet Sauvignon do Chile e os Pinot Noir da Borgonha (Côtes de Nuits) ou mesmo do Oregon, Nova Zelândia ou Califórnia, esses dois vinhos não agradaram ao meu olfato e ao meu paladar. O Cabernet era algo bem “modesto” em todos os sentidos e procurarei não comentar nesse espaço. Tentei melhor sorte com o Pinot Noir que abaixo reproduzo.

Trata-se de um Pinot Noir 2015 da Bellwether Wine Cellars que está localizada em Ithaca, nos Finger Lakes e recomendado por uma boa enoteca da Union Square de Nova York. Preço US$ 28.

De cor vermelha-claro, mais parecia um vinho rosado com matizes de marrom claro o que já não seria uma indicação de qualidade para um pinot noir jovem mesmo que se tratasse de um pinot simples. Um vinho com 11,5 graus por volume, porém, pouco equilibrado.

O aroma não era bem definido e pouco lembrava um pinot noir clássico. Distinguia-se algum aroma leve a frutas vermelhas pouco maduras.

Na boca era ácido e mesmo acético o que mascarava o prazer de desfrutá-lo.

Não desejando generalizar para todos os pinot noir de Finger Lakes, mas esse vinho além de não ser barato, era de modesta qualidade embora fosse de um produtor tradicional. Mal armazenado na Enoteca? Pelo preço, vale mais a pena comprar um pinot noir de Willamette no Oregon ou de Carneiro’s na Califórnia. O que mais me impressionou foi o Carneiro da etiqueta (para ser um Carneiro esperava coisa melhor).

O mais interessante foi que posteriormente comentei por correio eletrônico esse detalhe da minha “cata” com alguns amigos que residem nos Estados Unidos e, quase todos acentuaram que muitos vinhos tintos do Estado de Nova York são pouco “estáveis” e só os brancos escapam (especialmente os riesling secos e riesling Ice Wine) e assim preferem os da Califórnia.

Terroir pouco adequado para esses vinhos?? Muito frio e neve?? Vinho de mesa? Outros mencionam que os Cabernet Franc são melhores.

De todo modo, recomendo àqueles que tem preferência por vinhos brancos, os rieslings secos e jovens. Duas boas vinícolas? Sugiro Dr. Konstantin Frank e Herman J. Wiemer. Claro que há outras que seriam interessantes de se conhecer e provar.

That’s all Folks!!!

Por aqui ficamos!! Obrigado pela companhia e até em breve.

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