Áustria e seus Vinhos

“A Degustação de um vinho é como a interpretação de uma partitura musical; todas as   interpretações procuram ser fieis à partitura original, porém, os resultados podem ser bem diferentes pois, dependem das experiencias e sensibilidades de cada intérprete” (Jorge e Maria Dengis, Argentina)

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Vinhedos da região de Viena, Áustria, 2016

A NOSSA PRIMEIRA VISITA à terra da “Sissy – a Imperatriz” foi em 1978, a convite do casal de amigos austríacos Manfred e Ulrike Sommer que residiam em Viena.

Naquele ano, nós vivíamos em Freiburg onde eu concluía meu doutorado em ciências florestais. Foi uma linda experiência cultural de compartir aquela semana vienense com os Sommer.

Manfred havia sido professor visitante da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) onde eu, também, era professor. Ele fazia parte do grupo da “Hochschule für Bodenkultur” de Viena (Escola Superior de Ciências Agrárias da Universidade de Viena) que mantinha um Convenio de Cooperação Técnica com a UFSM.

Conhecedor do nosso interesse pelo vinho, a primeira visita que o amigo organizou foi a Grinzing, Nussdorf, Heiligenstadt e Weidling, cidadezinhas vizinhas de Viena e produtoras de vinho. Em Grinzing, nós conhecemos uma das tantas “Heurigen” que povoam esses vilarejos. As “Heurigen” são típicas tavernas que elaboram seus próprios vinhos que são conhecidos por “ heuriger” e consumidos, no máximo, 300 dias após elaborados, coincidindo com a chegada do novo vinho; acompanham pratos típicos e simples locais. O vinho é uma versão austríaca do “novello” italiano ou do bajulais nouveau francês (guardando as devidas peculiaridades de cada um).

Com o passar dos dias, verifiquei que há dezenas de excelentes e típicas “Heurigen” em todas as áreas de produção vinícola ao redor da cidade capital.

Vamos conhecer um pouco mais esse “folclórico e agradável vinho “heuriger”. Se trata de um vinho elaborado com a casta autóctone “Grüner Veltliner”; sua cor é amarela-marrom com alguns tons de palha, corpo medianamente forte, frutado, retro gosto picante (pimenta branca), acidez equilibrada e com algum gás carbônico (bolhas). A primeira advertência de Manfred foi para não exagerar o consumo do “ heuriger” pois ele pode nocautear o mais bravo. Segui seu conselho!!

É interessante observar que com a chegada do “heuriger” do ano, em 11 de novembro de cada ano, as tavernas (“Heurigen”) penduram um ramo verde de pinheiro ou uma coroa de ramos, nas suas portas de entrada. Isto indicava que ali já havia chegado o novo vinho.

Na verdade, esse vinho só tem mesmo aquela graça especial quando desfrutado nos ambientes internos e externos das “Heurigen” que hoje se converteram em todo um símbolo da cultura vienense e estão sempre repletas de ávidos turistas. Una nota adicional: No dialeto austríaco a palavra “heuriger” significa “deste ano”.

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Ambiente externo de uma “Heurigen” com Viena ao fundo

Um fato curioso

Mais à frente, explicarei um pouco sobre a classificação dos vinhos da Áustria, entretanto, já adiantaria que por fatores culturais, de boa vizinhança, históricos e até climáticos, essa classificação é semelhante ao do vinho alemão.

No caso do vinho com predicado “Spätlese” (colheita tardia), a qualidade do vinho é superior, com mais corpo, mais doce e com maior teor alcoólico. É por esta razão, um vinho mais caro, elaborado com uvas colhidas bem maduras.

Nos anos 70/80, os “Spätlese” eram bem reconhecidos na Áustria por suas qualidades sendo os melhores elaborados na região das Termas (Thermenregion), em torno ao vilarejo de Gumpoldskirchen, com as castas Rotgipfler e Zierfhandler.

Degustei alguns dos seus vinhos e, curiosamente, como apreciador dos “Spätlese” alemães, notei que o vinho era excessivamente doce; mais doce que os “Auslese” germânicos. Como sempre costumava fazer, retirei a etiqueta da garrafa a qual juntei à minha coleção de etiquetas e. registrei algumas sensações organolépticas. Fotograficamente, reproduzo a etiqueta do vinho degustado em 1978.

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No verão de 1985, “estourou o escândalo” do “Spätlese” austríaco (e do vinho branco de algumas regiões); os produtores mais envolvidos estavam, justamente, nessa zona de Gumpoldskirchen. Lamentavelmente, pude comprovar que as observações estavam corretas,  pelas minhas anotações. Aquele vinho não poderia ser tão doce.

O problema já se arrastava por alguns anos e esse delito afetou o prestígio e a imagem do vinho austríaco a nível mundial.

O que passou? Um pequeno grupo de produtores adulterava o vinho adicionando, artificialmente, a substancia glicol-dietílico para aumentar a doçura do vinho, em especial do “ Spätlese”. Essa substancia é cancerígena e sua adição é uma fraude.

Por essa razão, a partir deste ano, o governo austríaco impôs uma legislação muito rígida, iniciando uma nova geração de vinhos e formação de novos enólogos, com resultados posteriores muito positivos.

Considerações sobre a classificação do vinho austríaco

A classificação do vinho austríaco guarda forte semelhança com a do vinho alemão, conforme já foi mencionado.

A maior diferença pode estar no fato de que na Áustria o “Qualitätswein” (vinho de Qualidade) engloba o “Kabinett” e na Alemanha, esse predicado fica sob a coluna “Qualitätswein mit Predikat”. Na prática essa diferença é pequena.

Dessa forma os vinhos são classificados em:

1. Landwein (Indicação Geográfica Protegida)

É um vinho genérico de mesa superior e muito usado para consumo comum e corrente, sendo elaborado em três grandes regiões:

  • Weinland (parte superior a nordeste e noroeste);
  • Estíría (parte inferior a sudeste da área vinícola do país);
  • Bergland (parte inferior a oeste em fronteira com a Suíça).

2. Qualitätswein (Vinho de Qualidade)

Pode ser varietal ou Blend (assemblage) e deve ser elaborado com uvas de uma das 25 regiões vinícolas do país. Essas regiões devem pertencer a uma das 9 DAC (Districtus Austriae Controllatus) que é a Indicação de Origem Austríaca introduzida em 2003. A maioria dos vinhos austríacos é classificada como “Qualitätswein”.

A DAC corresponde a DOC italiana ou a AOC francesa. São 9 Distritos e para cada um foram aprovadas variedades específicas de uvas e, rígidas normas de produção de acordo com o terroir.

Na Áustria, é interessante observar que a origem do vinho indica de onde vêm as uvas que o produziram.

Os Distritos (DAC) e as uvas que devem ser seus “representantes” (os melhores terroir para essas uvas) são:

  1. Eisenberg DAC – Blaufränkisch
  2. Kamptal DAC – Grüner Veltliner, Riesling
  3. Kremstal DAC – Grüner Veltliner, Riesling
  4. Leithaberg DAC – Grüner Veltliner, Neuberger, Chardonnay, Blaufränkisch, Weissburgunder
  5. Mittelburgenland DAC – Blaufränkisch
  6. Neusiedlersee DAC – Zweigelt
  7. Traisental DAC – Grüner Veltliner, Riesling
  8. Weinviertel DAC – Grüner Veltliner
  9. Wiener Gemischter Satz – DAC Várias variedades de um mesmo vinhedo, colhidas juntas, ao mesmo tempo e elaboradas como uma “assemblage”.

Como informei anteriormente, essa classificação engloba o Predicado “Kabinett” o que equivaleria ao DOCG italiano (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) entretanto, o “Kabinett” não segue as mesmas normas do DAC de Qualidade. Por exemplo, não existe um DAC Kremstal Kabinett Riesling.

Para completar a classificação, há termos que merecem ser conhecidos:

  • Clássico (vinho seco de corpo médio) e Reserva (encorpado, seco, uvas colhidas mais tarde, envelhecidos). Por exemplo: DAC Kamptal Reserva.

3. “Qualidade com Predicado”

Auslese, Beerenauslese e Trockenbeerenauslese

São vinhos superiores e se distinguem por crescentes teores de açúcar residual e álcool. São elaborados por métodos diferentes de maturação e vinificação. As uvas são colhidas bem maduras. Naturalmente são mais caros!!

Outro tipo de vinho é o Ausbruch. É um vinho ainda hoje popular na Hungria e vem do período do império austro-húngaro. Vinho doce, com um mosto de 138 graus Oechsle (cerca de 17 a 18 graus de álcool) e com alto teor de açúcar residual acima dos 45 gr/litro. É elaborado com uvas pacificadas (ou que já foram afetadas pelo fungo Botrytis cinerea (podridão nobre), às quais são adicionadas uvas bem maduras. É um vinho de sobremesa.

O vinho é do tipo “Spätlese/Auslese”. Pessoalmente, este vinho não caiu muito bem ao meu gosto, em parte, graças ao seu sabor fúngico!

Na Áustria, pode-se desfrutar, também, excelente “Eiswein” (vinho de gelo) que é elaborado com uvas colhidas e prensadas entre mediados de dezembro e início de janeiro quando ainda estão congeladas.

Na Alemanha, quando as uvas são colhidas no período de Natal, o Eiswein originado é chamado “Weihnachtenswein” (vinho de Natal). Muito bom!! E caro!!

O Canadá é especialista nos “Ice Wines”. Em 2009, visitei a região das Cataratas de Niágara e pude observar a importância que dão a esses vinhos; são doces e fortes, bem caros e com mais de 45gr de açúcar residual por litro. Esse poderá ser o tema de um outro post.

As Uvas e os Vinhos

Se observarmos o mapa vitivinícola da Áustria e traçarmos uma linha imaginaria de norte a sul, passando a oeste de Viena, nós daremos conta de que a maior parte da área de vinhedos se concentra na parte leste; fazendo fronteira com a República Checa ao norte, a Eslováquia a nordeste, a Hungria a sudeste e a Eslovênia ao sul.

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Os vinhedos estão distribuídos em quatro grandes regiões:

I – Baixa Áustria (Niederösterreich);

II – Burgenland;

III – Estíria (Steiermark);

IV – Viena

A área total com vitis viníferas é de 56,930 hectares, sendo 67 a 70% de castas brancas e cerca de 33% com castas tintas. Há certa pulverização na distribuição dos vinhedos pois, o número de produtores passa dos 20 mil e cerca de 55% possui em média 4,9 hectares. A área plantada com castas tintas praticamente dobrou nos últimos 20 anos.

As variedades de uvas viníferas são 36 sendo 22 de uvas brancas e 14 de uvas tintas.

As variedades brancas predominantes são Grüner Veltliner (carro chefe dos vinhos elaborados pelas heurigen e com 33% dos vinhedos do país), Riesling, Zierfandler, Rotgipfler, Muskateller e Neuburger. Porém, hoje são plantadas outras castas “internacionais” (Chardonnay, Pinot Gris, Pinot Blanc, Sauvignon Blanc), em menor quantidade.

As variedades tintas mais plantadas são Zweigelt (10% da área total dos vinhedos), Blaufränkisch, Blauer Portugieser (Baixa-Áustria) e a St. Laurent, considerada por muitos como a melhor tinta austríaca e se assemelha à pinot noir. Atualmente, encontram-se alguns vinhedos plantados com pinot noir, Merlot, cabernet sauvignon e malbec (estes não são quantitativamente e qualitativamente tão expressivos).

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Grüner Veltliner
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Zweigelt

                               

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St. Laurent

 

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Blaufränkisch

Os vinhos, elaborados em países mais frios como a Áustria, tendem a ser mais leves, mais ácidos, com aromas frutados e teores alcoólicos mais moderados. Esse é o caso dos brancos Grüner Veltliner que são frescos, leves (às vezes nem tanto!!), “com muita vida” e, por isso, fáceis de beber. Na verdade, possuem algumas semelhanças com alguns brancos da Alsácia.

Há aqueles que são mais encorpados, mais potentes e com “personalidade”, especialmente alguns da região de Wachau.

Já que falamos em Wachau, é bom saber que essa é a única região do país que ainda não está seguindo plenamente a norma DAC pois, possui sua própria classificação que funciona com um sistema diferente.

  1. Steinfeder – É o vinho mais leve e consumido no verão; possui teor alcoólico inferior aos 11,5 graus;
  2. Federspiel – É um vinho superior ao anterior com teores alcoólicos que variam entre 11,5 e 12,5 graus;
  3. Smaragd – É o vinho reserva de Wachau e o de maior qualidade com um mínimo de 12,5 graus de álcool. Corresponde a um “Kabinett ou Spätlese”.

O nome Smaragd significa esmeralda e, também, pode ser um lagarto verde (lagartixa) comum nessa região.

Vale a pena acrescentar que Wachau é a zona de maior prestígio da Áustria e cerca de 10% de suas terras são plantadas com Riesling. É uma zona especializada em Riesling e Grüner Veltliner, sendo que também se cultiva a Blaufränkisch, Zweigelt, algo de Pinot Noir e Cabernet Sauvignon, introduzidos há alguns anos (talvez por razões do mercado internacional).

De forma geral, as cinco castas que mais se destacam no cenário vitivinícola austríaco são:

Grüner Veltliner, Riesling, Zweigelt, Blaufränkisch e St. Laurent.

A primeira e a Riesling são mais comuns na região Nordeste (acima de Viena), especialmente na Baixa-Áustria; alertaria para o fato de que o vinho Riesling austríaco não tem muito a ver com o seu primo famoso do Médio e Baixo Reno alemão.

A Noroeste de Viena, as localidades mais importantes para a produção de vinhos brancos são: Kamptal, Kremtal, Wachau, Wagram e Weinviertel; estas regiões possuem zonas com solos de marga (calcário e argila) e pedras calcárias.

O Leste, Região de Burgenland (tomando Viena como referência) é a região dos vinhos tintos, especialmente, de Blaufränkisch e Zweigelt.

No Sul e Sudeste, na região de Estíria (Steiermark) são elaborados brancos com variedades internacionais introduzidas nos últimos anos como chardonnay, sauvignon blanc, pinot gris e pinot blanc. Os solos dessa zona são de depósitos aluviais. É importante notar que esses vinhos são diferentes daqueles elaborados com as mesmas castas na França, Chile, Estados Unidos ou Nova Zelândia.

Qual Vinho Desfrutar?

 É necessário reconhecer que, como consequência do já mencionado “escândalo dos vinhos brancos “de 1985, a Áustria fez grandes progressos em sua vitivinicultura, atualizando e fortalecendo sua legislação vitivinícola, seus processos de produção e capacitando uma nova geração de enólogos, sem dar as costas à sua rica tradição cultural.

Pude comprovar pessoalmente essa evolução gradual através de algumas visitas ao país nos anos 90 e, mais recentemente, em 2016.

Sem querer minimizar os esforços empreendidos para incrementar o nível qualitativo e competitivo do vinho tinto, para o meu gosto pessoal, a Áustria segue sendo um país para desfrutar vinhos brancos. Não é por acaso que quase dois terços dos seus vinhedos são constituídos por variedades viníferas brancas.

Por outro lado, é difícil comparar seus tintos elaborados com castas internacionais com as consagradas estrelas italianas, francesas, espanholas, norte americanas ou mesmo chilenas e argentinas. E não farei isso nesse pequeno espaço. Não é só uma questão tecnológica. Uma série de fatores entra nessa equação como o terroir ideal para essas variedades e outros.

Claro que a degustação não é uma ciência exata e depende da experiência e sensibilidade organoléptica de cada “intérprete” (o degustador), porém, quem está habituado a degustar os melhores tintos dos países mencionados sabe a que me refiro.

Na minha última passagem pela Áustria, em 2016, pude comprovar essas diferenças e observações, especialmente com alguns vinhos de pinot noir e cabernet sauvignon como, também, com outros vinhos tintos de castas nacionais.

A seguir, recomendo alguns vinhos brancos e tintos; sugiro sempre se orientar, seja vinho branco ou tinto, seguindo a DAC oficialmente indicada para a uva a desfrutar. Isso minimiza os riscos de não fazer uma boa escolha. Foi o que fizemos abaixo.

Para a casta Grüner Veltliner:

  • Vinhos de Wachau dos anos 2011,2012,2015 e 2016
  • Vinhos de Weinviertel dos anos acima

Para a Casta Riesling:

  • Vinhos de Wachau, Kamptal, Kremtal e Weinviertel dos mesmos anos

Casta Blaufränkisch (tinto):

  • Burgenland de 2013 e 2016

Casta Zweigelt (tinto):

  •  Wgrau de 2015

Prost!!!!!   Zum Wohl!!  (Saúde!!)

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Jardins do Castelo de Schönbrunn em Viena

 

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Café Central de Viena. Pode-se, também, desfrutar um bom vinho!!

 

 

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Os Cafés de Viena estão entre os melhores da Europa. O Café Central é imperdível!!

 

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 Viena ao entardecer. A igreja barroca de São Pedro à esquerda e a Catedral gótica de São Estevão à direita

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