Vinhos do ‘’Jardim da França’’: o Vale do Loire

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O Castelo de Saumur

“Wine flies when you are having fun”

 Quando se trata de vinho tinto francês, confesso que a minha preferência está entre Bordéus e Borgonha (ver post anteriores). Mesmo quando a seleção recai sobre um chardonnay, a Borgonha segue com a prioridade seja da zona de Chablis, Côte Challonaise ou Côte de Beaune (Meursault). Disfruto, também, alguns brancos da Alsácia que são diferentes dos da Borgonha.

Contudo, há outras castas brancas que sinto prazer em disfrutar: A Sauvignon blanc e a Chenin blanc, cultivadas em outra região francesa, o Vale do Loire. Qual enófilo já não ouviu falar ou degustar um Sancerre ou Pouilly-Fumé? Puro Sauvignon blanc!! Ou mesmo un Savennières ou um Voudray? Puro Chenin!!

O Vale do Loire, também, cultiva castas tintas, especialmente, Cabernet franc e algo de Gamay e Pinot Noir, porém, à exceção do Cabernet franc, nada que se compare com suas primas tintas da Borgonha.

Este post dará um passeio pelo “Jardim da França” ou “Berço da Língua Francesa” – a Região do “Valée de la Loire”, descrevendo um pouco das suas características vitivinícolas, culturais e aproveitando recente viagem de minha esposa Jane, a essa maravilhosa e encantadora região francesa.

O Vale do Loire

É uma linda região cuja cidade principal mais próxima do sul de Paris é Orléans, a 130 Km e a mais distante é Nantes a 348 km.

A região é cortada, longitudinalmente, pelo rio Loire que com seus mais de 1000 km de extensão é o rio mais longo da França e atravessa 12 Departamentos franceses. Nasce nas montanhas de Cévennes (maciço central francês), a sudeste do país, cerca de 40 km de Valence, na Côte de Rhônes.

O rio toma a direção Sul-Norte, iniciando seu desvio para Oeste, nas proximidades das cidades de Sancerre. Pouco mais abaixo, na cidade de Orléans se redireciona para Oeste, cruzando as cidades de Tours, Angers e Nantes para desaguar no oceano Atlântico.

O rio forma um extenso e próspero vale com intensa produção agrícola e mais de 70.000 hectares de vinhedos, além de tremenda riqueza cultural da qual faz parte mais de 300 castelos.

 

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         Château de Chenonceau e o rio Cher tributário do Loire

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É a região onde aristocratas e monarcas construíram ou reconstruíram castelos medievais ou renascentistas; reformaram antigas fortalezas do século 13 que hoje constituem um fabuloso acervo arquitetônico e cultural, reconhecido em dezembro de 2000 pela UNESCO como Patrimônio Mundial.

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 Os Vinhos e Vinhedos do Loire

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França com suas regiões vinícolas situando no centro o Vale do Loire
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Mapa das sub-regiões vinícolas do Vale do Loire

 De acordo com sua urografia, o Vale do Loire é dividido em três grandes sub-regiões:

o Baixo Loire, o Médio e o Alto Loire: que formam quatro regiões vinícolas.

O mapa acima ilustra essas quatro regiões vinícolas:

  1. A região de Nantes (Pays Nantais) no Oeste, próxima ao Oceano Atlântico;
  2. A região de Anjou e Saumur, cuja cidade principal é Angers;
  3. A região de Touraine, ao redor da cidade de Tours,
  4. A região Central, mais a Leste, ao redor das cidades de Sancerre e Pouilly-sur-Loire e sul de Orléans

São sub-regiões diferentes do ponto de vista topográfico, edáfico, climático, tradições culturais e gastronômicas. As uvas cultivadas são variadas e elaboram vinhos brancos (35%), tintos (20%), rosados (30%) e espumantes (15%), com diferentes níveis de qualidade, porém, com características comuns como serem leves, frutados e bons aperitivos.

1. Zona de Nantes (Pays Nantais) – Baixo Loire

É a zona que elabora maior quantidade de vinhos do Vale de Loire. São 95 milhões de litros por ano (36% da produção do Loire), basicamente, de vinhos brancos da casta Muscadet (não confundir com a moscatel que produz vinhos doces).

São vinhos que acompanham frutos do mar, uma das tradições gastronômicas da região. São econômicos, com pouco sabor, aroma, secos, pouco ácidos e se adaptam muito bem a peixes, ostras, mariscos e crustáceos. Afinal de contas, o mar está logo ali!!

A melhor área de produção é Sèvre-et-Maine, a sudeste de Nantes, onde os vinhos são mais delicados e fragrantes. Nos anos mais quentes, os vinhos de Coteaux de la Loire são também muito bons.

Há a tradição de produção do Muscadet “Sur Lie” que é um vinho engarrafado quando ainda está em contato com o mosto (sedimento) já morto o que confere ao vinho ar mais fresco, complexo, efervescente e, certo gosto a levedura, pois o vinho foi deixado madurar sobre leveduras mortas.

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Casta Muscadet

 O Pays Nantais, adicionalmente, elabora o vinho “Gros Plant” que é um muscadet mais ácido, de categoria mais modesta.

A localidade de Arcenis, a nordeste de Nantes, elabora um vinho tinto bem simples com a casta Gamay consumido em restaurantes como vinho de casa.

2. Zona de Anjou e Saumur – Médio Loire

Zona com produção anual de 85 milhões de litros de vinho, sendo a segunda maior produtora do Vale, com 32% de sua a produção total.

A principal cidade da região é Angers. Curiosamente, o produto mais conhecido dessa região, pátria da casta Chenin Blanc, é o Licor Cointreau.

Aqui são cultivados mais de 20 mil hectares de vinhedos.

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Castelo de Angers

Anjou, até bem recente, era uma região associada à produção de vinhos rosé açucarados e Saumur, a vinhos espumantes bem modestos. O Rosé d`Anjou, elaborado com a casta autóctone grolleau (ou grolot) perdeu nos últimos anos muito terreno pois, é um vinho qualitativamente bem modesto; mesmo assim, já chegou a representar quase a metade da produção local.

O Cabernet D’Anjou é pouco melhor, porém, ambos são levemente adocicados e modestos. Já os brancos de Anjou são melhores e elaborados com a casta Chenin blanc e, algumas vezes, são mesclados com Sauvignon blanc.

Saumur, a 44 km sudeste de Angers, produz um agradável e frutado vinho tinto com a casta Cabernet franc (Saumur-Champigny). Aqui há um equilíbrio entre as uvas tintas e brancas; os vinhos brancos elaborados com Chenin blanc têm boa acidez e alguma capacidade de envelhecimento.

Em Saumur, o bom negócio são os espumantes Saumur-Mousseux, elaborados com as castas Chenin blanc, Chardonnay e, eventualmente, Sauvignon blanc.

Chenin blanc                                   Cabernet franc

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Sauvignon blanc

 3. Zona de Tours (Touraine) – Médio Loire

Zona dos famosos castelos de Loire e conhecida como “Jardim da França”.

Os vinhedos cobrem mais de 10 mil hectares dessa zona e há certo equilíbrio entre tintos e brancos.

A casta gamay é também cultivada, porém, o vinho elaborado não se compara com seu primo beaujolais, produzido na Borgonha com a mesma casta.

A área com videiras se estende das cidades de Bourgueil e Chinon, a noroeste de Tours até Blois, a nordeste dessa cidade, produzindo anualmente, mais de 40 milhões de garrafas de brancos, tintos e rosés que correspondem a 65 milhões de litros anuais, ou 24% de toda a produção vinícola do Loire

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Zona de Bourgueil tendo ao fundo o rio Loire

Os vinhedos se situam ao longo do rio Loire, assim como, ao longo de afluentes como o rio Cher que passa sob o castelo renascentista de Chenonceau.

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Château Chenonceau, com seu famoso jardim de Catherine de Médicis, tendo o rio Cher à direita. Originalmente, era uma fortaleza medieval. O mesmo foi reconstruido em 1512 em estilo renacentista

 As variações microclimáticas da região permitem o cultivo de diferentes castas. Entre as brancas se destacam a Chenin blanc e a Sauvignon blanc (a mais cultivada). Entre as tintas, cabernet franc, cabernet sauvignon, gamay e, em menores proporções, pinot noir e malbec.

A cabernet franc, localmente conhecida como Breton, é a que produz os melhores vinhos. Os elaborados com castas plantadas nas áreas mais altas, as mais ensolaradas, e que contém mais argilas e calcários, são superiores, com taninos bem marcantes e estruturas mais vigorosas.

Vinhedos plantados nas planícies aluviais produzem vinhos mais aquosos e modestos.

Confesso que as melhores denominações para o Cabernet franc são Bourgueil e Chinon. Há outra denominação, a Saint-Nicolas-de Bourgueil, que elabora vinhos frutados e leves para consumo imediato. São vinhos bem populares na França.

Vouvray, com mais de 2.000 hectares de vinhedos de Chenin, é a zona mais importante de Touraine para a produção de vinhos brancos.

Vinhos espumantes (Moelleux), de razoável qualidade, são elaborados em adegas de Turfa, escarvadas em rochas calcárias que foram levadas a ebulição por ação vulcânica. São espumantes macios e cremosos.

Visita de Campo”

Em outubro de 2017, Jane visitou o renascentista Castelo Chenonceau e percorreu algumas áreas da jovem Denominação de Origem Touraine-Chenonceaux, registrando as imagens que veremos a seguir.

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Vinhedos de Chenin blanc do Distrito de Bléré (foto da Jane Carneiro)
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Chenin blanc em área aluvial de Bléré. Touraine-Chenonceux (foto de Jane Carneiro)

Esta denominação está no Vale do rio Cher, tributário do Loire. O Cher passa por baixo do Castelo Chenonceau e se junta ao Loire a sudoeste da cidade de Tours, rumo ao Oceano Atlântico.

Os solos da região são argilosos com sílica (turfas) e, também, calcários. O microclima do Vale do Cher tem boa ventilação, luminosidade e baixa pluviometria, condições favoráveis à vitivinicultura.

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Chenonceau: próximo a Bléré e Givray

 Próximo ao Castelo está a cidadezinha de Bléré, com uma área de vinhedos que mostramos acima e, também, o Distrito Givray de Touraine-Chenonceaux onde pode-se visitar a tradicional e turística “Caves du Père – Auguste”, degustar vinhos modestos, porém, bons e melhor conhecer o terroir da zona. Há inúmeras “Caves Touristiques” que podem ser visitadas nessa Zona.

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Terroir Touraine – Chenonceaux (Foto da Jane Carneiro)

 

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Vinhedos de Cabernet franc em Touraine – Chenonceux (foto da Jane Carneiro)

 

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Caves de degustação du Père- Auguste

Outra “Cave Turística” onde é possível fazer degustações dos vinhos da zona, é o Château de L`Aulée (vinicultor independente) em Azay Le Rideau, na rodovia D 751, em direção a Tours. A “Caves de L`Aulée” apresenta um show de Slides sobre todo o processo de elaboração dos vinhos AOC Chinon e AOC Azay Le Rideau, além de ser possível degustar vinhos brancos, tintos, rosé e crément de Loire (espumante).

Château de L’Aulée, adega e vinhedos

Como sobremesa, pode-se visitar o belo castelo de Azay Le Rideau.

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4. Zona Central – Alto Loire

Região influenciada por clima continental, mais frio no inverno e que produz 8% dos vinhos do Loire, correspondendo a 21 milhões de litros por ano.

Como já mencionado, o Loire nasce no sudeste do país e toma a direção norte; na cidade de Orléans muda o curso para oeste, onde abraçará o Oceano Atlântico.

Antes, porém, o rio passa pela cidade de Sancerre, situada sobre uma meseta onde os vinhedos se distribuem em forma de meia lua, orientados ao sudeste. Esse é um dos locais com maior densidade de vinhedos da França.

Do outro lado do rio, alguns quilômetros ao sul, está a cidadezinha de Pouilly-sur-Loire, cercada por vinhedos plantados sobre solos calcários.

A casta Sauvignon blanc é original dessa área e hoje se espalha pelos melhores vinhedos da Nova Zelândia, Chile, Califórnia e Itália.

A Sauvignon blanc está para a zona Alta do Loire como a Muscadet está para a zona Baixa de Nantes.

No passado, o Distrito de Sancerre fazia parte do Ducado de Borgonha e está mais para a região de Chablis, na Borgonha, do que para outras zonas do Loire como o “Pays Nantais”.

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Zona de Sancerre com a cidade ao fundo

Sancerre elabora vinhos brancos dos mais deliciosos do Loire; há 14 Distritos (comunas) que produzem diferentes estilos de vinhos, em função de diferentes solos e exposição dos terrenos. Os solos de cascalhos fazem com que os aromas sejam mais frutados, gostos mais concentrados e cremosos.

O terroir do Pouilly-Fumé, em sua maior parte, é de solos sirex; seu vinho é mais fino e adquire certo gosto e aroma a fumaça, daí o nome fumé.

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Cidadezinha de Pouilly-Sur-Loire, com o rio Loire ao fundo e alguns vinhedos em primeiro plano

Os vinhos de Sancerre e Pouilly-sur-Loire são, provavelmente, os mais fáceis de serem reconhecidos dentre todos os vinhos franceses, por seus típicos aromas e perfumes frutais. Na realidade, essa é uma característica típica dos vinhos de Sauvignon blanc em todo o mundo. Porém, não são vinhos para guarda como os de Vouvray.

Os Sancerre mais recomendados são:

  • Les Monts Damnés de Chavignol ou
  • Clos de Chêne da localidade de Marchand a Bué

Os Puilly-Fumé mais recomendados são:

  • Châteaux du Nozet
  • Château de Tracy

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Obrigado por acompanhar-nos y “hasta la próxima”

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