Vinho Tinto “Seis Estrelas”: O Sonho de Consumo de Enófilos de Todo o Mundo – Parte III (França)

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Após conhecer um pouco sobre os “gigantes” italianos e espanhóis chegamos à França. Como o país conta com outros gigantes, decidi fazer uma rápida pesquisa com alguns colegas de 6 países; mais de 90% selecionou dois vinhos franceses: O Pétrus da região de Pomerol,Bordéus e o Romanée-Conti da Côte D`Or, Borgonha.

São dois vinhos varietais; o primeiro um merlot e o segundo um pinot noir.Vamos lá!!!!!

PÉTRUS

A região da Comuna de Pomerol, vizinha a Saint Émillion e 29 km a este de Bordéus, mesmo com pequenas dimensões, é das melhores e mais preciosas joias na produção de vinhos tintos de Bordéus. A qualidade e caráter dos seus vinhos são únicos. São 800 hectares de vinhedos nessa região, distribuídos em pequenas propriedades cuja maioria é inferior a 10 hectares. Se trata de uma região plana, tipicamente rural, sem atrativos paisagísticos e não tão bonita como a vizinha St. Émillion.

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Minha esposa Jane, e eu, passamos por essa região em junho de 2013 para melhor conhecê-la e fazer umas degustações em alguns Châteaux. Como tínhamos estado antes em outras regiões de Bordéus, nos impressionou que essa palavra tão famosa (château) fosse aplicada às propriedades que vimos. Em Pomerol, são casas e edifícios modestos que se autodenominam château. Provavelmente, nesse caso, o conceito seja sinônimo de propriedade. A torre da igreja é a única que se salva.

Contudo, Pomerol é uma região vinícola de grande prestígio mundial pelas vinícolas que ai estão. Esse prestígio começou a ser moldado depois da Segunda Guerra Mundial e sua fama atual começou a ser “ comercializada” depois dos anos 1950. Na realidade, o Château Pétrus já em 1878 foi galardoando com uma medalha de ouro na Exposição Universal de Paris.

Esse pedaço do território francês é o reino da casta merlot que ocupa 75% dos 800 hectares, seguida da cabernet franc com 20% e a cabernet sauvignon com 5%.

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Merlot por todas as partes!

A maioria dos vinhos do Pomerol pode ser degustada ainda jovem, com 4 a 6 anos após a colheita e possui taninos robustos. Com dois anos de garrafa, os vinhos já possuem aromas elegantes à ameixa e são bem redondos na boca.

O Château Pétrus é considerado a melhor propriedade de Pomerol e pertence, atualmente, às Empresas Jean-Pierre Moueix que passaram a ser dirigidas por seu filho Christian Moueix seu filho e seus netos, após o falecimento do Sr. Jean-Pierre em 2003, aos 93 anos.

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Muito da imagem atual do vinho Pétrus não se deve somente às suas qualidades, como também, a um forte e inteligente marketing do Sr.Moueix nos anos 50. O mesmo apresentou o vinho a realeza britânica e a influentes personalidades políticas estado-unidenses. O bom marketing foi uma das armas utilizadas para projetar internacionalmente o vinho. Como se dizia nos anos 60, “o Pétrus era o vinho dos Kennedy”.  Mais recentemente, a partir de 1982, Robert Parker e sua equipe também ajudou a catapultar a sua fama, com pontuações muito altas para o vinho.

Os vinhedos da Pétrus estão situados no ponto mais alto de Pomerol que é uma colina de 40 metros de altitude sobre o nível do mar, em solos argilosos que possuem uma capa ferrosa (a chamada argila-azul) com muitos seixos na base. Por isso são bem drenados e recebem alta exposição solar. Se diz que a argila-azul confere aos vinhos sua “plenitude redonda” enquanto o ferro é responsável pelos aromas de trufa quando os vinhos são envelhecidos.

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Vinhedos do Château Pétrus

Esses vinhedos de Merlot e algo de Cabernet Franc, superam os 70 anos de idade e são de baixo rendimento.

A propriedade possui 11,4 hectares e no “cuvée” final se usa unicamente a merlot. Poucas vezes é usada a cabernet franc. Se diz que a cabernet franc é uma reserva de contingencia(?) no caso do Pingus.

O Pétrus é um vinho seco, forte e de vida longa. Isso se deve mais às castas e ao solo do que à intervenção dos enólogos. O terroir é fantástico e, recentemente, a vinícola adquiriu mais terras ao vizinho Château Grazin.

O vinho no nariz é suntuoso, com aromas a carvalho e no paladar apresenta sabores frutais. Os taninos são poderosos, elegantes e equilibrados. A graduação alcoólica média vai dos 13,5 a 14,5 % do volume.

A produção é de 30 a 32 mil caixas por ano em sua maioria consumida na mesma França.

Partindo de 1970, os melhores anos de produção foram: 1979, 1975, 1982, 1990, 1995, 1998, 2000, 2001, 2005, 2006, 2008, 2009, 2010, 2012, 2004, 2015 e 2016.

Os preços são bem salgados mesmo nos Estados Unidos ou Europa. No Brasil, vi uma garrafa do Pingus 2011 a R$ 14.700,00 e um de 1945 a R$ 28.000,00.

Nos Estados Unidos pode-se comprar (poucas Wine & Spirits Stores dispõem desse vinho e são solicitadas por vendas online ou em leilões) por US$2.000 a 6.000 (dependendo do ano e outras variáveis). No Reino Unido pode-se pagar em média US$ 2.600 por garrafa (vai depender de algumas variáveis podendo subir ou baixar o preço).

Há muitas informações sobre o Pétrus, porém, creio que para esse post seja o suficiente.

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ROMANÉE- CONTI

 A Côte de Nuits tem esse nome graças à sua cidade mais importante que se chama Nuits-Saint-Georges que se situa a 28,5km ao sul da cidade de Dijon (capital da Borgonha) e continua em direção ao sul para a Côte de Beaune pelas estradas A31 (autoestrada) e a N34. As duas regiões formam juntas a Côte d`Or que é uma franja de 64 quilômetros.

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Eravamo sei amici al bar…

Paralela a essas duas estradas, há outra estrada secundária saindo de Dijon-Chênove que é a D122 conhecida como a estrada dos Grands Crus. É a mais pitoresca e bonita para quem quer sentir o perfume dos maiores vinhedos de pinot noir do mundo.  Ela vai até Vougeot onde reencontra a N74. A minha sugestão é ir a Beaune por esta estrada.

Por sua vez, a Côte de Beaune deve o seu nome à cidade de Beaune, sua cidade mais importante, centro turístico e comercial da Côte d`Or.

A Côte de Nuits é a maior faixa contínua de vinhedos de Pinot Noir do mundo, contendo 23 dos 24 tintos Grands Crus da Côte d`Or (somente 1 Grand Crus tinto está em Côte de Beaune, o Corton) e seus vinhos são chamados na França dos “ Reis do Estilo” e o território da Romanée-Conti é considerado um santuário nacional. O melhor dos melhores!!

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Côtes de Nuits e seus vinhedos da planície no outono francês

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A história da Romanée-Conti data de 1548, época em que os monges do monastério de Saint-Vivant venderam cinco parcelas em Vosne e Flagey. Nas cercanias existiam ruínas romanas e, por isso, a essa fazenda se deu o nome de Romanée. Em 1760, a propriedade foi comprada pelo príncipe de Conti, porém, o nome Romanée-Conti só veio depois da revolução francesa, quando a propriedade foi expropriada e leiloada em 1794. A história relata que em 1804, com o Código de Napoleão Bonaparte, a propriedade das terras deveria ser dividida no futuro, igualmente, entre os herdeiros, fato que hoje é responsável pela pulverização das propriedades da região.

Atualmente, seus proprietários são Sr. Aubert de Villaine da vinícola Romanée – Conti e Sr. Henry F. Roch do Domaine de La Romanée-Conti.

Os solos dessas propriedades são de origem jurássica e com muito calcário e marga.  Estes possuem uma camada de terra com 60 centímetros de profundidade, 45 a 50% de argila misturada com pedras de calcário o que propicia uma excelente drenagem. O cuidado do solo é uma grande preocupação da Romanée-Conti e, a partir de 1986, foram adotadas práticas de agricultura biodinâmica.

Exemplo na fotografia abaixo de uma prática de agricultura biodinâmica (sem fertilizantes químicos e outros produtos químicos, com o menor uso de máquinas pesadas para não compactar o solo).

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Além disso, a vinícola tem um estilo de vinificação própria, com colheitas tardias de uvas bem maduras, com baixos rendimentos, fermentações longas e quentes. As leveduras são naturais e os vinhos com mínima filtragem são envelhecidos por 18 meses em barricas novas de carvalho francês que não são reutilizadas. Como resultado, os vinhos são opulentos, sedosos com aromas recheados de ameixa e especiarias. São vinhos para envelhecer por longo tempo, caros e difíceis de encontrar.

 

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Todos os vinhedos da Romanée-Conti são demarcados com uma cruz de pedra

 

A grande casta de Côte de Nuits é a Pinot noir e, a zona de melhor desenvolvimento dos Grand Crus, está entre Gevrey-Chambertin, Morey-St.Denis, Chambolle-Musigny e Vosne Romanée. Os Grand Crus estão sempre orientados na direção do Leste ou sudeste, em encostas de leve inclinação e solos pobres.

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O Domínio Romanée-Conti conta no total com 28 hectares de vinhedos que englobam os seguintes Grands Crus: Romanée-Conti, La Tâche, Richebourg, Romanée St. Vivant, Les Grands Échezeaux, Échezeaux e La Grand Rue. A foto abaixo mostra, parcialmente, esses vinhedos Grand Crus que juntos produzem cerca de 30,000 garrafas. Anualmente, a Romanée-Conti produz cerca de 6000 garrafas.image033

De norte para o sul, há 9 comunas e um verdadeiro mar de vinhedos.  A Vosne-Romanée é a que produz os vinhos mais famosos dentre os quais o Grand Crus Romanée-Conti que é elaborado em uma parcela dessa Comuna (veja acima).

Segundo especialistas, essa parcela goza de um prestígio de culto superior ao Pétrus. É um domínio que só elabora vinhos Grands Crus e não engarrafa vinhos de parcelas menos nobres. A área de videiras do Romanée-Conti é de somente 18.100 metros quadrados, ou seja, 1.81 hectares, com uma produção como já mencionado de 6000 garrafas por ano as quais são vendidas, em todo o mundo, a preços estratosféricos a colecionadores e investidores. É o preço da fama!!!

Recentemente, vi nos Estados Unidos um Romanée-Conti (DRC) de 2011 por US$ 13.500 a garrafa; nesse mesmo local tinha outro de 2010 a US$ 15.900 a garrafa.  Em outro local, era vendido um Romanée-Conti La Tâche de 2005 por US$ 5.000. Também, observei un Richebourg 2010 pela bagatela de US$ 2.300 a garrafa. Em um leilão, do qual tenho conhecimento, chegou-se a vender uma garrafa por US$ 20.000. Em outro de 1996, leiloaram uma garrafa da colheita de 2005 por mais de US$ 28.000. Um pouco surreal, porém verdade!

Como falei tanto sobre Grands Crus, permitam-me dar uma palavrinha sobre a classificação dos vinhos na Borgonha que é bem diferente de Bordeaux.

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A figura acima é bem explicativa sobre este tema. A qualidade do vinho na Borgonha depende do “climat” que seria um “super-terroir” ou uma parcela única e específica. O climat, reconhecido pela UNESCO como patrimônio da Borgonha é a última e mais refinada expressão para o que se conhece como terroir. O climat é único para determinado tipo de vinho e depende do solo, da drenagem, da exposição ao sol (as melhores são a leste e sudeste) e outros fatores. Isso determina a qualidade de um vinho. Uma parcela pode ter um climat bem diferente de outra parcela distante menos de 100 metros dela. A exposição ao sol (inclinação da encosta) na Borgonha é vital para a qualidade e classificação de um vinho. A figura acima mostra que os Grands Crus, normalmente, estão no meio da inclinação de um vinhedo ou parcela pois, aí o solo é melhor, com mais marga, calcário, melhor drenagem, sendo que a maioria está com exposição leste ou sudeste. Aí está o “Climat” ideal para um Grands-Crus.

Encosta abaixo, nessa sequência estão os Premier-Crus e em seguida, os vinhos Comunais ou Villages. Na base da encosta, e nas planícies borgonhesas estão os vinhos mais simples, situados em solos com mais argilas lixiviadas, menos drenados e com maior produtividade das uvas (portanto, com menos concentração, aromas e sabores para os vinhos). Esses são chamado de Vinhos Regionais e são os mais simples na cadeia de qualidade.

É importante conhecer essa classificação na hora de comprar esses vinhos para não comprar “gato por lebre”. É necessário para isso saber ler as etiquetas dos vinhos da Borgonha. Quando está na etiqueta, por exemplo: Borgonha-Pinot Noir se trata, de um vinho regional, que é um vinho mais modesto já que pode ser elaborado com uvas pinot noir de qualquer parte da Borgonha.

 Quando está escrito, por exemplo, Nuits-Saint-Georges, Pinot Noir, se trata de uma Appellations Village (Comunal) onde está indicado a comuna onde foi plantada, colhida a uva e elaborado o vinho sendo este  um vinho superior ao anterior.

Quando está escrito Gevrey-Chambertin 1 Cru significa que o vinho vem da cidade de Gevrey, do Climat Chambertin, de uma altitude entre 250 e 350 metros com exposição leste ou sudeste.

Quando está escrito na etiqueta Romanné-Conti Grands Crus significa o Top, o melhor, como já explicamos acima.

Hoje na Borgonha existem 33 AOC Grands Crus: 23 na Côte de Nuits que são tintos e 1 na Côte de Beaune que é tinto (Aloxe-Corton).

Para os vinhos brancos, há 10 Grands-Crus sendo 9 na Côte de Beaune e um em Chablis.

Por outro lado, há 684 “Climats” de Premiers Crus.  Além de 44 AOC-Appellations Villages e 23 AOC-Appellations Regionais (Gerais e específicas).

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Obrigado por terem acompanhado as três partes desse Post. Aqui deixo uma reflexão para aqueles que acompanham o Blog.

  • Como vocês vêm esses últimos 6 vinhos que apresentei neste Post de três partes??
  • Quais seriam suas opiniões e reflexões a respeito??

Podem usar o blog abaixo para dar suas opiniões.

Saludos y hasta la próxima!!

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