Vinho Tinto “Seis Estrelas”: Objeto de Desejo de Enófilos de Todo o Mundo – Parte II (Espanha)

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Atualmente, a Espanha é um dos países que pertence à Primeira Divisão Mundial na elaboração de vinhos tintos. E Ribera del Duero, tema de um Post anterior que publiquei neste blog, é a região responsável por essa distinção. A região é a que produz a melhor tempranillo (também conhecida como Tinta Fina ou Tinta del País) para a produção da maioria desses vinhos tintos. Aqui, a casta encontrou seu verdadeiro terroir.

Eu tive a sorte de viver um ano em Valladolid entre 2012/13 o que me concedeu o privilégio de conhecer, detalhadamente, grande parte de sua região e de seus vinhos. Selecionei para este post dois vinhos dos seus “tintos gigantes”, aclamados e reconhecidos internacionalmente, o Vega Sicília Único e o Pingus.

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Naturalmente, há muitos outros tintos que são excepcionais, como já mencionei neste Blog, em post anterior, quando descrevemos a riqueza enológica da Ribera del Duero, porém, não trataremos de novo neste espaço.

VEGA SICÍLIA – ÚNICO

 Vega Sicília é a vinícola mais antiga e famosa da Ribera del Duero e foi fundada em 1864 em Valbuena de Duero (Valladolid), tendo passado pelas mãos de diversos proprietários e todos mantiveram a alta qualidade dos seus vinhos. O seu nome atual vem de 1915.

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Basicamente, a vinícola produz três tipos de vinhos: Vega Sicília Único, Único Reserva Especial e o Valbuena que seria um Único mais jovem e “menos caro” que os anteriores.

O Único foi considerado o “embaixador” dos vinhos espanhóis e o mais emblemático; para muitos uma autentica obra de arte. É o vinho de maior prestígio da Espanha.

A vinícola possui 250 hectares de vinhedos próprios para elaboração dos seus vinhos Único nos quais estão mesclados Tempranillo com cabernet sauvignon, malbec e merlot. Esses vinhedos têm mais de 100 anos e seus rendimentos são baixos e a produção não supera as 324 000 garrafas por ano. Por essa razão, a demanda é muito superior à oferta. E o preço de cada garrafa é alto para a maioria dos mortais.

A vinificação é feita pelo processo tradicional (dupla fermentação: alcoólica e malolática) e a “crianza” é feita em 6000 barricas de carvalho durante 10 anos ou mais. O Único é por muitos chamados de “Vinho Barroco” por seu singular caráter.

Em seus melhores anos, o Único é um vinho dos mais opulentos que se conhece e possui um aroma (buquê) profundo a frutos secos ao sol como figos, ameixas, café e especiarias. Seus taninos são bem estruturados e, isso se nota no agradável paladar.

Para a vinícola, a perfeição de um vinho começa nos vinhedos e por essa razão o processo de produção é muito meticuloso. As uvas são coletadas à mão, pré-selecionadas e transportadas em pequenas caixas, em uma camioneta à vinícola, cada uma com as uvas de determinada parcela; essas uvas são levadas a uma câmara frigorífera onde as caixas são depositadas a uma temperatura de 3 graus centigrados. No dia seguinte, as caixas são levadas a uma esteira transportadora e passam por uma máquina que extrai cuidadosamente, os pedúnculos dos racimos (parte lenhosa dos racimos). É feita uma seleção das uvas que são levadas por esteiras transportadoras às cubas para fermentação. Previamente selecionadas, as melhores parcelas são reservadas para elaboração do Único (um terço para vinho Único e dois terços para vinho Valbuena). No caso do Único, a fermentação alcoólica e malolática são feitas em cubas de madeira enquanto para o vinho Valbuena são utilizadas cubas de aço inoxidável. Para o Único há um repouso em pipas velhas por 6 meses e, posteriormente é transferido para barricas francesas novas onde permanecerá por 2 anos para madurar. Finalmente, para completar a madurês, o vinho é transferido para barricas mais antigas de carvalho americano e aí ficará por 5 ou 6 anos, antes de ser engarrafado.

É um processo que exige muita perícia e tempo o que faz com que os preços de cada garrafa final não sejam nada econômicos. É só calcular os juros compostos de todas essas operações durante todos esses anos. Porém, o resultado é absolutamente fascinante!! Para a Vinícola é uma questão de qualidade, honra e exclusividade e o vinho tem que cumprir as expectativas de sua identidade e marca.

O Vinho Único é elaborado por 80 a 85% de uvas tempranillo e 15 a 20% de cabernet sauvignon. Há um detalhe interessante: como o Único é inicialmente engarrafado sem filtrar, deve-se esperar outros três anos de “afinação” para a filtragem final. Ou seja, de 11 a 15 anos até ser lançado no mercado o que o torna um vinho muito caro e exclusivo. Em alguns casos, como na colheita de 1968, foram necessários 23 anos para ser lançado no mercado.

Adicionalmente, há outro vinho, o Vega Sicília Único Reserva Especial que é produzido após um envelhecimento suplementar na vinícola e é elaborado com vinho Único, de diferentes colheitas. É um vinho único e raro em seu estilo e, por isso o vinho é uma autentica lenda. É, também, muito elegante e complexo. Com todas as suas características é um vinho para meditação/reflexão e deve ser degustado gota a gota.

Comparte com o Único, características principais como um amplo leque de tonalidades desde o vermelho granada ao rubi ou cor de telha (marrom alaranjado), tendo o vermelho cereja na camada superior da taça.

Os aromas são complexos e lembram compotas de frutas; além disso, adquirem durante o processo de envelhecimento (maduração) aromas terciários que vão de matizes tostadas, especiarias até carnes de caça.

Possuem um grande equilíbrio entre a acidez e o álcool com taninos sólidos e que, independente dos anos, mantem grande vivacidade e harmonia.

Na boca, estes vinhos são amplos, robustos e potentes, com retro gosto duradouro, persistente e são secos, com teores alcoólicos que variam de 13 a 14 graus.

Os preços das garrafas, nos mercados europeu e estadunidense, no caso do vinho Único, variam de US$ 150 para uma garrafa jovem de 2012 até US$ 1,000 ou mais por uma garrafa de 1994. Ha muita disputa e variação nos preços.

No Brasil, com os altos impostos cobrados, os preços são mais altos.

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PINGUS

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Pingus era o apelido dado, ao enólogo dinamarques Peter Sisseck pelo seu pai,quando este ainda era criança. Hoje é o nome de um dos vinhos mais caros e exclusivos do mundo que é elaborado pelo enólogo Sr. Sisseck (sim… êle mesmo!!) o qual vive na Ribera del Duero desde 1990, e produz seu próprio vinho na localidade de Quintanilla de Onésimo na Provincia de Valladolid.

Nas várias classificacões nacionais e internacionais, de cada cinco vinhos tintos elaborados na Espanha e que recebem uma pontuação mínima de 94 pontos, quatro são da Ribera del Duero. Terroir e qualidade é a resposta!!!

Atualmente, o Pingus é o vinho mais cobiçado e cotizado da Espanha. Toda a historia é relativamente recente e, começou quando o jovem enólogo Peter que antes trabalhava na vinícola Pesquera, adquiriu quatro parcelas em 1994 em um total de quatro hectares, no município La Horra onde existiam velhos vinhedos plantados com a casta tempranillo.

Como a perfeição de um vinho começa pelos vinhedos, como mencionamos anteriormente, as parcelas começaram a receber o máximo de cuidado, considerando os princípios da agricultura biodinâmica, defendidos e aplicados pelo enólogo; dessa forma as uvas são coletadas quando estão bem maduras e transportadas em pequenas caixas em vagões frigoríferos a Quintanilha de Onésimo a 40 km das parcelas. Ali, as uvas são trabalhadas por mulheres que as extraem dos cachos, separando os pedúnculos e, posteriormente, esmagam as uvas com os pés, em pequenos recipientes de aço inoxidável, em noites frescas de outubro.

Durante 10 dias as uvas permanecem em seu próprio mosto quando se produz uma fermentação alcoólica que irá durar 8 dias e, posteriormente, o mosto repousa com as cascas por alguns dias mais. O próximo passo é transferir todo o vinho para barricas novas de carvalho francês. Na primavera, quando a temperatura volta a subir, a fermentação malolática se produzirá por si só.

Todo o vinho áspero produzido é analisado, filtrado e se transfere para barricas de carvalho novo. Dois anos depois de permanecer nessas barricas se engarrafa o Pingus. Literalmente, o vinho é elaborado manualmente.

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Os vinhedos de tempranillo do Dominio Pingus são muito velhos e se situam nas vilas de Barrosso (2,5 hectares com 65 anos) e San Cristobal (1,5 hectares com 70 anos). São vinhedos de baixos rendimentos e de alta qualidade situados em solos pobres com muito cascalho, seixos, areia e subsolo argiloso-calcário. Bons para a produção de grandes uvas. Todo o sistema é orgânico e não se produz mais do que 500 caixas por ano, ou seja, 6000 garrafas. A política da empresa é de que o prestígio está acima do dinheiro, portanto, em anos ruins não se produz vinho.

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Não é preciso dizer que colecionistas, conhecedores e negociantes literalmente “se matam” para conseguir uma ou mais garrafas que chegam a valer de 800 a 3200 euros cada uma. No Brasil, vi garrafa da colheita 2012 por R$ 10.200, ou seja, algo em torno aos US$ 3.200. Na realidade esses vinhos já estão vendidos quando ainda se encontram nas barricas e os que estão hoje venda, normalmente, não são vendidos pela Domínio de Pingus.

São vinhos conhecidos como “vinho de culto”, também chamados de “vinho troféu” ou “vinho de investimento”. Os vendedores estabelecem uma “estratégia de Preços Premium” onde os altos preços são usados para atrair investidores para esses vinhos. E acredite, funciona!!! A safra de 2012, por exemplo, recebeu 100 pontos de Robert Parker e James Suckling.

O buquê do Pingus seduz o olfato e o paladar com grande intensidade, com aromas de figo, alcatrão, chocolate amargo e especiarias. Possui um retro gosto forte e intenso. São vinhos secos com teor alcoólico em torno aos 14,5 graus. Claro que uma cata de vinhos é muito influenciada por muitos fatores endógenos e exógenos, contudo o mais importante é que o vinho deva cumprir com as expectativas que promete sua identidade e marca e, este é o caso do Pingus.

Peter Sisseck adquiriu 16 outras parcelas com vinhedos e produz um segundo vinho que se chama “Flor de Pingus”, que é menos complexo e com destacados toques de madeira, porém, está sendo muito bem recebido internacionalmente. O de 2013 recebeu 93 pontos de Robert Parker.

A vinícola ainda produz um “Cuvée” especial que se chama Amelia. Esse é elaborado com castas provenientes de uma parcela com mais de 100 anos e é algo muito especial, onde são produzidas apenas 25 caixas, ou seja, 300 garrafas.

Imaginem o preço de cada garrafa!!!image010

Mais recentemente, em 2006, Pingus iniciou um projeto social com comunidades e produtores locais de Ribera del Duero que possuíam vinhedos velhos e subutilizados de tempranillo e também de garnacha. A Vinícola apoia as comunidades, tecnicamente e economicamente, e está começando a ressuscitar muitos hectares de velhos vinhedos. Todo o processo está baseado em agricultura biodinâmica muito utilizada na Alemanha, França e Suíça. Como resultado, foi iniciada em 2007 a produção de um outro vinho, o PSI que já recebeu 92 pontos de Robert Parker no ano 2012 pela sua alta qualidade.

Por aqui fechamos a Parte II sobre esses dois “Gigantes espanhóis”. A terceira e última parte do post é sobre dois gigantes franceses. Creio que vocês já podem imaginar quem são esses dois. Uma dica: um é da Borgonha e o outro é de Bordéus.

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OBRIGADO POR ACOMPANHAR E ATÉ LÁ!!

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