Vinho Tinto “Seis Estrelas”: Objeto de Desejo de Enófilos de Todo o Mundo – Parte I (Itália)

O Vinho é merecido nas Vitórias e necessário nas Derrotas

(Napoleão Bonaparte)

 

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Castelo Banfi, Montalcino

Alguns vinhos são considerados notoriamente como “super premium” por seus padrões de qualidade, características, singular história, e se tornaram objeto de desejo daqueles que ainda não tiveram a oportunidade de degusta-los. São vinhos, internacionalmente, reconhecidos e consagrados por enólogos, enófilos, sommeliers e estes são normalmente menos acessíveis à maioria dos consumidores pelo seus altos preços, reduzida possibilidade de aquisição como, também, pela necessidade de certo conhecimento e cultura enológica para desfruta-los como se deve. Vinhos para momentos especiais!!

Nesses casos, certamente, o bom gosto é importante, mas pode não ser o suficiente já que é também recomendável como mencionamos anteriormente, possuir conhecimento específico do que esses vinhos são ou representam. O famoso trinômio: O que se deve degustar, como e quando degustar. Esse post busca contribuir com informações para que o enófilo possa abrir a garrafa do super vinho, decanta-lo e degustá-lo em sua plenitude.

O Post será dividido em três partes e se destacará seis vinhos tintos que são considerados “Gigantes” pela indústria vinícola mundial e que, normalmente, recebem de 98 a 100 pontos pelas degustações especializadas de Robert Parker, James Suckling e outros mestres do tema.

Destacaremos dois vinhos italianos na Parte I, dois espanhóis (Parte II) e dois franceses (parte III).

Confesso que existem muitos outros bons tintos nesses três países, porém, se destacará somente esses chamados super premium.

Viva la Bella Italia

Selecionei, da Itália, dois “pesos pesados” com os quais tenho certa intimidade desde o período em que ali vivi. São o Brunello di Montalcino e o Barolo.

Brunello di Montalcino

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A cidadezinha medieval de Montalcino (80km a sudoeste de Firenze)

Sabe-se, geneticamente, que a uva Brunello é um clone da sangiovese porém, em 1879, se estabeleceu legalmente que Brunello ( mulatinho) e Sangiovese eram a mesma casta e que sangiovese seria o nome a ser oficialmente designado; ou seja, Brunello é o vinho produzido com 100% de casta Sangiovese( de bagos grandes também chamada de Sangiovese grosso) pois a de bagos pequenos é usada na produção do Chianti na mesma Toscana. Em 1980, o vinho Brunello di Montalcino foi o primeiro vinho italiano a receber o grau de DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantida).

 

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Casta Sangiovese

 

 

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 AH!!! La Bella Toscana!!!

 

O Brunello di Montalcino é a DOCG que alcançou o maior prestígio na Itália e é, exclusivamente, elaborado no pequeno município de Montalcino, situado a 80 Km a sudoeste de Florencia (65 km ao sul de Siena).

O brunello é um vinho varietal, diferencialmente, do Chianti, que é produzido com quatro castas. Em sua juventude é caracterizado por taninos densos e duros. Com a madurez de tres anos, em barricas de carvalho francês, torna-se sedoso e seu bouquet é imcomparável.

Os melhores Brunello são elaborados no sudoeste de Montalcino e em Castelnuovo dell`Abate, região mais baixa e mais quente, com solos argilosos-calcários. Esses vinhos são mais densos e com maior teor alcoólico. Atualmente, há mais de 2000 hectares plantados com sangiovese.

A historia do Brunello está intimamente ligado à familia Biondi-Santi, (na realidade a familia que inventou o estilo Brunello) porém, não entrarei em detalhes.

Atualmente, muito embora existam cerca de 200 produtores de Brunello di Montalcino que engarrafam em torno a 6 milhões de litros por ano, a sua demanda mundial supera a oferta o que em parte explica os altos preços cobrados por cada garrafa, especialmente, a dos anos melhores, variando nos Estados Unidos de US$ 50 os mais simples a US$ 1200 algumas garrafas especiais para os melhores anos.

Na Itália, pode-se encontrar bons Brunello de anos normais por 40/60 euros e cito como exemplo o Brunello do Castello Banfi de 2011 que degustei em Milano há alguns meses (foto abaixo). Apesar de já ter amadurecido dois anos e meio em barricas de carvalho frances e da Eslavônia e, permanecido outros quatro anos em garrafa, se sentia que o 2011, o mesmo degustado em 2017 era ainda “adolescente”, com teor alcoólico de 14,5% e os taninos estavam ainda pouco densos, porém deveriam melhorar com o tempo.

Os vinhos da Banfi são, reconhecidamente, de uma excelente qualidade. O de 2004, muito elogiado por Robert Parker,recebeu 98 pontos, chegando a valer 800 Euros a garrafa.

Cerca de 20% da região de Montalcino é composta por vinhedos da Banfi que pertencem à familia Mariani, de origem Ítalo-Americana (Banfi Vintners, fundada em 1919 http://www.banfiwines.com).

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Destacam-se os vinhos dos seguintes anos como os melhores: 1970, 1971, 1973, 1975, 1976, 1978, 1981, 1982, 1985, 1988, 1990, 1997 (colheita do século), 1998, 1999, 2001, 2003, 2004, 2006 e 2007.

Alguns dos melhores Brunello podem envelhecer até 30 ou mais anos . De minha coleção, destapei no ano passado, um Brunello Isabella De`Medici de 1975 (um ano premium) e estava em ótimo estado. Ainda guardo duas garrafas de 1975 e 1988 (abaixo).

O Isabella de’ Medici é de 1975 (excelente) e o Tenuta Frigialli (Vinícola Centolani) de 1988.

Espera-se do Brunello a potencia, muito corpo, taninos aveludados e equilibrados, cor rubí com reflexos granada (típico dos vinhos envelhecidos), e graduações alcoólicas que variam dos 12,5 graus por lei aos 14 graus, assim como,aromas a frutas negras maduras e baunilha. O retrogosto é bem longo e a temperatura de serviço deve estar em torno aos 16 a 18 graus centigrados.

Embora os queijos são melhores acompanhados com vinhos brancos, muitos apreciam acompanhar o Brunello com queijos como o pecorino, carnes de caça (javali e outras), cogumelos e carnes vermelhas em geral.

Recomenda-se usar taças grandes, abrir a garrafa duas horas antes de degusta-lo e repousar o vinho em um decantador.

Por todo o descrito é óbvio que o Brunello di Montalcino não é um vinho para o dia a dia; é mais recomendável para ocasiões e datas especiais. É um vinho de guarda para meditação e ser degustado de forma bem reflexiva.

 

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Uma última imagem da belíssima Toscana dos Brunello di Montalcino

 

Barolo

A Província de Cuneo está situada no noroeste da Itália e uma de suas regiões é o Piemonte. No Piemonte está situada a cidadezinha de Barolo.  O Piemonte elabora vinhos únicos e apaixonantes e possui 17% de todos os vinhedos do país, mesmo considerando que 43% do seu território seja montanhoso. Para início de post é importante dizer que no Piemonte todos os vinhos são DOC (Denominação de Origem Controlada) ou DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantida); aqui não existe a IGT (Indicação Geográfica Típica).

 

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Cidade de Barolo

 

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Região dos Langhe, Piemonte, Itália

A sudeste da cidade de Turim está a cidadezinha de Alba e pouco mais abaixo, a cidade de Barolo. As colinas de Monferrato e dos Langhe (existe o Langa Baixo e o Alto) estão entre as duas cidades citadas. Essa região concentra pelo menos 90% da produção vinícola do Piemonte e os vinhos aqui elaborados necessitam longo envelhecimento para mostrar suas excelentes qualidades (Barolo, Barbaresco, Gattinara, Ghemme).

A produção do Barolo é feita nas colinas dos Langhe que é uma zona de condições climáticas e edáficas variadas e difíceis, com muita névoa (neblina) no período de amadurecimento e colheita das uvas (outono em outubro).

As uvas nebbiolo quando maduras, possuem uma tênue capa branca que envolve a casca e esses detalhes os vinicultores locais passaram a chamar a uva de Nebbiolo. Essa uva se adaptou muito bem à essas condições (nebbia em italiano significa neblina ou névoa).

Nessa região, cada colina tem suas características edáficas específicas que dão origem a distintos Barolo. Por exemplo, diferentes quantidades de sal nos solos da região dão origem a diferentes tipos e qualidade de vinhos. Cada colina tem a sua expressão podendo ser variável anualmente segundo as condições climáticas. Na região, menciona-se que o melhor vinhedo de Barolo é o de Cannubi. Já outros dizem que é o vinhedo Brunate.

O Barolo, considerado o “Rei dos Vinhos e o Vinho dos Reis” (era o vinho preferido de Vittorio Emmanuele I) vem sendo elaborado em sua forma atual há cerca de 180 anos, unicamente com a casta nebbiolo, nos 11 municípios que cercam a cidadezinha de Barolo, em solos alcalinos com calcários, em proporções diversas de argila e areia.

Os Barolos das regiões mais orientais de Serralunga d`Alba e Monforte (sudeste de Barolo) têm um caráter mais forte. Os da zona da cidadezinha de Barolo e La Marca (noroeste de Barolo) são mais suaves, porém, sempre bem encorpados.

Os melhores vinhedos se encontram nos picos e mesetas das colinas entre essas duas zonas, e os vinhos aqui elaborados trazem na etiqueta da garrafa a palavra “Bricco” que indica o topo da colina.

Ha dois estilos de elaboração desse vinho: O Estilo Clássico ou tradicional e o Estilo Moderno.

No estilo clássico, o processo de maceração e fermentação das uvas leva muito tempo e o vinho para ser consumido leva pelo menos uns dez anos (de 10 a 15 anos para suavizar os taninos e equilibrar a acidez).

No estilo ou método moderno que é mais usado atualmente, para que o vinho possa ser consumido mais cedo, a maioria dos vinicultores abrevia esse período de maceração para umas duas semanas e deixa o vinho em madeira o tempo mínimo previsto em lei que é dois anos. Posteriormente, fica outros dois ou três anos “refinando” nas garrafas. O vinho pode ser degustado de 5 a 6 anos depois da colheita. Por isso, os Barolo “modernos” são mais econômicos que aqueles elaborados pelo processo clássico.

Os Barolo Reserva devem ficar pelo menos três anos no produtor e o Reserva Especial fica, pelo menos, cinco anos no produtor antes de ir à venda.

O Barolo é um vinho de muita estrutura, austeridade, complexidade e não é um vinho para consumo diário, ou seja, é um bom vinho de guarda para meditação ou reflexão, não necessitando, caso o degustador assim desejar, acompanha-lo com comida (“abbinamento”). Adicionalmente, os seus atrativos podem não aparecer de imediato para os neófitos sendo necessário descobri-los (o que me lembra as palavras do Salvador Dalí do Post anterior). Naturalmente, nada proíbe que a “meditação “seja acompanhada de um bom queijo forte (muito embora os vinhos brancos sejam mais adequados para acompanhar queijos, porém fazemos uma pequena exceção para queijos fortes).

A casta nebbiolo não é uma casta de potência e, por esta razão, o segredo do Barolo é a complexidade; o aroma não é tanto de frutas, mas de espécies, toques herbáceos ou azeitonas e se desenvolve com os anos de envelhecimento.

É necessário ter em conta que ao abrir uma garrafa de Barolo antes de consumir passar o vinho para um Decanter e deixá-lo por umas duas horas para que o vinho respire, equilibre a acidez, e possa volatilizar os aromas pois, é rico em álcool.

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As colheitas mais recentes consideradas ótimas e excepcionais para o Barolo foram: 1964, 1971, 1978, 1982, 1988, 1989, 1990, 1995, 1996, 1997, 1999, 2001, 2004 e 2006. De 2007 a 2012 foram boas.

O Barolo possui um teor alcoólico que varia dos 13 aos 15 graus e sempre deixa um sedimento no fundo da garrafa, mesmo depois de 3 ou mais anos de envelhecimento em barricas de carvalho (esloveno e francês); por essa razão, a diferença de outros vinhos tintos, as garrafas de Barolo são conservadas em posição vertical.

O sabor e, sobretudo, o buquê (perfume) são inconfundíveis. A casta nebbiolo transmite um eflúvio de tartufo e especiarias. É bom saber que o Piemonte é uma região famosa pela produção de tartufos brancos.

Minha mais recente degustação de um bom Barolo foi há poucos meses em Milano. Tratava-se de um Barolo da Pio Cesare de 2009 (foto abaixo). É um Barolo clássico/tradicional com boa harmonia (porém se aproxima do estilo moderno), baixa acidez, textura e estrutura equilibradas, com taninos suaves e aromas herbáceos, azeitonas e morangos maduros. Era um vinho com 14,0% de graduação alcoólica e com potencial para envelhecimento. A elaboração desse vinho foi com castas plantadas em Serralunga D`Alba e Monforte (caráter bem forte) o que lhe confere excelente qualidade e madurou 3 anos em pipas de carvalho esloveno (e possivelmente em pipas de castanhos).

Por recomendação, acompanhei este excelente Barolo com um Tagliatelle com salsa bianca e trufas brancas. Endosso a recomendação.

Algo que aprendi na Itália é que os piemonteses só tomam o Barolo em alguns finais de semana ou em ocasiões especiais. Como possuem o hábito saudável de tomar vinho durante as comidas, o que normalmente consomem durante a semana são Dolcetto d`Alba, Barbera d`Alba ou d`Asti ou mesmo o Nebbiolo d`Asti que são vinhos bons e mais econômicos. O Barbaresco, que é vizinho do Barolo, é mais suave e menos denso, com taninos mais macios e também elaborado com a nebbiolo. Em torno a 30% mais econômico. Lembrar-se de que nem todo nebbiolo é barolo mas todo barolo é nebbiolo.

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Abaixo uma grata recordação de minha visita à Seção do Piemonte do Museu do Vinho Italiano (há algum tempo!!) Um “autentico” curso sobre os vinhos piemonteses.

Obrigado e até a parte II desse Super Post.

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