Vinhos da Alsácia: Franceses com Sotaque Alemão

Manger et Boir réunit le Corps et l’Esprit” (Provérbio Alsaciano)

(Comer e Beber é a reunião do Corpo com o Espírito)

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A Alsácia é uma bonita e interessante experiência cultural, enológica e turística e tive o privilégio de viver ao lado dessa região por alguns anos. Território francês com sotaque alemão. Uma bela planície entre a Cordilheira dos Vosges e o Rio Reno que se extende da cidade de Estrasburgo à cidade de Moulhose ao sul. São 170 km de Rota do Vinho com paisagens, florestas, vilarejos e cidades medievais inesquecíveis.

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Por sugestão de um colega francês da FAO, decidi passar para o papel algumas lembranças e experiências passadas e mais recentes, começando pela cidade de Colmar, sua maior referência turística. Um contratempo é que a minha coleção de slides foi quase toda estragada com o tempo e poucos foram os slides que sobreviveram para contar a história.

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Colmar, 1977

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Colmar, 1977

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Colmar na atualidade

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Colmar, 2017

Assim é a Alsácia. Parece que o tempo parou!! As duas primeiras fotos foram tiradas em 1977, quando visitei pela primeira vez essa cidade idílica e de contos de fadas. Na verdade ela está somente a 40 km de Freiburg e com certa frequencia a visitávamos. Minha foto ao lado dos carros da época mostra como eram bem diferentes dos de hoje!!! (também mudei muito … é a vida!!). Os slides originais tiveram que ser digitalizados e a qualidade não é muito boa. Mas dá para se ter uma boa idéia de como era e como é Colmar, a Capital dos Vinhos da Alsácia. Ou seja, não mudou muito!!

A Rota do Vinho da Alsácia parte de Marlenheim a noroeste de Estrasburgo, e se extende por 170 km até Thann a Oeste de Mulhouse no sul da Alsácia.

Sempre disfrutava estar em Colmar, Riquewihr, Ribeauvillé e também, Estrasburgo, Turckheim e em Eguisheim (ver o mapa abaixo).

As cidades e vilarejos de Colmar, Eguisheim e Riquewiht eram as que mais se destacavam. Tanto pelo cenário medieval/renacentista como pelos vinhos e gastronomia. Quando de compras se tratava o nosso destino era sempre Mulhouse (segunda maior cidade da Alsácia), pois era mais econômico do que na Alemanha; Sempre fazíamos nosso “rancho” (compras) no enorme hipermercado “Euromarchè”. Esse vendia até “Viande de Cheval” (carne de cavalo) e de Jacaré que para mim era uma “novidade”.

No mapa mais abaixo pode-se ter idéia de como Colmar e a região de Baden na Alemanha estão próximas. Bastava entrar no “Fritz” (nosso fusca) e dirigir até Nova Breisach (Neuf Brisach), cruzar o Alto Reno e se dirigir a Colmar. Coisa de uns 30 minutos.

A Alsácia tem uma história bem interessante. Por mais de 2000 anos foi parte da Alemanha, e depois de muitas guerras e vai e volta, após a segunda guerra mundial, em 1945, passou definitivamente a ser territorio frances. A historia é longa e as vezes complicada, porém deixarei os detalhes para que os amigos pesquisem na internet ou no seu livro de história geral pois vale a pena.

O primeiro aspecto curioso que se observa ao entrar na Alsácia são os muitos nomes em Alemão, ou no dialeto Alsaciano. Claro que esse detalhe é consequencia da própria história da região.

O vinho, por exemplo, segue padrões semelhantes ao do vinho alemão, pois a Alsácia é a única região da França que identifica (como na Alemanha) os seus vinhos pela casta da qual são produzidos. As garrafas são bem típicas (delgadas e altas conhecidas como “flûtes”).

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 Os vinhedos e os Vosges

 

A Alsácia e seus vinhos

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A Alsácia é a região mais setentrional da França e possui cerca de 16,000 hectares de vinhedos produzindo anualmente cerca de 180 milhões de garrafas das quais 92% são de vinhos brancos. É a mais pitoresca de todas as regiões vinícolas da França. Vinte e cinco por cento (25%) da produção é exportada para vários países. Situada na planície entre o Rio Reno e a Cordilheira (maciço) dos Vosges com uma quantidade impressionante de cidades e vilarejos medievais/renascentistas e algo de gótico, com viticultores produzindo vinhos desde os séculos 15 e 16, época em que os vinhos da Alsácia eram exportados para toda e Europa.

A Cordilheira dos Vosges protege a Alsácia dos ventos e chuvas do oceano atlântico, e isso contribui para que a região tenha um clima continental/temperado e seco, e grande diversidade de solos (calcário, granítico, chistes e outros) dando origem a uma série de diferentes terroir que influenciam a qualidade dos vinhos. É uma boa condição para o desenvolvimento favorável das uvas, pois conta com primaveras quentes e verões secos e ensolarados, outonos longos e invernos bem frios.

Os vinhos da Alsácia não seguem o marco da lei francesa do vinho devido ao longo período que pertenceu a Alemanha. Existem desde 1962 três denominações de origem (AOC – Appelations d’Origine Contrôlée). Uma para os vinhos varietais, outra para os “Grands Crus” – cerca de 51 – e outra para o “Crément d’Alsace” – vinho espumoso elaborado com as castas pinot blanc, pinot gris e sylvaner que corresponde atualmente a 14% dos vinhos alsacianos.

Os vinhos se parecem aos brancos alemães, porém são mais substanciosos (com maiores teores de álcool), mais secos e mineralizados.

Em menores quantidades são elaborados os chamados vinhos “Edelzwicker” resultado da mistura de várias castas (assemblage ou blend). Alguns poucos produtores ainda oferecem este vinho de mesa com o nome francês de “Gentil”. Nos anos 70 sou testemunha de que os edelzwicker eram bem mais consumidos.

As uvas cultivadas na região são seis brancas e uma tinta. As brancas são a Gewürztraminer, Riesling, Muscat, Pinot Blanc, Pinot Gris e a Sylvaner. A única casta tinta é a Pinot Noir.

A Chasselas, também conhecida no outro lado da fronteira como Gutedel, já chegou a cobrir 16% dos vinhedos alsacianos e atualmente quase não é cultivada e o pouco que ainda existe, é utilizada nos vinhos edelzwicker. Nos anos 70 degustei muitos Gutedel (vinhos bem frescos e frutados ótimos para o verão). Abaixo uma pequena amostra dos Gutedel que costumava degustar (coleção privada de etiquetas).

Cerca de 80% dos vinhedos são plantados com apenas quatro castas (Gewürztraminer, Riesling, Pinot Blanc e Sylvaner. A Sylvaner, que é considerada uma casta de menos prestigio, ocupa 25% dos vinhedos e é mais plantada na região do Baixo Reno. A Riesling,com 20%, é considerada a casta de maior prestígio. A Gewürztraminer com cerca de 20% dos vinhedos é a mais apreciada e a Pinot blanc segue bem na preferência regional.

A Pinot Noir, com apenas 8% dos vinhedos é também utilizada para a elaboração do “Rosé d’Alsace” (especialmente em Marlenheim no norte da Rota do Vinho). Também a Pinot Gris é cultivada em menores proporções (na Alemanha a casta é conhecida como Ruländer sendo uma das minhas preferidas).

A Alsácia é também conhecida por suas festas do vinho (Fête du Vin). Normalmente ocorrem nos meses de setembro e outubro. Pessoalmente a que me encantava era a de Eguisheim, vilarejo a poucos quilômetros sul de Colmar (na realidade pode-se ir de bicicleta) e que é considerado por muitos como o vilarejo mais bonito da França.

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Eguisheim, Alsácia

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Festa do Vinho de Eguisheim de (27 de agosto de 2017).

As Uvas

Complementando o tema das uvas mencionado anteriormente, sete são as castas principais da Alsácia; seis brancas e apenas uma tinta (não esqueçamos da Chasselas que seria a oitava).

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Gewürztraminer: Uva de pele rósea que produz vinhos de coloração dourada, com baixa acidez nos anos quentes, com alto teor de açúcar, aromas frutais e floral (rosas) e sabores a especiarias (pimenta e canela). Gewürz em alemão significa especiarias.

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Sylvaner. Produz vinhos leves e frutados com teor médio de açúcar. É a casta “menos nobre” das principais (só ganha da Gutedel !!).

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Riesling. A grande estrela da Alsácia. Produz vinhos secos, ácidos, porém aromáticos a frutas cítricas, abacaxi, pêssegos além de serem elegantes e finos. Dependendo do terroir os vinhos são mineralizados e os melhores são elaborados de castas plantadas em solos argilosos. Os mais simples devem ser tomados bem jovens e os melhores podem evoluir de 8 a 10 anos. Quem está habituado com o Riesling alemão do Reno pode achar o alsaciano muito seco e mineralizado.

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Pinot Gris Casta responsável por vinhos frutados, com muito caráter, baixa acidez, altos teores de álcool, secos, encorpados e macios. Conhecida também como Tokay d’Alsace (nada que ver com o Tokay húngaro). São os Ruländer da Alemanha.

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Pinot blanc. Vinhos frescos, suaves, pouco aromáticos, porém agradáveis e que devem ser tomados jovens e frios. Na prática recebe o “reforço” de outras castas para lhe dar mais caráter.

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Muscat d’Alsace Vinhos secos, perfumados, com aroma bem característico a uva, maçã, laranja. Devem ser consumidos jovens.

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Gutedel (Chasselas) Vinhos leves, de boa acidez, cor verde palha, aromas a maçã, teores baixos de açúcar. Hoje utilizados muito em corte nos vinhos Edelzwicker e considerada a menos nobre das castas principais (até mesmo que a Sylvaner). Muito usada e apreciada no outro lado da fronteira na região alemã de Baden. A serem tomados bem frescos.

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Pinot Noir. Única uva tinta plantada na Alsácia. O Rosé da Alsácia é produzido com a Pinot Noir. Produz um vinho bem leve e os melhores são elaborados em São Hipólito (próximo a Ribeauville). A madeira, como em muitos outros países, tem causado problemas e polémicas na qualidade de alguns Pinot Noir dessa região. Alguns chegam mesmo a dizer que a Alsácia não deveria produzir vinhos com Pinot Noir. Pessoalmente prefiro os Pinot Noir da Borgonha ou mesmo de Baden-Würtemberg do outro lado do Reno. São mais complexos e tem mais graça.

As etiquetas eram realmente “especiais” nos anos 70; eu diria que mais bem artísticas e autoexplicativas que as atuais. Vejam por exemplo algumas etiquetas de minha coleção de alguns vinhos que degustei nos anos 70 (a coleção é bem grande!!!).

Gastronomia

A gastronomia da Alsácia é bem variada e até certo ponto apresenta, por razões históricas que já mencionamos, semelhança com a da Floresta Negra do outro lado do Rio Reno, especialmente no referente a embutidos como salsichas, salames de tudo que é forma, linguiças (com ou sem lentilhas), assim como trutas, cogumelos, chucrutes com carne de porco e batatas cozidas, várias especialidades com batatas, queijos (alguns com odores fortes e marcantes como o Múnster), só por citar alguns exemplos. Sobre queijos deixo uma dica: é mais fácil combinar queijo com vinho branco do que com tinto.

Contudo desejaria recomendar só um prato típico da Alsácia, que existe em várias versões, e que considero muito bom, que é o “Coq au Riesling” que em sua versão original é uma galinha caipira preparada com vinho riesling. É recomendável (por óbvias razões) acompanhar o prato com um Riesling (se possível) da Alsácia.

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Bon Appetit!!! À Bientôt!! Bis bald!!

 

 

 

 

 

 

 

 

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