Pinot Noir do “Novo Mundo”: O Caso do Chile

“Anyone who tries to make you believe that he knows all about wine is obviously a fake” (Leon Adams, The Commonsense Book of Wine)

(Qualquer um que tentar lhe convencer que sabe tudo sobre vinho, obviamente, não está falando a verdade)

 

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Parreirais de Pinot Noir no Vale de Casablanca, Chile

 

O 18 de agosto de 2017, foi o dia internacional do Pinot Noir. Lembram-se que em post anterior eu mencionei o dia da Malbec? Pois bem, dia 18 passado foi o dia do Pinot Noir.

Aproveitei a data para dedicar meus pensamentos, saca-rolhas e taças de vinho a essa casta (e seu nobre vinho!!).

Também aproveitei para atualizar a caixa de correio que tantos amigos enófilos de alguns países, também apreciadores da Pinot Noir, haviam enviado.

Impressionante o volume de literatura sobre Pinot Noir que tenho recebido nesses dias de temperatura polar em Santiago do Chile; especialmente da Califórnia.

Nesse ninho de mensagens, novos livros, revistas especializadas e outros, chamou a minha atenção um livro da Jennifer Simonetti Bryan, Mestre em Vinhos e autora do “Rose Wine: The Guide to Drinking Pink” em especial a frase: “Pinot Noir é a Audrey Hepburn do mundo das uvas, porque é delicada, sofisticada e sabe ser uma Diva” (Diva, nesse caso, é uma atriz com qualidades excecionais). Jennifer acrescenta, que é uma uva difícil de plantar, cultivar, vinificar e armazenar; além disso, não é tolerante a condições extremas e “não viaja bem”. Os franceses a chamam da “uva da dor de cabeça” (imagine então os outros países!!!).

Está aí uma série de considerações que, por si só, daria para um livro.

Isso me fez lembrar que em 2015, em Denver, Colorado, degustei um Pinot Noir resultado de um projeto de uma vinícola da Califórnia, que vinificou o Pinot Noir em blend com outras castas e também como varietal, e usou vários níveis de passagem por madeira. Era o “The Pinot Project”. Sinceramente a minha avaliação não foi nada boa. A sensação de degustar aquele vinho confirma as observações da Jennifer. Parecia que estava degustando qualquer outra coisa menos Pinot Noir pois, os teores de taninos, eram muito altos e a madeira mascarava completamente as características naturais da Pinot Noir.

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Mencionei no meu primeiro post que a Pinot Noir era a minha casta preferida e que a minha “missão enológica” era degustar hoje um Pinot Noir melhor que o de ontem. E o dia 18 foi um dia especial para pôr em prática essa missão pois degustamos dois Pinot Noir.

O frio e o dia especial, ajudaram e, aproveitei as condições climáticas, para analisar uma reportagem bem interessante feita por Tom Jarvis postada pelo site Wine Searcher em 23 de maio de 2017 nos Estados Unidos. O site menciona a grande e crescente procura mundial pelo Pinot Noir e analisa os 10 melhores Pinot Noir comercializados naquele país. Inicialmente a pesquisa foi feita sem incluir os Pinot Noir da Borgonha (“off Burgundy”). O resultado foi alguns pinot noir da Califórnia, alguns do Oregon, um da Nova Zelândia e um da Suíça (curiosamente não incluíram nesses 10 primeiros os da Alemanha, Austrália, Itália, Áustria e outros países europeus). Mas o surpreendente foi que incluindo os Pinot Noir da Borgonha, o resultado seria que dos 20 melhores, 16 seriam os franceses da Borgonha. Ou seja, está de um lado os franceses e do outro… o resto. Segundo a preferência dos consumidores daquela parte do mundo.

Lembro-me que os Pinot Noir da região de Baden, onde vivi na Alemanha (Spätburgunder Rotwein), eram excelentes e se desenvolviam sobre o solo de um extinto vulcão (Kaiserstühl). Esses vinhos eram completamente diferentes do Pinot Noir da Alsácia Francesa (esses bem mais ácidos e secos) que estavam do outro lado do Alto Rio Reno a somente 20 quilômetros. Por sua vez, os da Alsácia, eram completamente diferentes dos da Borgonha que estavam a menos de 200 quilômetros. Todos eram bons e diferentes. Claro que os da Borgonha já se considerava como “padrão”, e se usava como comparação. Em outras palavras, quero dizer que não podemos analisar os Pinot Noir do Novo Mundo, por melhor que sejam, com a rigidez e padrões com os quais analisamos os Pinot Noir da Borgonha, porque se o fizermos, vamos basicamente repetir os resultados da pesquisa feita nos Estados Unidos.

Os Pinot Noir do Novo Mundo são diferentes por várias razões como diferentes clones, temperaturas, terroir, tecnologia, enólogos, tradição e outros fatores. O melhor é desfruta-los como são, com suas virtudes e pequenos “defeitos”. Não é que aqueles sejam os originais e esses as “cópias falsificadas”.

Quando cheguei em Santiago do Chile, em janeiro de 1997, comecei a ter acesso diário ao mercado vinícola chileno; bastava com visitar um supermercado ou uma enoteca, que naqueles anos ainda não eram tão numerosas como hoje. Os pinot noir eram raros nas prateleiras.

Em 1999, fui convidado pela “Paula Comunicações S.A” para fazer parte de um grupo de “catadores” que iria selecionar os melhores vinhos chilenos para a “Guia de Vinos de Chile-2000”. Observei, imediatamente, que dos quase 600 vinhos que seriam “catados”, apenas 12 (2% do total) eram Pinot Noir e, realmente confirmei, que ainda se tratava de uma casta em estágio emergente no Chile.  Naquele ano o Chile só contava com 411 hectares plantados com Pinot Noir e, em 2014, essa área já era de 3,729 hectares, um grande salto quantitativo de 800%, ou seja,3% da área total de 125,000 hectares plantados com castas viníferas no Chile. Ainda tenho claro na mente que, em 1999, os Cabernet Sauvignon e Merlot dominavam as listas das preferencias e melhores vinhos. No caso da Guia de Vinos de Chile que ajudávamos a preparar, dos 12 Pinot Noir analisados e catados, apenas 1 recebeu 4 Taças (o sistema de classificação da qualidade ia de 1 a 4 taças) que foi da Vinícola Valdivieso 1997.

Notei, na oportunidade, a existência de Pinot Noir pouco equilibrados, com taninos elevados pois se sentia muita madeira em alguns vinhos, o que contribuía para a perda do caráter jovial da casta (algo que também aconteceu na Califórnia no início da produção nos anos 80).

Será sempre necessário lembrar que a Pinot Noir é uma casta que exige um terroir específico, é muito exigente, sensível e de baixa produtividade, além de ser facilmente afetada por enfermidades; e exige muita arte, experiência e habilidade por parte do enólogo que deve ser um verdadeiro artista da Pinot Noir. Uma coisa é elaborar um bom Cabernet Sauvignon ou Merlot, outra coisa é elaborar um bom Pinot Noir. Por essa razão a Jennifer Bryan chamou a Pinot Noir a Audrey Hepburn das uvas (Lembram-se do filme: “Bonequinha de Luxo/Breakfast at Tiffanys?”).

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Hoje foi o dia das análises!!! E a próxima veio da equipe de James Suckling que classificou os melhores vinhos da região Andina (Chile e Argentina). Creio que já falei dessa classificação no post da Malbec. Pois bem, desses 100 vinhos, apenas 5 eram Pinot Noir!!! Três chilenos e dois argentinos. E os chilenos foram classificados em 10º, 69º e 91º lugares. Classificação nada excecional para os Pinot Noir da nossa região, especialmente se considerarmos que somente dois países foram envolvidos. E mesmo considerando que Chile é o país que teve o avance mais significativo pois, em 2009 e 2012, o vinho Pinot Noir foi declarado o tinto revelação.

Existem outras análises e classificações dos Pinot Noir chilenos que não irei discutir. Porém, vale a pena dar uma olhada nos “50 melhores Pinot Noir do Chile” classificação feita em 2015 pela equipe de Robert Parker. Está na Internet!! Suas conclusões são claras de que os melhores Pinot Noir são aqueles dos vales e dos anos mais frios. Ha certa preferência pelos vales de Santo Antonio, Casablanca, Leyda e Alto Cachapoal.

Confesso, que em todos esses anos, e mesmo com todo o avanço conseguido, o Pinot Noir, mesmo no mercado interno chileno, ainda não consegue competir, por alguma razão, com as outras castas tradicionais, seja pelo preço médio mais alto de cada garrafa, pela tradição dos consumidores locais, pelo volume de produção, pela qualidade do Pinot Noir elaborado, pela preferência popular, ou por outros fatores. Na verdade, a Cabernet Sauvignon é imbatível no Chile!!! E a preferência popular sempre escolhe o que há de melhor por um preço menor!!

Por outro lado, o Pinot Noir, como já afirmamos, é um vinho que não deveria ser degustado de forma irreflexiva; alguma capacidade analítica é necessária. Por essa razão um consumidor que aprecia um Pinot Noir, “padrão Borgonha”, é notoriamente mais exigente do que aquele que está habituado a tomar um tinto comum e corrente a um preço mais conveniente.

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E como o frio segue forte nesse lado do mundo, aproveito o 18 de agosto para continuar com essa série de reflexões e considerações sobre o Pinot Noir chileno que não tem, por absoluto, a intenção de afirmar que o vinho produzido no Chile seja de má qualidade. Há um reconhecimento que a qualidade avança, mas que serão necessárias pesquisas sobre terroir, (há teorias atualmente de que o terroir unicamente não teria a importância que lhe é dada) e outras, algo que acontece em todo o mundo. A perseverança é a base do desenvolvimento.

Esses novos dados vêm do Painel de degustação que a Revista Inglesa Decanter organizou em outubro de 2013 sobre o Pinot Noir Chileno. De início a revista reconhece que a Pinot Noir é “uma ciência recente” no Chile e que devesse ter paciência já que o progresso com essa casta é “doloroso e lento”. Porém, não se deve confundir singularidade com perfeição especialmente se o objetivo é o mercado internacional.

O resultado geral do Painel da Decanter foi claro: “Work in Progress” (Trabalho em Andamento). Ou seja, reconheceram o potencial e bom trabalho até agora efetuado no Chile para o desenvolvimento da Pinot Noir, porém, reconhecem que ainda há muito por fazer no futuro próximo, especialmente por ser esta casta “site specific” ou seja, específica para determinados terroir (ou sítios). Acrescentaram que a Pinot Noir chilena necessita de mais “complexidade e graça” e que estão abaixo do potencial esperado.

Para o Painel, os Pinot Noir da Nova Zelândia estavam bem à frente daqueles do Chile.

Para resumir, o Painel testou 103 vinhos e somente 1 (Viña Ventisquero, Grey, Vale de Leyda,2011) foi considerado excelente (outstanding) e 12 foram considerados bons; 44 foram classificados como recomendáveis e 46 de qualidade bem modesta ou pobres. O problema para aqueles considerados recomendáveis (os melhores) era o alto preço cobrado no comércio o que os converte em menos competitivos nos mercados nacional e internacional de Pinot Noir onde existem excelentes e consagrados representantes do Oregon, Califórnia, Nova Zelandia, Austrália e os europeus da Borgonha, Alemanha, Suíça, Áustria e Itália.

Uma conclusão é válida:  A Pinot Noir, ao contrário de outras castas, apresenta um comportamento diferente em distintos países, e será sempre difícil tomar o “padrão Borgonha” como unidade de comparação entre esses países. Segundo um enólogo norte americano, “o melhor é desfrutar do que se tem de bom nos países sem se preocupar com esses padrões convencionais”; ao que outro enólogo respondeu: Se você quer comparar banana com laranja é recomendável não fazer comparações. A verdade é que se o objetivo é a exportação, a tarefa é mais difícil pois o cliente da Pinot Noir, sabe muito bem o que é a casta e, é mais exigente, além de não aceitar qualquer coisa em nome das verdadeiras e consagradas características da Pinot Noir.

Como menciona a Jennifer Simonetti Bryan, trabalhar com a Pinot Noir significa aceitar que o risco é maior e a margem entre o sucesso e o fracasso é mínima, porém, quando bem elaborado, não há nada igual à Pinot Noir: sedoso e elegante. O grande paradigma do que deve ser um Pinot Noir permanecerá sempre: Complexo, Elegante e Profundo.

 

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Vale de Casablanca com vinhedos de Pinot Noir

 

Hora da Verdade

 

 

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Com amigos no Vale de Casablanca celebrando a vida com Pinot Noir

 

Um dos meus colegas enófilos do Chile sempre que falamos dos pontos positivos e os que necessitam melhorar no Pinot Noir chileno, ele vem com a frase: “ Es lo que hay… aun estamos construyendo la casa…a disfrutar” (é o que existe. Ainda estamos construindo a casa… desfrutemos). Com as palavras de Pepe, decidimos aproveitar o dia do Pinot Noir e transformá-lo na semana do Pinot Noir. Por isso abrimos algumas garrafas, porém só detalharei duas delas para não me tornar muito repetitivo.

A primeira garrafa que abri foi um Pinot Noir 2015 Reserva da William Cole da linha Columbine Special do Vale de Casablanca. O que chamou a atenção foi a pontuação que esse vinho recebeu de Jamessuckling.com (91 pontos) e do Guia Descorchados do Chile (90 pontos).

Pela boa pontuação recebida deveria ser um vinho 4 estrelas, porém, em nosso julgamento, achamos que 3 estrelas seria o mais indicado. Foi degustado a uma temperatura de 13 graus Centigrados e possuía um teor alcoólico de 13,9 %.

Apresentava uma coloração vermelho claro brilhante, com aromas a amoras e cerejas frescas, com uma acidez equilibrada e taninos bem suaves. Recomendável para acompanhar frangos grelhados e carnes de Peru muito pouco condimentadas ou pastas com molhos suaves. Sem dúvidas, um bom vinho.

A outra garrafa para mim foi uma surpresa pois, vem de um vale             que não tem “tradição” na elaboração de Pinot Noir; se trata do Valle de Lolol que na realidade é uma sub-região do Vale de Colchagua (cerca de 120 km sul de Santiago). Este vale de clima frio é conhecido pela produção de excelentes Syrah, Carmemere e Malbec. É uma zona ocidental e fresca do Vale de Colchagua próxima ao Pacífico. Confesso que ainda não conhecia os Pinot Noir dessa região.

O vinho que degustamos foi o HUMO BLANCO que é um vinho orgânico da Vinícola Francois Lurton. Se trata de um Pinot Noir de 2015, Edição Limitada, com graduação alcoólica de 14,0 graus, com coloração rubi (bem mais escura do que os típicos Pinot Noir); aroma a frutos maduros de framboesa e amora com retro gosto não tão pronunciado e com taninos não tão finos. Bastante potente pelo seu teor alcoólico, e se recomenda que acompanhe frangos assados, atum, albacora e salmão. Também pode-se consumir com queijos maduros. Minha opinião é que o vinho lembra, porém de longe, as características típicas de um Pinot Noir (típico de Pinot Noir do Novo Mundo), talvez porque passou por mais madeira que o recomendável ou por ter sido produzido com castas de um terroir pouco apto para Pinot Noir. Pouca complexidade e graça.

Alguns dos vinhos que degustamos na celebração da “semana” do Pinot Noir.

A seleção recaiu basicamente em vinhos de 2013 a 2016 no Vale de Casablanca e Leyda, muito embora os Vales de Lolol e Limarí estejam também representados.

Os Pinot Noir mais reconhecidos atualmente, são os dos Vales de Casablanca, Leyda e Santo Antonio. Existem, também, bons resultados com alguns Pinot Noir dos Vales de Limari e Aconcagua (perto da Costa). Se reconhece, também, o potencial dos Vales de Bio-Bio e Malleco.

É importante ter em consideração que os Pinot Noir chilenos se encontram em uma fase de “ afinação” e ajustes de pequenos, porém importantes detalhes e, essa fase, pode tomar algum tempo!! É necessário ter paciência!! Aqui a história ainda está sendo escrita.

Uma dica final: Quando selecionarem um Pinot Noir chileno, prefiram aqueles cuja “vendimia” (colheita) foi feita em um ano frio e os mais jovens (por exemplo, os anos de 2010 e 2011 e 2017). Não é complicado ver quais os anos que tiveram um inverno mais rigoroso ou foram mais frios; basta dar uma olhada na Internet.

Obrigado por acompanhar-me nesta viagem e que disfrutem um bom Pinot Noir. Vale a pena!!

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Hasta la próxima!!

 

3 de setembro- Dia Nacional do Vinho Chileno…a celebrar!!!!!!!!

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Para aqueles que tiveram a curiosidade de ver um saxofonista na degustação do Humo Blanco: Se trata de um saxofonista Alto da Orquestra Filarmônica de Praga em puro Cristal da Bohemia (coleção privada).

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