Os Bons Vinhos do Sul… da Itália

“L`Uomo si Conosce al Bicchiere” (Se conhece o homem pelo que ele bebe)

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Bacchus (Baco) em sua juventude, Caravaggio,1593

A primeira imagem que muitos ainda tem dos vinhos italianos são os clássicos Chianti toscanos (muita gente ainda guarda a imagem da tradicional garrafa [“caraffa”] abaulada forrada exteriormente por palha sendo a mais conhecida a do Chianti Ruffino). Alguns, mais exigentes, ou viajados, mencionam os Brunello ou Rosso di Montalcino (também toscanos), outros citam os Bardolino ou Valpolicella do Veneto, alguns lembram dos Lambruscos (da Lombardia/Emília Romagna) e outros, enaltecem os Barolo, Gattinara, Grignolino ou Barbera do Piemonte. Porém, mesmo hoje, poucos, especialmente os turistas, vão além dessas menções.

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Quando se trata de vinho branco, a coisa fica um pouco mais difícil, mas mesmo assim, alguns mais interessados, mencionam os Soave do Veneto, ou os Pinot Grigio, Müller Thurgau ou Chardonnay de Venezia-Friuli-Giullia ou Alto Adige; uns poucos lembram dos Verdicchio da região da Marche, outros alguns toscanos (Trebbiano toscano) e aqueles que vivem na região de Lazio, facilmente citam os brancos dos Castelli Romani (Frascati e Companhia, todos de Trebbiano).

É bem verdade que as regiões do Piemonte, Veneto e Toscana possuem juntas cerca de 40% dos vinhedos italianos e são responsáveis por 20% do volume dos vinhos produzidos na península Itálica, porém, é interessante observar, que a Puglia, e a Sicília, juntas, mesmo só tendo 15% da área total dos vinhedos italianos, são responsáveis por cerca de 36% do volume total dos vinhos elaborados, o que demonstra a força e pujança dessas duas regiões sulistas.

Claro que alguns dos meus colegas enófilos, quando cito essas estatísticas, sempre dizem que ainda existe uma grande brecha entre a qualidade do vinho do Norte com a quantidade do vinho do Sul, porém eu afirmo que essa brecha diminuiu muito nos últimos 20 anos.

Entre outros fatores, o preço da terra na Sicília sendo bem menor do que no norte do país ou em outros países, tem motivado a grandes vitivinícolas do Norte e de outros países a investirem forte no Sul, adquirindo terras, trazendo tecnologia de ponta e produzindo bons vinhos durante todo o ano, pois o clima assim permite. Muitos já estão chamando a Sicília da “Califórnia Italiana”.

Devido a esse processo de desenvolvimento, sou testemunha de que a percepção e apreciação dos vinhos do Sul tem mudado e, colabora com este processo o forte marketing promovido pela internet nos últimos anos tem ajudado no conhecimento e na promoção dos caldos sulistas.

Esse será o tema que vamos abordar nesse post. Naturalmente de uma forma bem “light”.

Durante o meu período romano nos anos 80 e 90, comecei a conhecer melhor e admirar a riqueza vitivinícola do sul da Itália (incluindo a ilha de Sicília). Coincidentemente, nesse período se iniciava o processo de renovação e de uma nova etapa de desenvolvimento. Castas tintas com as quais eu não tinha muita familiaridade como a Nero d’ Avola, Negroamaro, Primitivo, Nerello Mascalese e Gaglioppo, começaram a fazer parte cotidiana da minha mesa e minha pequena adega. Todas, cepas nativas do sul da Itália.

Confesso que dos vinhos brancos sulistas me familiarizei melhor com o Marsala que é um vinho fortificado elaborado na Sicília com as castas Grillo, Greconico, Trebbiano toscano, Carricante, Malvasia, Ansionica e outras. Claro que degustei alguns brancos como o Corvo Bianco. Cerca de 75% das castas viníferas da Sicília são brancas e são basicamente utilizadas na elaboração do Marsala. Se trata de um vinho interessante e, para variar, “de inspiração inglesa”, e que joga no mesmo time dos Porto, Madeira, Tokay, Jerez,e outros “representantes” dessa família. Deixarei para outra oportunidade esse tema.

As Uvas

As regiões sulistas da Puglia (Apúlia), Calábria e Sicília são as mais significativas em termos de produção, qualidade e exportação de bons vinhos, especialmente os tintos. E essa produção é ainda basicamente feita com castas autóctones, muito embora já existam algumas vinícolas que utilizam em menor percentagem castas francesas para cortes (blend).

Descreverei apenas uma amostra representativa dos vinhos tintos que mais degustei já que não teria espaço para falar de todos os que apreciei. Como as castas da região não são ainda a nível internacional, tão populares como as francesas, iniciarei pelo básico, ou seja, pelo conhecimento das castas da região que são em sua grande maioria nativas desse lindo pedaço de terra.

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Videiras da Sicília (planície do Etna)

Nero d’Avola

Casta tinta mais importante da Sicília, e original da região em torno à cidade de Avola, na costa sudeste da ilha, muito embora a Calábria afirme que a origem da casta é calabresa (lá é conhecida como calabrese).

O nome Nero se deve à cor escura da pele e, desde a antiguidade, é utilizada para dar cor e corpo aos vinhos elaborados com Syrah, Merlot e Cabernet Sauvignon. Sua fama como casta varietal é recente pois, até o final do século passado, era mais utilizada para cortes de outros vinhos. Claro que alguns vinhos como o Corvo Rosso Duca di Salaparuta já a utilizavam como varietal há algum tempo como vamos ver mais adiante.

Desde os anos 80 que os colegas enófilos italianos comparavam essa casta à Syrah por compartirem características muito comuns além do fato de que ambas se adaptam muito bem a regiões com temperaturas elevadas.

A Nero d’Avola, dependendo do processo de vinificação, pode dar vinhos bem escuros (sabores a framboesa madura) ou vinhos jovens, mais claros e frescos (aromas e sabores a frutas frescas e ervas). É uma uva de casca fina e amadurecimento tardio que possui elevados teores de taninos, forte corpo e elevada acidez; porém quando cultivada em altitudes mais elevadas tem o seu nível de álcool reduzido (seu teor natural de álcool se situa entre 13 e 14,5%).

Hoje a casta é também encontrada na Austrália, Estados Unidos (Califórnia) e um pouco na Argentina.

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Casta Nero d’Avola

Negroamaro

Esta casta cresce quase que exclusivamente na região da Puglia (Apúlia) e produz vinhos escuros que apresentam um caráter rústico. É cultivada próxima à cidade de Salento e, nessa região, quando produzida em “blend” (corte) com a uva aromática Malvasia Nera, da origem ao bom vinho Salice Salentino.

É uma uva vigorosa, com pele grossa, cor violeta bem escura, com alta produtividade e resistente a secas que se desenvolve muito bem em terrenos calcários e maduram tardiamente (setembro/outubro). Também é encontrada em Mendoncino na Califórnia.

Atualmente se elaboram bons vinhos varietais com a negroamaro porém ela se encontra frequentemente mesclada (cortes, blend) com a Primitivo, Malvasia Nera, Sangiovese, e a Montepulciano.

Geneticamente esta casta é prima-irmã da Verdicchio (ver post anterior dessa casta) e da Sangiovese.

A Negroamaro e a Primitivo são as grandes estrelas da vitivinicultura pugliesi. Sobre a Primitivo já escrevi bastante no post “Primitivo or Zinfandel” de junho passado e convido os leitores a ler esse interessante post nesse mesmo blog.

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Casta Negroamaro
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Casta Primitivo

Gaglioppo (Calábria)

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Calábria

É uma variedade de casta tinta nativa da Calábria. Conjuntamente com a Greco Bianco e a Mantónico produz um vinho de alta qualidade de cor vermelho-rubi escuro, aroma floral e frutado.

Segundo especialistas, a gaglioppo é o resultado da polinização cruzada entre a sangiovese e a mantonico di bianco (lembra a origem da cabernet sauvignon) e segundo alguns é a casta mais antiga que ainda produz vinhos no planeta.

É uma casta de amadurecimento tardio, com altos teores de açúcar, de difícil cultivo e vinificação, resistente a seca. Nos climas mais frios os vinhos elaborados são mais suaves, florais e com boa acidez. Nas planícies do Etna, os vinhos têm mais teores de taninos e muitos produtores preferem colher as uvas mais cedo para que mantenham um bom nível de acidez.

A Calábria possui 25,000 hectares de vinhedos, porém só 10% da produção é engarrafada na região; o restante é exportado para outras regiões para ser usado como blend.

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Casta Gaglioppo

Casta Nerello Mascalese

É uma variedade tinta originaria da região de Catania, Sicília, em uma área conhecida como Mascali, nas planícies da base do Monte Etna.

Possui um amadurecimento tardio e é por alguns comparada à Pinot Noir considerando as várias semelhanças que possuem. Ambas crescem em climas frios, são bem ácidas, possuem uvas pequenas de cor violácea escura e elaboram vinhos de cor avermelhada média, com bom caráter aromático, e também é usada em cortes com outras castas.

Sua prima mais próxima é a casta Nerello Cappuccio, que é uma mutação inferior à Nerello Mascalese e também usada em blends com a mesma Mascalese.

As castas se desenvolvem muito bem em solos vulcânicos do Monte Etna (Denominação de Origem-DOC Etna) e na Planície de Catania mas para o sul. Na parte nordeste da Sicília, perto do Porto de Messina, ambas as castas são responsáveis pelos bons vinhos de Denominação de Origem-DOC-Faro. Também são mesclados com o Nero d’Avola.

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Casta Nerello Mascalese

Os Vinhos

A minha experiencia com os vinhos tintos do sul da Itália vem dos anos 70, porém, foi consolidada nos anos 80 com a minha ida para Roma, e se estende até o dia de hoje. E para ser ainda mais preciso, abrirei uma bela garrafa de um Corvo Rosso Duca di Salaparuta para celebrar este post.

O Corvo Duca di Salaparuta é um siciliano elaborado com a casta Nero d’Avola. É um vinho encorpado com coloração vermelho rubi escura, aroma e sabor complexos, porém intensos e frutados. O de 1980 apresentava taninos suaves e o mais jovem, de 2014, consumido hoje, mostrou taninos mais elevados e acidez mais acentuada.

Outro tinto sulista que recomendo e que sempre apreciei acompanhando Spaghetti al Ragú (bolonhesa), pizzas napolitanas, caprichosas e outras, é o CIRÒ que é um DOC da Calábria elaborado com a casta Gaglioppo que descrevemos anteriormente. É de longe o vinho mais conhecido da Calábria!! Os calabreses são muito versáteis com esse vinho pois o acompanham com carne de porco, linguiças, massas e até frutos do mar como o atum bem cozido da Calábria. No verão o bebem bem fresco (considerando que se trata de um tinto!!). É um vinho com uma acidez pronunciada e taninos bem marcantes (porém macios) com aromas a frutos vermelhos e condimentos.

Abaixo ilustro meu primeiro Cirò consumido nos anos 80 (que nessa época já era um DOC) e elaborado pela vinícola Zito. Depois desse perdi a conta das garrafas que foram degustadas.

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Também desejaria recomendar outros sicilianos (Indicação Geográfica Típica-IGT) que podem acompanhar os mesmos pratos acima. Se trata de um RAPITALÀ de 2012 e um Rapitalà Nero d ‘Avola de 2014. São vinhos elaborados com as castas Nero d’Avola ou em mistura (blend) com a Nerello Mascalese. Coloração vermelha rubi escuro, com um aroma típico a frutas negras maduras, especiarias ou ervas; seus taninos são suaves e doces e sua acidez é equilibrada com álcool natural em torno aos 13%.

 

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Vinhos da Puglia (o “Salto da Bota italiana”)

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Esse vinho, relativamente jovem, com coloração vermelho rubi escura, com taninos equilibrados e aromas e sabores a frutas vermelhas como a cereja bem madura e notas a pimentos. O retro gosto provoca uma sensação um pouco adocicada (taninos doces); o vinho não passou por madeira e foi (como deve ser) consumido jovem. Gastronomicamente recomendo acompanhar esse vinho com pastas ou pizzas um pouco picantes (calabresa ou outras); também acompanha bem um “pollo al diávolo”( peito de frango grelhado com condimentos picantes e pimenta do reino). Com frango al Curry também é indicado. Ou mesmo acompanhando queijos fortes!!! Outro vinho pouco mais simples que recomendaria para “tutto pasto” é um salentano, que adjunto abaixo.

Como a grande maioria dos vinhos do sul da Itália, esse negroamaro possui uma coloração vermelho escura, rubi, com taninos suaves e pouco doces e equilibrados, aroma e sabores a frutos vermelhos maduros. É um vinho com boa estrutura e corpo. As indicações gastronômicas (“maridaje”) são semelhantes ao do vinho anterior.

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Por aqui vou ficando. Sinceramente recomendo seguir as indicações mencionadas no post, quando decidirem degustar um vinho tinto do sul da Itália, pois irão aproveitar muito mais das suas características e qualidades. É importante que não degustemos um vinho somente pelo que está nas etiquetas e que conheçamos melhor a história do que estamos bebendo. E o vinho, mais do que qualquer outra bebida, se presta muito para isso pois, acima de tudo, é cultura. Nunca se deve tomar um vinho de forma irreflexiva.

E quando puderem, se já não fizeram, recomendo que visitem o Sul da Itália, pois é umas das regiões mais lindas que irão ter a oportunidade de conhecer.

Que aproveitem!!! Obrigado pela leitura!! Y Hasta la Vista!!

Aí está o meu Corvo Rosso Duca di Salaparuta de 2014 com o qual celebro o prazer de ter finalizado esse post para os estimados amigos. Saúde!!!

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Corvo, Duca di Salaparuta, Rosso, 2014, uma das 10 milhões de garrafas produzidas pela Duca di Salaparuta nas terras sicilianas. Uvas provenientes de Agrigento e Caltanissetta e elaborado em Casteldaccia. Cor vermelho rubi com aroma a cereja amarga, framboesa madura e alcaçuz; taninos equilibrados, boa estrutura, seco e com retro gosto na boca a amêndoas com 12,5% de graduação alcoólica.

 

 

2 respostas para “Os Bons Vinhos do Sul… da Itália”

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