Châteauneuf-Du-Pape: O Vinho do Papa

“ O vinho valoriza qualquer refeição… mas para os franceses, o vinho valoriza a vida” (André Simon)

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Confesso que o vinho que mais curiosidade me despertava nos anos 70 era o Châteauneuf-Du- Pape. Talvez pela sua interessante história que envolvia a participação nos seus primórdios de alguns Papas; em parte por poder ser elaborado por 13 variedades diferentes de uvas (hoje são 18 variedades e vamos ver adiante), ou mesmo pelo impactante nome (Châteauneuf-Du Pape); ou seria pelo seu alto preço para aqueles anos? Eu tentava entender todos esses aspectos, sobretudo sobre como se faria um vinho com 13 variedades sem que isso afetasse significativamente a qualidade dos vinhos ou da “marca” (Châteauneuf -Du-Pape).

Aproveitando um recesso universitário entre o final do verão e início do outono alemão, planejamos, com a família de outro colega que fazia o doutorado em Freiburg, “pegar a estrada” e ir visitar Côte D`Azur – a Riviera francesa, passando pela Borgonha (a terra do Pinot Noir), e por Avignon, terra dos Papas, aproveitando para conhecer a vila de Châteauneuf Du Pape. Bom, hoje me concentrarei somente em Châteauneuf- Du-Pape e deixarei a Riviera francesa para outra oportunidade. O Enoturismo por toda essa parte da França daria combustível para um livro, e não é esse, no presente momento, o meu objetivo.

E foi isso que fizemos! Fomos de Freiburg para a quase vizinha Mulhouse no sul da Alsácia francesa, e de lá tomamos a autoestrada A36 em direção a Beaune (Borgonha). Antes de chegar a Beaune, tomamos à Autoestrada A6, na direção do Sul; passamos por Lyon onde a Autopista passou a se chamar A7, e continuamos em meio a lindas paisagens vinícolas. Mais em frente entramos na famosa região da Côtes du Rhône (Ródano) e, em seguida, passamos pela cidadezinha de Orange, início da região de Châteauneuf-Du-Pape; mais em frente chegamos a vila de Courthèzon e tomamos a direita pela rodovia D92 (E714); pouco depois estávamos na cidadezinha de Châteauneuf Du Pape. Confesso que achava que era algo maior; na realidade era um simpático e histórico vilarejo com pouco menos de 2000 habitantes e com vinícolas por todos os lados. Se podia beber vinho os 365 dias do ano se alguém desejasse e aguentasse.

Foram 670 km desde Freiburg, e umas 8 horas de estrada com o nosso Fusca, apodado de “Fritz” pelos amigos. Lembro até hoje que nos hospedamos em um pequeno hotel na Avenida Charles de Gaulle ao lado do Bureau de Informações Turísticas.

Châteauneuf Du Pape nos anos 1300 era a residência de Verão do Papa Clemente V e seu sucessor João XXII, ambos amantes do vinho. E se situa somente a 15 km a nordeste de Avignon, a cidade dos Papas, onde foi construído um lindo Palácio dos Papas, um dos mais visitados monumentos turísticos da França atual.

Na atualidade a história se repete, pois, o Vaticano em Roma, tem a sua residência de verão na cidadezinha de Castel Gandolfo na região dos “Castelli Romani” onde os Papas passam parte do verão.

É interessante notar que entre 1309 e 1376 o pontificado romano foi transferido de Roma para Avignon onde até hoje existe o belo Palácio dos Papas. Papa Clemente V que era francês, e tinha sido Arcebispo de Bordeaux, assim como um bom conhecedor de vinhos, conseguiu transferir o Pontificado de Roma para Avignon em 1309 (a história é bem longa e pouco complicada e não comentarei nesse espaço).

No período do Papa João XXII, o vinho dessa região era conhecido como “vinho do Papa”, porém, somente em 1923, é que a atual Apelação de Origem Controlada (AOC) Châteauneuf -Du- Pape foi oficialmente instituída com pleno apoio do influente Barão Le Roy, fundador e presidente da Associação dos Vinicultores de Châteauneuf-Du-Pape.

Do famoso castelo de verão dos Papas, que foi construído em 1322 por João XXII, só existe atualmente umas poucas ruínas que são bem mantidas para o turismo, pois o mesmo foi destruído, e saqueado, no século 16, pelos insatisfeitos moradores da região e por bombardeios alemães durante a segunda grande guerra.

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Vila de Châteauneuf-Du-Pape e ruinas do castelo novo

Voltando a nossa visita dos anos 70, lembro-me que tomamos em dois dias, “diferentes tipos” de Châteauneuf- Du- Pape; uns muito bons e outros nem tanto. Essa foi a minha “primeira descoberta”: “Nem todos os Châteauneuf-Du-Pape eram o que esperávamos que fossem”.

Abro um parêntese, e à título de curiosidade, conto que no ano passado, durante a visita que faço anualmente ao meu filho Alexandre, que reside em Denver, aproveitei para ir à “Wine and Spirits Store” (Adega de Vinhos e outras Bebidas Alcoólicas) onde sempre compro os meus vinhos. Eles têm uma excelente seção de vinhos franceses, e lá pude apreciar vários Châteauneuf-Du-Pape com preços que variavam (acreditem!!) dos 40 aos 1,100 dólares americanos (a garrafa). A resposta, mesmo em 2016, e considerando a seleção ponderada dos importadores para o mercado norte americano, creio que está no parágrafo anterior. Suponho que a garrafa de 1,100 dólares era para colecionadores (com carteira recheada de dólares).

Fechando o parêntese, e voltando a nossa visita dos anos 70, em uma das nossas degustações em uma vinícola, levantei a minha observação sobre as diferenças que encontramos em qualidade e preços nos diferentes vinhos que degustamos; o enólogo nos explicou que nem todos os produtores (na época eram mais de 120) estavam localizados nos melhores e mais caros terroir da região, que são os mais arenosos e cobertos por pedras de quartzito arredondadas (galets roulés em francês), oriundas em um passado remoto, do leito histórico do rio Rhône. Além disso, muitos usavam diferentes cortes (assemblage) de castas (lembremos que eram 13 as autorizadas) em diferentes proporções, o que dava origem a “diferentes” vinhos, com diferentes qualidades; por outro lado, nem todas as vinícolas possuíam os mesmos níveis tecnológicos para a elaboração dos vinhos. Resumindo: o nome châteauneuf-du- pape não garantia a elaboração de vinhos da AOC com a mesma qualidade final. Isso no final dos anos 70. Hoje os mesmos “Négociants” franceses filtram e selecionam para exportação, somente os melhores.

Os “galets” que mencionei anteriormente, tem o importante papel de absorver o calor do sol durante o dia, e libera-lo durante a noite, o que favorece o amadurecimento e nível de açúcar das uvas. Vejam abaixo:

A Uvas e o Vinho

Em 2009 a quantidade de variedades de castas permitidas na elaboração dos vinhos da ”Appelation d’Origine Contrôlée”- AOC Châteauneuf Du Pape passou de 13 para 18.

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Contudo, é necessário saber que, atualmente, a maioria dos produtores utiliza 3 ou 4 variedades principais que são a Grenache, a Syrah, a Mourvèdre e muitos incluem a Cinsault. A Grenache é a rainha da região e existem vinicultores que só utilizam essa casta na elaboração dos seus vinhos. Segundo alguns, essa é a região onde a Grenache melhor se desenvolve no mundo e encontra sua melhor expressão.

Na realidade cada uma dessas castas, com suas diferentes características, aporta determinadas qualidades que são essenciais para o vinho final.

Grenache

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A Grenache cobre 72% do total dos vinhedos da região e é responsável pela doçura do vinho.

Syrah

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A Syrah com um total de 10,5% dos vinhedos, é responsável principalmente pela cor e acidez.

Mourvèdre

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Na Espanha é conhecida como Menestrell; cobre 7% dos vinhedos da região sendo a responsável na “assemblage” pela elegância, estrutura, frescor e longevidade do vinho.

Cinsault

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Cobre de 5 a 10% das plantações da região sendo a responsável pelos aromas frutados, brilho, potência e suavidade do vinho. O vinho fica mais “aveludado”.

Os vinhos dessa região são ricos em álcool natural com 13% a 15% (o mínimo deve ser de 12,5%).

Em outras palavras, considerando a complexidade natural e tecnológica de sua elaboração, um Châteauneuf-Du-Pape está a exigir arte e conhecimento mais apurado do enólogo; se os vinhedos se situam na zona, digamos A+, que tem o “terroir” típico da região, ainda melhor. Isso tem importância pois os preços que se paga por cada garrafa justifica que se conheça esses detalhes. Por isso esse vinho deve ser bem “pesquisado” pelo consumidor para melhor selecionar o produtor e o ano de elaboração. Canais de “pesquisa” não faltam atualmente.

Falando em produtor, tenho mais conhecimento de dois que são muito bons: Château Beaucastel e Clos de Papes.

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Clos des Papes
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Château Beaucastel

Porém, há outros recomendáveis como Domaine du Vieux Télégraphe, Rayas, La Nerthe, Domaine de Beaurenard ou Duc de Caderousse, só por mencionar os que melhor conheço. Creio que atualmente o número de produtores entre Avignon/Vila de Châteauneuf-Du-Pape/Orange/Courthèzon passa dos 220. Já são 3200 hectares plantados.

O vinhedo e terroir mais famoso da região é La Crau que no passado pertencia ao Domínio do Vieux Télégraphe. Passando pela região, vale a pena fazer uma visita a esse terroir.

É interessante observar que a garrafa do Châteauneuf-Du-Pape, desde 1937, vem com as “chaves cruzadas” gravadas na parte superior do seu corpo que são o símbolo do papado (chaves do reino dos céus concedidas por Jesus a São Pedro); o nome da região como hoje conhecemos, veio em 1893.

“A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes” (Alexander Fleming)

Os Vinhos

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Château Beaucastel

São vinhos de complexidade aromática encantadora, potentes, concentrados, e com taninos bem evidentes, ademais de refrescante acidez. Pessoalmente prefiro degusta-los “jovens” (3 – 5 anos), contudo tem potencial maior de envelhecimento. Alguns, muito mais. Quando jovens dão a sensação de ser austeros na boca e apresentam boa acidez. Os aromas são de ameixas, cerejas ou mesmo framboesas (as vezes pêssegos) com notas florais e minerais.

A maior parte desses vinhos passa de 12 a 24 meses em barris de carvalho (franceses, “por supuesto”!!) e a madeira desempenha seu papel aportando notas tostadas, café e defumados (com ligeira sensação aveludada).

Reproduzo abaixo um Châteauneuf-Du-Pape da colheita de 1989 (ano excelente) que degustei em 1997 em Roma e que refletia boa parte das características organolépticas que mencionei anteriormente. Se trata de um Duc De Caderousse da Maurice Granier, elaborado com 60% de Grenache, 20% de Syrah e 20% de Mourvèdre, com 14% de álcool e servido a uma temperatura de 16 graus, que foi degustado acompanhando um cordeiro assado com champignons (alguns perguntam como me lembro desses detalhes!!! Acontece que eu adquiri o hábito de fazer anotações desde os anos 70 quando algum vinho me impressionava positivamente; a minha coleção de etiquetas classificadas tem mais de 400 rótulos dos vinhos que “me impressionaram”). E segue crescendo!!! (o número das etiquetas dos que não me impressionaram deve ser, pelo menos, dez vezes maior).

Há pouco tentei encontrar uma garrafa desse mesmo vinho e ano, porém, não foi possível encontrar. Virou artigo de colecionadores.

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Obrigado pela leitura e nos veremos em breve!

A bientôt!

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