Carménère: A Casta Fênix com Dupla Nacionalidade

“El vino alegra el corazón del hombre, y la alegria es la madre de todas las virtudes” (Goethe)

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NA EUROPA, sempre que eu tinha a oportunidade de bater um papo com um viticultor, produtor, professor ou comerciante de vinhos, sobre tipos de uvas ou desenvolvimento da vitivinicultura continental, aqui ou ali vinha à tona o tema da infestação de Oídio (1850), da filoxera (1865) – Phylloxera vastatrix– ou do Míldio (1895), que dizimou e causou enormes estragos à grande maioria dos parreirais do continente.

Os franceses, especialmente, sempre recordam que as suas castas tannat, malbec. Carménère e cabernet franc só por mencionar algumas, e que são originarias do sudoeste francês, hoje estão a fazer sucesso no Uruguai, Argentina, Chile, e Brasil respectivamente, já que os clones dessas castas haviam sido exportados para o Novo Mundo antes de 1850. Na realidade, reconhecem que tiveram posteriormente que importar, desses mesmos países, novos clones para dar vida ao replantio na Europa que, dessa vez, foi feito pelo processo de enxertia, tendo como “cavalo” uvas norte americanas (Vitis labrusca, Vitis americana e outras) que são imunes a filoxera e, as Vitis viníferas europeas, como “cavaleiro”.

A Carménère, como mencionamos anteriormente, é originaria do sudoeste da França, especificamente do Médoc e pertence à família do Cabernet (seu primo bem próximo). Porém, no processo de replantio os viticultores franceses deram prioridade à Merlot pois essa casta amadurece bem mais cedo que a Carménère o que é importante quando se consideram os aspectos fitossanitários e comerciais.

Carmenere

Esses eram temas que eu e muitos outros milhões de enófilos conhecíamos, porém, só comecei a tomar realmente consciência quando fui viver em Quito, Equador, transferido de Roma por minha Organização, a FAO. Bom, não é que o Equador seja um produtor de vinhos, porém, justamente por isso, eles importavam grande quantidade de vinhos chilenos especialmente Cabernet Sauvignon e Merlot que abasteciam a minha adega.

Minha experiencia com essas duas castas já era significativa, porém estava basicamente “confinada” a vinhos franceses, alguns italianos e brasileiros. Por isso eu encontrava características organolépticas bem diferentes nos chilenos (especialmente no Merlot) o que sempre creditava a fatores como “terroir”, clones e outros. Muitos dos merlot que tomava do Vale Central do Chile me chamavam a atenção pela estrutura, sabor, aromas, que se diferenciavam muito dos franceses, californianos, italianos e australianos que eram os que eu conhecia melhor. Sem dúvidas era um merlot diferente, mais frutado e herbáceo de um vermelho mais forte tendendo ao violáceo ou carmim e com uma estrutura que se diferenciava dos outros.

Com a minha vinda para o Chile em 1997, fui convidado para fazer parte do “Círculo de Amigos da Viña Cousino Macul” e, com isso, tive a honra de conhecer o mundo enológico chileno que não conhecia antes e de visitar várias vinícolas e produtores chilenos.

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Foi então que comecei a entender melhor a história do Carménère que ainda estava em formação pois, em 1997, as vinícolas ainda estavam “digerindo comercialmente pouco a pouco” uma nova história de uma uva chamada Carménère, já que teriam que separa-la do Merlot, que já era um sucesso comercial no país. E por que isso?? Vejam o pequeno relato a seguir que já é bem conhecido mas vamos repeti-lo resumidamente:

“Em Novembro de 1994, Senhor Jean-Michel Borsiquot ,um ampelógrafo (estudo das vinhas, folhas para definir sua descrição e identidade) francês, em visita a Chile (creio que a um Congresso Internacional de Viticultura) especificamente à Vinícola Carmen que é a mais antiga do Chile, pois foi fundada em 1850, portanto antes dos problemas fitossanitários europeus, teve sua atenção voltada para algumas áreas de plantações de Merlot cujas uvas estavam amadurecendo tardiamente e fez uma rápida inspeção das folhas e se deu conta que aquelas castas não eram de merlot e provavelmente de Carménère (forma das folhas, cores diferentes nas partes posteriores dessas folhas e outros detalhes). Posteriormente, em testes ampelográficos utilizando técnicas de engenharia genética, comprovou que aquelas castas realmente eram de Carménère e que haviam sido trazidas da França em anos anteriores às pragas de Oídio, Filoxera e Mildio”.

Creio que estava resolvido o “mistério”: Parte do que era considerado merlot era realmente Carménère e que o merlot chileno em realidade era uma “mistura” de merlot e Carménère, ou seja, originalmente muitos clones de Carménère haviam sido equivocadamente etiquetados e trazidos para o Chile como merlot onde se adaptaram maravilhosamente ao “terroir” chileno.

Claro que houve toda uma história e discussão depois disso pois alguns produtores não pareciam aceitar esse fato histórico. Porém a maioria “capitalizou comercialmente” a descoberta (não era um fato tão novo assim pois muitos produtores já haviam se dado conta que o merlot chileno poderia ser um novo “sub clone” e queriam estudar o assunto), separaram as uvas, e começaram a plantar em escala industrial. O Chile atualmente possui a maior área plantada com Carménère do mundo com cerca de 8,900 hectares plantados.

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A “explosão do Carménère chileno” se deu somente no presente século pois, lembro-me que em 1999, fui convidado a participar como “catador-consumidor” na preparação da primeira edição do livro “Guia de Vinos de Chile”, onde participaram os maiores enólogos, produtores e negociantes chilenos e alguns franceses e

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os vinhos de Carménère foram tratados de forma muito leve com baixo perfil pois na oportunidade somente três vinícolas elaboravam esse vinho, especialmente a Viña Carmen a precursora do Carménère e, nem mesmo a casta, foi mencionada no livro no capítulo referente a “Nuestras Cepas”.

Claro que se pode compreender pois, mesmo hoje, 2017, a “uva perdida de Bordeaux” só tem 23 anos do seu “renascimento” já que foi cultivada no Chile por 120 anos como merlot; contudo, hoje já é considerada “a uva símbolo do Chile” ou melhor dizendo, uma das principais bandeiras da moderna enologia chilena e com “dupla nacionalidade”.

Como são as castas e os vinhos elaborados com Carménère??

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Ainda hoje na França, a Carménère é conhecida como “gran vidure”. Na Itália são chamadas de “ibéria biturica”.  É interessante observar que na França está crescendo o interesse pelo replantio da carmenere (gran vidure). ATENÇÃO!!!!

A casta é também encontrada na Argentina, Estados Unidos, Nova Zelândia e até mesmo no Brasil. Porém nada que se compare com o Chile!!

Na Itália tem uma história interessante; uns produtores compraram da França uns clones de Cabernet franc em 1990 e depois descobriram que na realidade haviam comprado clones de Carmenere. E desde 2007 é produzido normalmente no Veneto e em Veneza-Friuli-Julia.

A razão da confusão pode ser atribuída a que a carmenere é um sub-clone da Cabernet Sauvignon e que seria irmã da Merlot e o papai seria a Cabernet Franc que foi a variedade mais popular e cultivada na França dos anos 1800.

E os vinhos… como são??

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“No sobreviverán los versos de los poetas que bebem água” (Horácio)

São vinhos de coloração vermelho escura violácea-carmim, com corpo médio, cujos taninos são mais suaves que o Cabernet Sauvignon, aromas a frutas vermelhas com pronunciadas notas vegetais especialmente herbáceas, porém são menos elegantes que a Pinot Noir ou mesmo a Merlot; a recomendação é que sejam degustados ainda jovens com no máximo 2 ou 3 anos embora alguns discordem dessa observação mencionando que a Carmenere é uma uva potente e que teria o potencial de guarda para 10 ou 20 anos. Ainda não teria elementos para confirmar essa afirmação.

A minha experiencia pessoal é de que esses vinhos com 2 ou 3 anos de engarrafados são frescos e deliciosos para acompanhar vários pratos.

Aspectos Gastronômicos

“el vino es la parte intelectual de la comida” (Alexandre Dumas)

Carnes vermelhas assadas, churrascos argentinos ou brasileiros, cordeiro assado e carnes vermelhas em geral, pastas com molhos à bolonhesa (Ragú), queijos fortes e mesmo risoto de frango com salsa teriyaki (minha última experiência especialmente preparado por Jane) são bons companheiros para acompanhar o Carmenere.

 

 

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Pessoalmente sou um grande apreciador das “empanadas chilenas de Pino” (pastel chileno de carne preparada com diferentes condimentos, bem diferente do pastel brasileiro e bem maiores). E asseguro que caem muito bem com um Carmenere. Eu garanto!!!

i10Empanada chilena. E como dizem os alemães… “Es schmeckt sehr gut” (deliciosa!!)

Bom… por hoje é só!!

Hasta la vista!!!

E me despeço tomando uma taça de um Carmenere 2015 da Região do Maule, Vale Central do Chile.

Arrivederci!!! Ci Vediamo Presto!!!

“Amor y Vino en las copas antes que se marche el tempo” (Li-Tai Po)

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