Sons e Aromas (Jazz & Vinho)

“Com o passar dos vinhos, os anos ficam melhores”

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Confesso que mencionei na apresentação do meu blog há alguns meses atrás, que além do vinho tinha outra “paixão” que era o jazz e por isso tenho me dedicado nos últimos anos, em tempo parcial, ao estudo da música, em especial aos meus saxofones alto e tenor (muito embora ainda tenha muito que aprender como improvisar em jazz…). Esse post é uma rápida confirmação dessas minhas “paixões” pois sempre procurei, quando possível, juntar esses dois hobbies. Ou seja, juntar o útil ao agradável. Não desejo ser pretencioso pois esse tema é bem complexo. Considere esse artigo apenas …”um aperitivo”.

Uma forma que usava no passado de ficar mais perto dos dois era frequentar eventos e reuniões que aproximassem os temas e, para isso, especialmente na Europa, onde passei boa parte de minha vida, frequentava, quando possível, concertos e eventos específicos.

Porém devo confessar que há muito tempo não acompanho os chamados “festivais de jazz”.  Winton Marsallis, o grande trompetista, Diretor da Orquestra de Jazz do Lincoln Center de Nova York e o mais famoso jazzista do presente século, já em 1988 denunciava o uso equivocado e assumido, com fins comerciais, da palavra jazz nos festivais com esse nome, que de autentico jazz tinham muito pouco. Em recente entrevista de 2016, acrescentou que o verdadeiro jazz é determinado pela percentagem do que a secção rítmica toca. Muitos eventos de jazz são na realidade R&B (Rhythm and Blues), Soul Music, Rock, Funk, Reggae, música latina, e outros ritmos que não são jazz. Acrescentava Marsallis, lembrando uma turnê que havia feito à Europa há alguns anos: “De cada dez bandas nesses eventos, só duas tocavam realmente Jazz”. E isso está acontecendo em todo o mundo… Essa é a razão principal porque deixei de acompanhar festivais de jazz.

Jazz & Vinho

A arte do casamento da música com o vinho é praticada há séculos em todo o mundo. No caso do jazz e o vinho, apesar de ser algo mais recente e comercial, não deixa de ser uma tendência universal de muito bom gosto.

Essas duas artes formam um todo único e os exemplos são inúmeros e extrapolaria o objetivo desse curto post que é apenas chamar a atenção para aqueles que se interessem aprofundar no tema.

Voltando aos “festivais” de jazz, não desejaria deixar de reconhecer a importância de eventos como os de Montreal, no Canada, talvez o maior do planeta, o de Montreux na Suíça (que muitos hoje criticam por haver perdido as suas características iniciais), o Jazz & Heritage de Nova Orleans nos Estados Unidos, o de Newport nos Estados Unidos, ou da Úmbria na Itália no qual tenho uma experiencia pessoal; porém, talvez pela força da indústria vitivinícola, a palavra de ordem atualmente em todo o mundo, é “Wine Jazz Festival” (festival de vinho & jazz) como mostra abaixo o pôster do festival de Tiradentes de 2015 bem aqui na nossa Minas Gerais. Na realidade é uma palavra de ordem de bom gosto.

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Nesses eventos a ideia original era degustar um bom vinho e se deleitar com um bom jazz, seja ele clássico ou contemporâneo, “smooth” ou mesmo “lodge” (pessoalmente não sou muito do estilo free-jazz).

Lamentavelmente, a minha experiencia é de que na maioria desses eventos se toma um vinho de qualidade modesta a preços nada modestos, e se escuta pouco jazz de boa qualidade (quando se escuta!!). Claro que há exceções!!!

Uma dessas exceções é a celebração do Vinho-Jazz que organiza a vinícola Robert Mondavi no Vale Napa na Califórnia a cada verão.  Lembro-me de um verão espetacular há alguns anos, onde se apresentou o grande saxofonista tenor Stan Getz e sua banda. Aliás, a Califórnia é famosa por seus eventos de Vinho e Jazz como o seu Festival Anual de Vinho e Jazz, ou do Cabo de São Lucas na Baixa Califórnia ou de Oakland ao norte da Bahia de São Francisco, só para mencionar alguns.

Na realidade esse tipo de festival virou autentica febre nos Estados Unidos e eu poderia enumerar facilmente uns 50 festivais de vinho e Jazz na terra do Tio Sam. Porém, deixo para os amigos interessados, descobrir esses eventos e se possível, frequentar alguns. Vale a pena!!

Como as minhas experiencias mais recentes com o tema foram na Europa, em especial na Espanha e Itália, permitam-me contar-lhes algo: Em 2012, participei a convite de alguns amigos que tinha recentemente feito logo após minha chegada a Valladolid, da XI edição do Universijazz cujo post ilustro abaixo.

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A maioria desses amigos era de enófilos, e realmente grandes conhecedores dos caldos espanhóis. Alguns eram excelentes conhecedores e apreciadores de jazz e frequentavam um local de jazz que ficava, por acaso, a cerca de 100 metros do meu escritório na “Plaza de la Universidad”. O local era o Hermínios Jazz, um bar onde se podia escutar jazz, comer e beber algo. Era onde o grupo se encontrava.

Passei desde então a colocar em prática o vocabulário “gastronomia eno-jazzistica”.

O Hermínios Jazz é um local simples porém aconchegante; decorado com motivos jazzísticos. Fotografias de lendas do jazz nas paredes; trombones, guitarras, trompetes, saxofones, baixos, French Horn e outros instrumentos também pendurados nas paredes. Realmente algo para se ter saudades!! Ah!! O Universijazz?? Nada especial, porém nos divertimos!!

Esse grupo me ensinou que os eventos de jazz e vinho, mesmo os mais simples, podem ser uma boa razão para desfrutar a vida. Porém, é importante saber escolher, e ser bem assessorado por conhecedores (tanto no jazz como no vinho!!!).

Resumidamente, na Europa, os melhores eventos de Vinho & Jazz, no meu modo de ver os dois temas, são o de Bordeaux na França, o de Barcelona, e o de Úmbria na Itália. Ainda poderíamos acrescentar o de Vitória-Gasteiz nos Países Bascos, na Espanha. Claro que há outros que não foram mencionados, porém, dispondo de tempo limitado, eu selecionaria os três. O de Montreux, a meu ver, não é o mesmo dos anos dourados e não é especificamente um festival de vinho e Jazz.

Em Santiago do Chile participei de muitos eventos de Jazz, alguns “desejariam” ser de vinho e jazz, porém nada que se compare com os anteriormente mencionados.

Em Madrid no Teatro Gallileo ocorre também nos meses de julho o “Ingenia Jazz and Wine festival”; ano passado o grande tenorista espanhol, Pedro Iturralde, o maior de todos na Espanha, especialista em Flamengo-Jazz, já com 87 anos, foi homenageado e deu um autêntico show.

Em Barcelona, em um dos templos do vinho, o Bar Monvinic, é comum o casamento do vinho com jazz como parte do festival de Barcelona. Nesses eventos se fala de vinhos sem usar palavras, já que são temas recorrentes que se unem sempre que alguém quer criar um ambiente agradável. Inclusive aproveitam comercialmente para lançar novos vinhos.

No ano passado participou desse evento o Ravi Coltrane, filho do famoso John Coltrane, que improvisou sobre o sabor dos vinhos catalães, passeando através das mesas com seus saxofones tenor, soprano e sopranino e misturando excepcionalmente a enologia com a improvisação de seu jazz contemporâneo.

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Tal pai ..tal filho…Ravi Coltrane, grande como seu pai, John Coltrane

Outro evento europeu que me chama a atenção é organizado em Saint Emillion, França, bem pertinho da cidade de Bordeaux, onde o vinho e o jazz compartem uma inusitada amizade pois se tratam de prazeres complementares. São quatro dias de concertos e degustação dos vinhos e da gastronomia de St. Emillion em que são convidados grandes jazzistas. Ano passado o grande pianista jamaicano de jazz, Monty Alexander, mencionava com grande precisão que “o mundo do vinho e da música tem uma sensibilidade muito parecida e é uma questão de sentimentos e de compartir momentos e coisas”.

Por fim, para não deixar este post tão extenso, pois se poderia escrever um livro sobre o tema (há muito que falar sobre a Alemanha, Áustria, Inglaterra e Holanda), desejaria deixar uma confissão e testemunho pessoal, de que jazz, gastronomia e bons vinhos, conformam um trio que é anualmente aplaudido e reconhecido durante 10 dias por milhares de turistas, músicos, artistas e amantes do jazz, que no mês de julho, na cidade de Perugia, Itália. Suas ruas se inundam de enófilos e amigos do jazz, para participar, desde 1973, do Umbria Jazz Festival, um dos mais conhecidos e reconhecidos a nível mundial. A esse trio junta história, arte e cultura em uma região fascinante dessa bela Itália. Recomendo aos amantes da vida e do bom viver, que deem “um pulinho” nesse lado do mundo, e se possível nessa época: o seu bom gosto vai agradecer. Pura vida!!

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Pinot noir, amigo inseparável do meu saxo alto.

Depois de cada prática…nada como um pinot noir…

Até a próxima… Gracias y hasta la vista.

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