O Vinho do Porto: Lembranças Enológicas e Gastronômicas

 “El canto del vino es nuestro propio canto” (Violeta Parra)

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A belíssima e histórica cidade do Porto com o rio Douro que a separa de Vila Nova de Gaia

Confesso que só a meados dos anos 70 comecei a conhecer melhor o Vinho do Porto. Isso quando vivia em Freiburg, na Alemanha. Naquela época era a Alemanha Federal (o muro ainda estava de pé)

Andy Burnham, um amigo da Califórnia, cuja esposa Liz era inglesa, adorava tomar vinho do Porto; especialmente os Tawny.  Na verdade, Andy “aprendeu” a apreciar o Porto com a Liz, pois, como todos sabemos, os ingleses são tradicionais “devoradores” de vinhos fortificados, em especial o Porto (não esqueçamos os Jerez…). Com esses amigos, aprendi muito sobre vários aspectos desse vinho.

Andy sempre dizia: “Com vinhos, como na vida, temos que começar o aprendizado pela base”… comece pelo porto Ruby…pouco a pouco. Como curiosidade adjunto abaixo alguns rótulos de vinhos que fizeram “pouco a pouco” parte da minha iniciação nos anos 70 com os vinhos do Porto e que fazem parte de minha coleção de etiquetas dos vinhos que consumi nas últimas décadas. Eram Porto simples que formaram o meu Abecedário sobre esses vinhos. É como quando estamos aprendendo música e temos que comprar nosso primeiro instrumento; de pouco adianta comprar um instrumento professional muito caro se ainda não sabemos como tocar um simples. É importante ir pouco a pouco.

Preferi omitir algumas etiquetas de garrafas de Sandeman’s, Taylor’s, Osborne’s, Croft todos Tawny Reserve ou Vintage que degustei nos anos seguintes, pois esses foram consumidos em outro período de minha “vida enológica” quando já tinha ideia formada do que significava um Porto. Depois de muito “pouco a pouco”… E aí já não tem historicamente tanta graça!!! Pelo menos para mim!! Me refiro à “graça enológica”.

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Até meados dos anos 1970 o mercado de vinhos portugueses de qualidade era dominado por algumas poucas vinícolas, em especial o vinho do Porto de Vila Nova de Gaia. Era um verdadeiro monopólio de algumas companhias (a maioria inglesas) e os viticultores eram somente provedores de uvas ou de vinhos básicos, mas eram proibidos de comercializar e exportar. Esse quadro mudou nos anos 80 com a entrada de Portugal no Mercado Comum Europeu.

Porém essa história vem de longa data. Aproveitando o Tratado de Windsor de 1386 que foi reforçado em 1654 por outro Tratado Comercial, muitos comerciantes ingleses se estabeleceram em Portugal e os vinhos portugueses eram exportados para a Inglaterra, muitas vezes em troca de bacalhau. Inicialmente os vinhos exportados eram vinhos simples e leves, de Viana do Castelo, e eram conhecidos como “tinto de Portugal”; só em 1678 é que os vinhos começaram a ser exportados da cidade do Porto (não entrarei em detalhes do porque os negociantes mudaram para o Porto).

Antes os ingleses compravam vinhos da França e essa mudança para Portugal, com a aplicação do Tratado de Windsor, foi devido às constantes disputas e guerras entre a Inglaterra e a França. Ou seja, a Inglaterra buscou em Portugal o seu fornecedor de vinhos.

À partir de 1678 devido a longa viagem pelo mar e com receio que os vinhos se estragassem, os primeiros negociantes começaram a adicionar “Brandy” ao vinho para dar mais longevidade ao produto. Isso produziu um vinho mais doce e com maior teor alcoólico, bem ao gosto dos ingleses. “Estava descoberto o vinho do Porto”. Por séculos as companhias inglesas desenvolveram esse comércio e é por isso que hoje encontramos tantas etiquetas inglesas nesses vinhos como Taylor’s, Croft, Sandeman’s, Cockburn’s, Graham’s, Dow’s, Warre’s, Robertson’s, e tantos outros. Por ironia do destino, atualmente, o maior consumidor de vinho do Porto……..são os franceses.

 O que é o Vinho do Porto??

O vinho do Porto não deve o seu nome à região de origem mas à cidade do Porto onde é mesclado, engarrafado, envelhecido e distribuído para todo o mundo. Na realidade sua área de produção começa a muitos quilômetros Rio Douro acima até a fronteira com a Espanha, nas montanhosas províncias de Atrás-Os-Montes e Beira Alta ao longo do Rio Douro.

O Porto é um vinho “fortificado” com aguardente vínica antes de ter finalizado o seu processo de fermentação. A adição da aguardente interrompe a fermentação e deixa o vinho mais doce (açúcar residual) e com uma graduação alcoólica alta (20 graus GL). Para cada 4 partes do vinho é adicionada uma parte de aguardente vínica.

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Vinhedos do vinho do Porto. Áreas montanhosas e áridas entrecortadas pelo rio Douro
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Região de Trás-Os -Montes em Portugal sendo cortada pelo Rio Douro que vem da Espanha (Castilla e León). Área de cultivo das castas do vinho do Porto

O vinho do Porto é classificado nas seguintes categorias:

Ruby: É um Porto tinto jovem com três anos de envelhecimento em Pipas (barricas) de 630 litros. É um porto bom para iniciantes .

LBV (Late Bottled Vintage): É um Ruby milesimado com 4 a 6 anos em pipas.

Vintage: É um ruby “super”; milesimado de uma só colheita excepcional e continua com o envelhecimento uma vez engarrafado.

Tawny: Porto envelhecido em pipas de 630 litros durante 5 anos e que perdeu sua cor ruby e adquire uma cor caramelada.

Velhos Tawny. Vintage de 10, 20, 30 e 40 anos. Vinhos excepcionais.

Porto Branco: Elaborado com uva branca (seco ou doce) Várias uvas podem ser usadas. Ha um tipo muito doce conhecido como “Lagrima”.

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Existem vinhos “tipo Porto” que são produzidos na África do Sul, Austrália, e nos Estados Unidos (Califórnia) que, naturalmente, não podem competir com o original portugues. Em algumas oportunidades degustei alguns desses vinhos e creio que seria difícil compararlos aos lusitanos.

Castas do Vinho do Porto

Portugal é conhecido como o país que possui a maior variedade de uvas do mundo com cerca de 500 variedade diferentes das quais 250 são castas nativas; essa quantidade de diferentes castas já vem da idade média e tem várias razões que não irei discutir nesse post.

Existem 48 variedades (esse número pode ser um pouco maior) credenciadas para a produção do Porto Tinto ou Branco, porém a partir de 1974, sete variedades foram as recomendadas para a elaboração do porto tinto que são: Touriga nacional, Touriga francesa, Tinta Roriz (tempranillo) Tinta Cão, Tinta Barroca e duas menos usadas atualmente que são a Tinta Amarela e a Mourisco.  Para os brancos há outras 10 variedades (Viosinho, Rabigato,Malvasia Fina, Codega, Gouveio, Moscatel, Arinto, Fernão Pires, Folgasão e Donzelinho; a maioria castas brancas nativas).

As cepas para o vinho do porto devem ser cultivadas especialmente em solos de “Piçarra” (solos pobres de rochas decompostas com pouca matéria organica que promovem aromas minerais nos vinhos) que conferem uma dolcura especial às uvas.

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Tourigas Nacional (acima), francesa e uma casta branca

Visita à Sandeman’s

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Transporte do vinho da Sandeman’s da região de produção para o Porto pelo Douro com o símbolo do “Don” (Homem de Capa preta) na proa (fotografia promocional da Sandeman’s).

Em Vila Nova de Gaia há uma quantidade apreciável de casas produtoras de vinho do Porto a maioria oferecendo tours de degustação; cada visita toma de 2 a 3 horas e se for visitar as Quintas e os vinhedos fora da cidade, a visita pode tomar todo um dia. Como não tínhamos esse tempo disponível, decidimos selecionar uma vinícola representativa do negócio do vinho do Porto. A seleção recaiu sobre a Sandeman’s.

A Sandeman’s com sua inigualável figura do “Don” (o homem de capa preta) foi fundada em 1790 pelo escocês George Sandeman (algumas foram fundadas antes dessa data); desde então a companhia já declarou 50 Vintages o que a coloca como uma das raras a ter esse privilégio.

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Arquivos da Sandeman’s
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Para fazer uma visita completa a Sandeman’s, recomendamos visitar a Quinta do Seixo nas proximidades do rio Douro onde a Sogrape construiu uma moderna adega de produção.

Nossa visita ao interior da Sandeman’s foi acompanhada de uma degustação de um Porto Branco, outro Ruby e um Tawny Vintage que, como era de se esperar, foi o melhor e que mais nos chamou a atenção pela alta qualidade.

A seguir algumas fotos bem interessantes, incluindo de nossa visita:

 

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Pipas para envelhecimento do vinho do Porto (imagem promocional da Sandeman’s)
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Nossa guia explicando todo o processo da Sandeman’s
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Jane com a nossa guia preparando-se para o processo de degustação

Gastronomia

Muito se pode destacar sobre a rica gastronomia portuguesa. Para o meu gosto, os pratos com base no bacalhau são o que há de melhor. Veja alguns exemplos abaixo.

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Bacalhau à Portuguesa
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Bacalhau a Mestre Gomes
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Bacalhau ao vinho do Porto

Sinceramente, eu prefiro esses pratos de bacalhau com um tinto português. Para o aperitivo, eu aconselho um Porto branco.

 PORÉM para a sobremesa… eu vou de Porto Tawny… se possível… Vintage… e que sobremesa?? Vejam:

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São realmente excelentes… os queijos portugueses ou uma bela torta de arandanos (“blueberries” ou amoras)  acompanhada de um Porto Tinto.. são imperdíveis!!! Ah!! Um detalhe.. a taça… como o vinho do porto é forte não devemos toma-lo como o fazemos com os tintos menos alcoólicos. A taça… ”por supuesto” é menor. Sugiro uma taça adequada como a que vemos na próxima foto. Analisem o formato….centro da taça abaulado e parte superior mais estreita.  Qual a razão????

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Bom… aqui me despeço da bela cidade do Porto….até a próxima e obrigado por acompanharmos.

SAÚDE….!!!!!!!!!!

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“Cuando entra el vino…sale la verdad” (refrán castellano)

Nota: Devido a alguns problemas na qualidade de algumas fotografias que tirei de nossa visita à Sandeman’s, utilizei algumas fotos do site da Empresa pelas quais agradeço.

2 respostas para “O Vinho do Porto: Lembranças Enológicas e Gastronômicas”

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