Ribera del Duero: O Paraíso dos Tintos da Espanha

“Diga-me o que bebes e eu te direi quem es” (provérbio inglês)

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Mosaico espanhol de Bacchus (Sec. X)

As minhas primeiras degustações com os tintos espanhóis se realizaram durante a minha residência na Alemanha nos anos 70; (naquela época ainda se chamava República Federal da Alemanha). Veja abaixo a foto “quase” histórica. Os vinhos eram uma “assamblage” de Tempranillo com Garnacha, Mazuelo e Graciano (que ainda são utilizadas até hoje).

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Vinhos espanhóis de 1974 a 1976 das regiões de Rioja e Navarra consumidos em 1977 na Alemanha
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Coto de Imaz , Rioja, de 1973. Esse era bem melhor!!!

Os vinhos eram adquiridos na “Casa da Espanha”, um pequeno empório que tinha todos os produtos gastronômicos espanhóis e servia basicamente à colônia espanhola especialmente de imigrantes (“Gast Arbeiters”) e que ficava bem perto de nosso Instituto de Pós-Graduação na Universidade de Freiburg.

Esses vinhos não tinham quase nada que ver com os tintos atuais da Espanha; eram ásperos, muito vigorosos, muitas vezes pouco estruturados e  fortemente tânicos, de um vermelho rubi profundo, elaborados para o consumo corrente. Sempre os consumíamos em churrascos ou quando tínhamos carneiro ao forno (em alguma celebração). O primeiro copo sempre era o mais difícil… os outros “… iam por osmose”. Claro que esses vinhos a que me refiro não tinham nada que ver com os vinhos “Único” ou “Valbuena” da vinícola Vega Sicília que mesmo naqueles anos já eram excelentes, caros e exclusivos.

Nesses últimos 40 anos a indústria vitivinícola espanhola alcançou um enorme progresso, especialmente nos anos 90 e é hoje considerada uma das melhores do planeta. Os seus vinhos tintos (e também os brancos), especialmente os da Ribera del Duero  em Castilla y León, estão atualmente entre os mais elogiados e caros do mundo.

Durante  as minhas quase três décadas de trabalho com a FAO tive a sorte e privilégio de ter alguns colegas espanhóis que sempre procuravam me  informar o quanto a coisa havia melhorado no seu país e gentilmente  me presenteavam com alguma garrafa das melhores vinícolas, o que me deu grande prazer além de verificar o nível de desenvolvimento alcançado. A inversão em pesquisa e tecnologia, como dizem os Norte Americanos e Chineses, “Pays off”, ou seja, atrai excelentes retornos.

Aproveito o espaço para agradecer as gentilezas do Engenheiro “vallisoletano” Miguel Segur, pelas tantas garrafas de Protos Crianza e Gran Reserva e ao Engenheiro Jesus pelos Pago de Carraovejas de Autor, Crianza e Reserva. Eles me ajudaram a formar um melhor conceito da moderna vitivinicultura espanhola.

Também devo reconhecer ao amigo Pepe pelo Vega– Sicília Único   que me deixou sem palavras. Verdadeiramente Único!!!!

Também tive a honra de degustar em uma solenidade com autoridades provinciais de Valladolid um Pingus, hoje um dos vinhos mais raros e caros do mundo, segundo o próprio Robert Parker; esta foi uma ocasião rara para esse enófilo.

Estas quatro vinícolas de Ribeira del Duero fazem parte de um grupo selecionado das melhores e mais tradicionais dessa região. Claro que podemos enumerar a Pesquera del Duero, a Viña Pedrosa e outras. “Por supuesto” que Castilla y León conta com cerca de 270 vinícolas de tudo que é tamanho (e o número segue aumentando..!!) de boa qualidade( já era 22.000 hectares plantados em 2013) a maioria de emergentes porém eu não teria aqui espaço para enumerar e descrever  a todas.

O curioso é que somente no ano 1982 a Ribera del Duero foi reconhecida como uma Denominação de Origem pelo Conselho Regulador do Ministério de Agricultura.

O que é a Ribera del Duero

Para muitos a Ribera del Duero é a Bordeaux espanhola. Ela é cortada pelo rio Duero que nasce nas montanhas de Urbión na Província de Sória a 2160 metros sobre o nível do mar, e depois de passar a sul de Valladolid, percorre 874 km desembocando no Oceano Atlântico  no estuário da cidade do Porto em Portugal.

O Rio forma uma grande bacia hidrográfica com solos aluviais, calcários, pedregosos e argilas pobres em ferro, e matéria orgânica, condições excelentes para o cultivo da uva tempranillo. Os verões da região são quentes, secos e rigorosos com temperaturas que chegam aos 40 graus centigrados; os invernos são muito frios com temperaturas que podem chegar a menos 20 graus centigrados.

A Ribera del Duero, compreende  quatro Províncias: Burgos, Valladolid, Sória e Segóvia.

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Na verdade a história dos vinhedos na zona do Duero já tem mais de 20 séculos, época dos romanos que, posteriormente, passou pela dominação Visigoda, Muçulmana e pela Reconquista  a partir do século X, quando os vinhedos começaram a ser replantados com apoio dos Réis Católicos,  através de monastérios. A história é  atraente  e extensa mas não a aprofundarei neste post.

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Castelo de Pañafiel atual Museu do Vinho de Valladolid na Ribera del Duero

As Castas cultivadas na Região

A variedade histórica, principal e nativa da Comarca de Duero é a Tempranillo,  também conhecida como Tinta del País ou Tinta Fina.  As castas cabernet sauvignon, merlot e malbec são também cultivadas e estão autorizadas pelo Conselho Regulador, assim como a Garnacha, porém a tendência atual é trabalhar somente com a Tempranillo.

Com o problema da Filoxera entre os anos 1870/1885, que dizimou os vinhedos do país, os produtores da época começaram a utilizar enxertos   de Vitis rupestres, Vitis valpina e Vitis ripana, todas variedades americanas resistentes a filoxera, como “cavalo” e as vitis viníferas europeias como “cavaleiro”.

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Tempranillo em solos pedregosos, pobres em matéria orgânica e aluviais da Ribeira del Duero

Os vinhos da Região são distribuídos em cinco Denominações de Origem (DO) : Ribera del Duero, Toro, Rueda , Cigales e Bierzo.

Confesso que Vivi

Quando cheguei a Valladolid, em Junho de 2012, a colheita de uvas daquele ano na Ribera del Duera, tinha sido qualificada pelo Conselho Regulador como “muito boa” o que propiciaria a elaboração de bons vinhos com capacidade de envelhecimento (criança e reserva) que deveríamos estar degustando agora em 2017.  As colheitas de 2009 a 2011 foram classificadas como excelentes e teremos já em 2007/18 Gran Reservas.

Sempre aproveitávamos os fins de semana, a Jane e Eu, para viajar e conhecer novas cidades da Espanha e seus respectivos tesouros enológicos, ou seja, visitando restaurantes, enotecas, supermercados e quando possível, vinícolas. Valladolid já era um paraíso para um enófilo.

A seguir farei uma síntese de alguns desses vinhos e de visitas de campo à região.

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Primavera em Valladolid

Algumas Degustações

Não teria espaço aqui para descrever todas as degustações feitas entre 2012/13; darei apenas um resumo de duas vinícolas  as quais tive a oportunidade de visitar e provar em muitas oportunidades  os seus vinhos e que, a meu ver, são a média ponderada dos tintos de Ribera del Duero. Me refiro as vinícolas Protos e  Pago de Carraovejas. Em futuro próximo prepararei um post mais completo sobre outras vinícolas com especial  referência  àquelas emergentes.

Protos

Esta vinícola nasceu em 1927; a palavra protos significa “primeira” em grego. Originalmente as caves da vinícola eram localizadas na base da montanha onde está o castelo de Peñafiel onde atualmente se localiza o Museu do Vinho de Valladolid. Existem como 1000 metros de túneis na montanha que datam do século XI, época dos monges cistercienses, e que são usados pela Protos para envelhecer seus vinhos.

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Protos na base da montanha do Castelo de Peñafiel

O prédio atual da vinícola é uma maravilha da arquitetura moderna e foi desenhado pelo arquiteto inglês Richard Rogers, o mesmo que projetou o Centro Georges Pompidou de Paris e o Terminal 4 do aeroporto de Barajas em Madrid.

 

 

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Vinícola Protos e o castelo de Peñafiel ao fundo

Protos é um gigante e produz Mais de 5 milhões de garrafas, exportando a cerca de 90 países.

Sua casta exclusiva é a tempranillo e são vinhos que “casam” muito bem com os pratos da gastronomia  de Castilla  em especial o “Lechazo Asado” (cordeiro assado) ou o “Cochinillo” (leitão assado).

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Cordeiro  asado. Prato típico e muito apreciado de Castilla y León. Para acompanhar: um tinto de Ribera del Duero (no caso um Protos Crianza)

Os vinhos das duas vinícolas em questão são de cor vermelho rubi escuro, com aspectos violáceos, que se tornam vermelho-tijolo com o envelhecimento; seus aromas primários são intensos e típicos da tempranillo; seus gostos são harmônicos, aveludados com  intenso retro gosto.

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As terras aluviais da Ribera del Duero tendo ao fundo o Castelo de Peñafiel e no primeiro plano parrerais jovens de tempranillo
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Uma bela seleção dos vinhos tintos da Protos

Pago de Carraovejas

É uma vinícola jovem fundada em 1987 nas colinas de Carraovejas em Peñafiel, a mais ou menos 50 minutos de automóvel de Valladolid. O proprietário tem um conhecido restaurante no centro de Segovia e em 2017 abriu outro restaurante (Ambivirum) em sua vinícola.

É o vinho espanhol mais valorizado  não só pela qualidade como pela relação custo/benefício e seus vinhos são exportados para mais de 40 países embora não seja tão grande produzindo menos de 400 mil garrafas por ano.

As safras de  Crianza 2001, 2004, 2008,2009 e 2010  receberam vários galardões.

São vinhos de corte já que 85% é de uva tempranillo e 15% de cabernet sauvignon. De uma forma geral, são vinhos de cor cereja escura, com aroma complexo a frutas vermelhas, chocolate ou café, com notas bem finas a madeira. É envelhecido em barricas de carvalho francês e americanas ao menos por 18 meses e são bem aveludados.

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Modernas instalações da Pago de Carraovejas
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Vendimia na Pago de Carraovejas
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“Crianza” dos vinhos na Pago de Carraovejas.  Mais de 3000 barricas de carvalho francês e americano com uma rotação a cada três anos.
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Degustação com um Pago de Carraovejas de Autor

Dicas Gastronomicas

Castilla y León tem tradições gastronômicas seculares que devem ser exploradas e acompanhadas de um bom tinto. Abaixo recomendo algumas que são mais populares (mas  nem por isso as mais baratas) e que valem a pena serem provadas.

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Perna de carneiro com Romeiro e alho

 

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Outra receita: Cordeiro asado. Prato típico de Castilla y León e  muito apreciado
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Leitão asado. Prato da gastronomia de Castilla y León

Hasta Pronto!!! Y Gracias!!!

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