Milão … e os vinhos da Lombardia

Taça de Cristal de Murano do ano 1692 (museu do vidro de Murano)
Este post foi o resultado de recente viagem que fizemos Jane e eu ao Norte da Itália, nosso velho conhecido desde que vivíamos na Alemanha e Roma, e não teve o objetivo de descrever a riqueza enológica da Lombardia ou das vizinhas regiões (Piemonte e Veneto). Porém, como já estávamos na cidade, por que não dar “algumas dicas” aos amigos considerando que, em um contexto global (salvo em alguns casos), os vinhos dessa região (me refiro a Lombardia) não são tão conhecidos em nossos países e, em muitos casos, pelos mesmos italianos. Para mim isso ficou confirmado o durante visitas a restaurantes e supermercados quando eu sempre fazia a mesma pergunta aos italianos: “Que vinho da Lombardia o(a) senhor(a) me recomenda??” A resposta, salvo para os vinhos espumantes, era sempre pouco esclarecedora (a maioria preferia os vinhos tintos do Piemonte ou do Veneto).

Mesmo parcialmente, e de forma informal, creio que consegui captar muitos sinais interessantes que, naturalmente, não são de um enólogo professional e os quais divido com os amigos.

A Lombardia é quantitativamente a sexta região produtora de vinhos da Itália, especialmente os brancos (incluindo os espumantes) e tintos “de campo” os chamados “vinhos da casa”.

Todos esses vinhos são elaborados em cinco distritos vinícolas:

  • Valtellina, ao norte de Milão, já no Pré-Alpes
  • Nas Colinas Bergamascas
  • Na parte ocidental do Lago de Garda (Besciano)
  • Na Baixa Planície Padana a sudeste de Milão
  • “Oltrepó Pavese” ao sul de Milão

As uvas cultivadas são basicamente a barbera e a bonarda (30%), a nebbiolo (10%), pinot noir (3%) a uva autóctona Gropello (5%) e casta branca Malvasia; o restante é de castas nativas importantes porém menos conhecidas como a marani e salaminho que são responsáveis pelo Lambrusco, a marzemini, a guyot, cortese e sylvoz. Castas que mesmo na Itália não são tão conhecidas do consumidor médio. Essa descrição das castas renova a observação da regionalização na produção de vinhos na Itália e a tendência de cada região na grande produção de vinhos do “dia-a-dia” ou como dizem os italianos, “vinhos da tutto pasto” também conhecidos como “vini della casa“. Para os anglofanos são os “cask wines” que custam 5 Euros ou menos meio litro nas trattorias. No caso da Lombardia, segundo me explicava um conhecedor local, a maior parte é consumida na própria Lombardia.

“Vinhos da casa” (consumo corrente) da Lombardia na Eataly da Piazza XXIV di Aprile.

Adicionalmente, esse consumo local é acelerado por um hábito que possuem os milaneses (seguido de perto pelos turistas) e que se chama “aperitivo” que é aproximadamente o que os anglo-saxões fazem com suas “happy hour” ou os espanhóis com as “tapas“. Ou seja, sempre a partir das 17/18 horas até as 22 horas os bares e enotecas abrem suas portas para os aperitivos; a sistemática é sempre a mesma, pois vamos a um bar ou enoteca, selecionamos uma bebida (normalmente um vinho, prosecco) e a mesa de “cocktails“, que muitas incluem as pastas, é livre. Na realidade o hábito se transforma praticamente em um jantar. Em Milão a região dos Navigli possui milhares de bares e enotecas onde se pode deliciar um bom “aperitivo”.

O detalhe, porém, para todo aquele que deseja um vinho ou prosecco em especial, ou que já seja um enófilo com “hábitos definidos” é que os bares normalmente oferecem em suas listas de vinhos ou espumantes produtos “mais modestos” (não estou dizendo que sejam ruins), e nem sempre a solicitação pode estar disponível ou, se estiver, pode custar bem mais.

Conhecedor da alta qualidade dos espumantes da região, tomamos um verdadeiro representante do Distrito Vinícola de Franciacorta (pinot noir e chardonnay) – DOCG (foto abaixo). Um Berlucchi, cuvée imperial. Realmente excepcional e do que há de melhor com um aroma delicado, seco, frutuoso, fresco e harmônico, elaborado pelo método Charmat. Pouco caro, porém recomendo (foto abaixo).

Com relação aos brancos, incluindo os espumantes, o tema está claro; porém, quando nos referimos aos tintos, foi curioso notar que nos locais e restaurantes que frequentamos (e mesmo em supermercados) encontramos poucos vinhos lombardos (salvo os “da casa”).

Berlucchi especial. Recomendo!!!

No restaurante Friends no setor da “Stazione Centrale” foi possível acompanhar nossa lasanha al ragú com um Bonarda do Distrito Oltrepó Pavese (região ao sul de Milão). Era um vinho fresco de tonalidade vermelho claro, com um aroma pouco definido para um Bonarda (foto abaixo).

O Bonarda (foto abaixo), era um pouco “frizantado” parecendo um lambrusco (que não é santo de minha devoção!!), seco, porém um vinho “para tutto pasto” bem pouco superior aos que se vendem como vinhos da casa. Nada especial.

Em uma visita que fizemos a filial da Eataly do centro de Milão tivemos a oportunidade de acompanhar uma lasanha de cogumelos (com entrada de bruscheta) com um desses vinhos da casa. Para o preço nada tenho a reclamar porém a qualidade ficava aquém do desejado. Nada especial. Porém melhor que refrigerante!!

 

Vinho da casa com bruschetta como entrada 

Esses tintos da casa são servidos em restaurantes bem frescos o até frios e são basicamente elaborados com a uva autóctona “gropello” que só deveria ser utilizada como uva para cortes (confere mais corpo). Tem gente que gosta!!!!

Comentando com o pessoal do hotel Best Western onde nos hospedamos, eles recomendaram uma visita ao Eataly central da Piazza XXIV di Aprile, acerca da Porta Garibaldi (linha verde do metro com parada na estação FS Garibaldi) e para ali nos dirigimos para jantar e conhecer seus vinhos. O Eataly é uma mistura de restaurantes, empório, enoteca e mercado. São quatro andares de pura badalação e gigantismo espalhado (o serviço poderia ser melhorado!!).

 

Jane em frente ao Eataly da Praça 24 de Abril ao lado da Porta Garibaldi (final do Corso Como). Jane nesses últimos 40 anos tem sido minha fiel parceira nas provas de vinho.
  
Conhecendo a adega da Eataly
Visitamos a enoteca (foto acima) e, mesmo aí, pude verificar que a presença de tintos lombardos era praticamente nula (salvo os “vini della casa” que mostrei na fotografia acima). Igualmente nos menus dos restaurantes não encontrei nada dos tintos lombardos. Apreciador que sou do Nebbiolo (base para o Barolo e Gatinnara do Piemonte), conhecida na Lombardia como “chiavennasca”, por recomendação de um conhecedor local, ordenei um vinho tinto do distrito vinícola de La Valtellina, região montanhosa do Vale do Rio Adda, à direita do Lago de Como, bem perto da Suíça. Para variar não encontrei. Fica para próxima.

Na ocasião esqueci o desejo pelos tintos lombardos e tomamos um Nebbiolo D’Alba do Piemonte (ver foto) da conhecida vinícola Fontanafreddo, acompanhando um delicioso “pollo ai funghi del bosco” (frango com cogumelos silvestres). Um vinho seco, fresco de 2014, porém com o aroma “mascarado” pela madeira o que para mim é mais um defeito que qualidade.

Nebbiolo D’Alba da Vinícola Fontanafredo

“Para não dizer que não falei de flores”, decidi visitar uma conhecida enoteca que tem várias filiais na Itália, a “Signorvino -100% Vini Italiani” na Via Dante,13, no centro de Milão, a uns 400 metros do Duomo, e aí encontrei prateleiras de vinhos da maioria das regiões produtoras italianas tanto brancos como tintos. A oferta dos vinhos lombardos, especialmente os tintos, como era de esperar, era pouca quando comparada a regiões como o Piemonte ou a Toscana… porém… encontrei. O problema desses vinhos era o preço; caríssimos!!! Muitos mais caros que os Brunello di Montalcino ou o Barolo, só para exemplificar. Nesse caso era fácil selecionar o que comprar… fui de Brunello.

Convencido das poucas facilidades de selecionar os tintos lombardos, decidi seguir minha experiência e evidencias locais e dediquei o resto de meu tempo aos vinhos do Piemonte. Provei vários!!! Barbera e Dolcetto d’Alba e também um excelente Barolo da vinícola Pio Cesare (casta Nebbiolo) de 2011- ver foto. Todos bem superiores aos anteriormente degustados.

Confesso que a passagem desses vinhos por madeira (barricas de carvalho), pelo menos dois dos três, mascarou e muito o buquê natural (nesse caso já podemos falar de buquê ao invés de aroma) da nebbiolo; é o velho hábito de muitos enólogos de pensar que quando o ano não é bom e o vinho não é perfeito, a madeira o tornará excelente ou “esconderá'” os seus defeitos. Puro engano!! No final o enófilo sente mais madeira que vinho (me refiro as características naturais das castas) e os taninos seguem desbalanceados.

Faço uma exceção a minha observação ao Barolo da Pio Cesare. Se tratou de um barolo “jovem” que teria o potencial de envelhecer. Bom corpo, taninos suaves, frutado, paladar a frutas vermelhas como morango, cereja e cassis. Retro gosto do alcaçuz (liquirizia). Somente foram produzidas 80.000 garrafas desse barolo considerado “básico”. O vinho foi envelhecido por três anos em barricas de carvalho francês. Recomendo o vinho.

Para concluir na Lombardia, recomendo fazer “como fazem os Romanos” … vá de Espumante!!

Obrigado por acompanhar e até a próxima.

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