Eu e a “Rainha”: a Pinot Noir

Nos dois últimos posts falei sobre os vinhos brancos e os tintos. Hoje vou abordar uma uva cujas características físicas e bioquímicas se situam no limite do tinto com o branco. Uma uva nobre, fina, sensível e que não se mistura com outras uvas tintas (uma exceção é com uma branca, a Chardonnay, para elaborar Champanhes). É uma uva com taninos delicados e que, em geral, produz vinhos avermelhados claros; quase rosados na cor, aromáticos, muito sedosos, e isso se deve às baixas concentrações de pigmentos em sua pele (as antocianinas). Muitos a consideram como a “Rainha das Uvas Tintas” e outros qualificam seus vinhos como “o Vinho dos Réis”.

Em colheitas e anos especiais tem o poder de envelhecer por décadas embora a maioria deva ser consumida mais fresca pois assim expressará melhor seu aroma a groselhas, ameixas, mirtilos e espécias. Poucos vinhos tintos podem expressar tão bem as qualidades e defeitos de um “”terroir””.

Devo acrescentar que a sua elaboração é difícil quando comparada aos outros vinhos, pois necessita de um “terroir” muito específico com climas secos e frios, de preferência dias mais quentes e noites mais frias; a produtividade é mais baixa que os outros e são uvas que “agradecem” quando os solos são calcários, com pouca argila e fases arenosa; e se possível com muitos seixos a cobrir o solo que irão transmitir para as uvas durante a noite o calor acumulado durante o dia. Também apreciam solos inclinados, o que facilita a drenagem, pois são cepas susceptíveis a doenças causadas pela umidade como a Botrytis cinerea e outros. Essas são as condições que encontramos em grande parte da Borgonha, em especial na Côte D’Or (Côte de Beaune e Côte de Nuits). Ver abaixo a região de Côte de Beaune.

Aqui se encontra o melhor Pinot noir do mundo. Se trata do Romanée-Conti( que é elaborado mais ao norte na Côte de Nuits)

A fase de elaboração desses vinhos normalmente exige enólogos com bastante experiência. Eu mesmo já provei e testei vários pinot noir em alguns países (peço desculpas por não mencionar os países, mas todos estavam no Novo Mundo), que foram literalmente “assassinados” pelo uso indevido ou excessivo de madeira e que mais pareciam péssimos merlot ou cabernet sauvignon, ou outra coisa…menos pinot noir. Um desperdício!!! Madeira com pinot noir somente em vinhos de colheitas de anos excepcionais que serão mantidos em guarda por algum tempo. E sob critérios muito rígidos e exclusivos para que se possa chamá-los de Reserva ou Reserva Especial.

Por todos esses detalhes é que os bons vinhos da pinot noir são normalmente mais caros que outros e mais difíceis de serem encontrados no comércio local.

Eu diria que esses vinhos não só exigem produtores experientes que conheçam os segredos de como elaborar um bom pinot noir, como também “consumidores experientes” que conheçam as características do vinho para poder melhor disfrutar de sua nobreza. Segundo um famoso enólogo francês, o pinot noir não é vinho para bebedores desinformados.

Bom deixemos os aspectos teóricos que os amigos encontrarão em um bom livro, pois eu gostaria de lhes contar algumas histórias de como vivi e vivo a Pinot noir.

A casta Pinot noir já existe desde o século 13 na Alemanha e foi introduzida por monjes cistercienses ao longo do Rio Reno no mesmo período em que foram introduzidas na Borgonha.

Atualmente, na Alemanha, a região de Baden e também do Ahr, cerca de Koblenz, tanto no Norte quanto no Sul, na região do Mosel, produzem esses vinhos com excepcional qualidade.

Baden é a terceira maior região vinícola da Alemanha (ver a seguir o mapa de Baden situando Freiburg).

A minha primeira experiência com o Pinot noir em Baden foi em 1976 e, realmente, foi uma experiência muito positiva, pois eu não esperava por vinhos tintos tão bons na Alemanha. O vinho foi o Freiburger Schlössberg (Castelo da montanha de Freiburg) de 1973. Abaixo mostro o rotulo desse vinho.

Um dos problemas para quem não está acostumado com os vinhos alemães é entender as etiquetas; e isso é importante. Olhem outra vez para a etiqueta que lhes explicarei. Acima e no meio está a denominação de origem, BADEN. No centro o terroir onde foi cultivado a uva: FREIBURGER SCHLÖSSBERG, ou seja, em Freiburg em Schlössberg. E bem abaixo está a uva, Spätburgunder Rotwein (pinot noir). Posteriormente, em letras maiúsculas está a classificação da qualidade do vinho (Qualitäswein, ou seja, vinho de qualidade). Depois o AP (Amtliche Prüfungsnummer), que é o número que recebeu no controle de qualidade da agência responsável. Em seguida se observa a expressão: Aus eigenem Lesegut, que significa que as uvas foram colhidas do próprio produtor (produção própria) e finalmente, bem abaixo, o nome do produtor responsável, neste caso uma instituição religiosa que está ligado ao governo da cidade de Freiburg.

Recentemente, em 2016, foi nossa última viagem a Freiburg e voltamos a tomar esse mesmo vinho. Está cada vez melhor. Tradição e qualidade serão sempre tradição e qualidade na Alemanha.

Também em outubro de 2016 visitei o Napa Valley, na Califórnia, com meu filho Alexandre que vive em Denver, para fazer uma degustação de Pinot noirna Robert Mondavi. Testamos seis vinhos e para mim o melhor foi o da região de Carneros. Nada excepcional, porém, muito bom. O interessante é que visitei uma enoteca no centro da pequena cidade de Napa e testei um pinot noir do Oregon, de 2013, mais especificamente do Vale de Willamette. O vinho era o Evening Land Eola-Amity Hills Seven Springs da parcela La Source. Uma maravilha e nada que ver com o Pinot noir que tinha provado na tarde do mesmo dia. Um vinho sedoso e bem macio com taninos bem equilibrados com um leve toque metálico como os da Borgonha. Para minha surpresa, na viagem de retorno tomei conhecimento lendo o “Wine Spectator”” que a revista deu 98 pontos a esse vinho no ano de 2015 (maior pontuação recebida por um vinho do Oregon) e que entre os 100 melhores vinhos do mundo classificados pela revista, esse vinho foi o terceiro melhor, superando Brunellos de Moltalcino, Barolo, Amarone de Valpolicella, Chiantis, vinícolas de Ribeira del Douro e outras. Toda uma façanha. Para mim especialmente foi bem impressionante, pois em 1984 visitei o vale do Willamette na parte central do Oregon (ali está situada a maior floresta nacional do Serviço Florestal dos Estados Unidos a “Willamette National Forest”) e tive a oportunidade histórica de ver que os primeiros clones de Pinot noir da Borgonha que estavam sendo plantados. O proprietário que visitamos dizia que seriam os melhores Pinot noir dos Estados Unidos, pois os clones eram diferentes e superiores aos da Califórnia e o terroir era melhor para o Pinot noir. Ele tinha razão!!! São os Pinot do Novo Mundo mostrando o bom trabalho de mais de 30 anos.

Degustando o Pinot noir de Carneros na Robert Mondavi no Napa Valley (2016) 

Falando em Novo Mundo, isso me lembra minha experiência no Chile. Quando lá cheguei, em 1997, observei que pouco se falava em Pinot noir e muito pouco se via nas prateleiras dos mercados e das poucas lojas especializadas. Havia alguns vinhos que eram cabernet sauvignon com corte de Pinot noir. Na realidade até hoje existem as tais “misturas”. Porém o enólogo e homem de negócio Pablo Morandé, lá pela metade dos anos 90 “descobriu” o Vale de Casablanca e seu potencial para o Pinot noir e investiu forte no Vale. Para os que não conhecem Casablanca fica entre Santiago e Viña del Mar. Como resultado, os primeiros Pinot noir da “Viña Morandé” começaram a produzir vinhos de qualidade. Seguindo essa vinícola outras começaram a chegar em Casablanca (Viña Veramonte, Mar, Concha y Toro e outras), hoje, temos uma grande produção de pinot noir de boa qualidade. Claro que os melhores são bem mais caros, porém, qualidade custa!!!

Na Vinícola Morandé em 2007 com um exemplar de 40 anos de um possível Pinot noir.
Outros vales foram “descobertos” mais recentemente, como o Vale de Leyda, próximo à cidade de Santo Antônio, a poucos quilômetros do Oceano Pacífico, onde são elaborados excelentes vinhos dessa casta.

O Vale mais recente para a produção de Pinot noir é o de Limari, há pouco mais de 400 quilômetros ao Norte de Santiago pela Autopista Pan-americana. Está situado bem na Porta do Deserto de Atacama. Eu provei um pinot noirdessa região em janeiro de 2017, porém não emitirei no momento considerações, pois desejo esta semana voltar a degustar outra garrafa para ter melhores condições de dizer algo mais concreto. Voltarei a falar sobre o tema.

Desejaria fechar este post enfatizando a importância da pesquisa em enologia. Já mencionei o caso do Oregon, porém outro me chamou a atenção, o da Nova Zelândia.

Visitei a Nova Zelândia em 1981 para visitar a Fletcher Company, uma grande empresa florestal daquele pais. Depois das visitas oficiais fui visitar uma vinícola, Cooks em Kauwhata. Impressionou-me que tudo que produziam era comparado a algo já grande na Europa. Assim diziam que este vinho é de uma mistura de uvas como em Mosel na Alemanha; ou que era produzido com as mesmas uvas do Alto Reno de Alemanha, ou como o Cooks Alicante, que fazia menção aos vinhos espanhóis de Alicante etc. No caso do Pinot noir sempre as etiquetas faziam menção a Borgonha e nada diziam do terroirlocal. Perguntado o porquê dessas comparações eles me informaram que era para melhor informar o público nacional acerca da qualidade dos vinhos da França, Espanha e Alemanha e que eles estavam investindo forte em pesquisa e comunicação para no futuro elaborar vinhos tão bons ou melhores do que aqueles que eles procuravam chamar a atenção nas etiquetas dos anos 80. Hoje a Nova Zelândia elabora um dos melhores Pinot noir do mundo e garanto aos amigos que as etiquetas são bem diferentes.

Finalizo informando sobre dois vinhos que estarei provando e recomendando aos amigos em breve, presente de minha esposa Jane S. Carneiro; um pinot noir da Borgonha e outro chileno do Vale de  Limarí. Informarei posteriormente sobre minha degustação.

Até Breve

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