Branco ou Tinto? (Parte 2)

Sei que dediquei mais tempo ao vinho branco na primeira parte. Agora vamos pensar um pouco mais no tinto.
Eu tinha em Roma,um colega de Portugal , que costumava dizer: “vinho só há um…o tinto e mais nenhum“. Anedotas a parte, tenho que reconhecer que o tinto sempre foi o preferido na maior parte dos países em que vivi ou visitei.
Creio que a maior parte da produção média mundial pende para o lado do cabernet sauvignon, do merlot, e outros. Na realidade, estas cepas produzem  vinhos de diferentes qualidades. Não é a mesma coisa falar de um cabernet sauvignon da França ou do Chile, ou da Califórnia. Claro que são desenvolvidos em diferentes terroir (clima, solo, topografia, horas de sol por ano, etc.) diferentes clones, diferentes enólogos.
Vou confessar que para mim o melhor cabernet sauvignon é o chileno. O vale central chileno (e outros vales) é imbatível na produção de excelentes cabernet sauvignon. A produção é tanta que eles não sabem o que fazer… E isso tem uma possível razão, pois é o único país que planta  a casta  diretamente no solo. Os outros países plantam por enxertia, ou seja, o cavalo é uma cepa Vitis labrusca ou vitis americana que são imunes à Filoxera e outras enfermidades e o cavaleiro é o cabernet sauvignon. O Chile é um pais livre de filoxera. Talvez o único país no mundo. Vejam só que ironia, os franceses e padres jesuítas espanhóis trouxeram para Chile da França lá pelos anos de 1850 todas essas cepas francesas e lá pelos 1870 todas as vinícolas europeias foram dizimadas pela filoxera… e depois tiveram que vir a Chile buscar mudas de suas cepas originais.
Hoje as cabernet sauvignoneuropeias são de diferentes clones. Tenho alguns amigos enólogos italianos que afirmam que o plantio por enxertia pode alterar a qualidade original da uva. Outros, como um colega argentino, não está de acordo com essa afirmação.Toda essa curiosidade me levou há poucos anos atrás, creio que em 2013, a visitar Bordeaux para conhecer de perto a qualidade de seu cabernet sauvignon e de outras castas como o merlot.
Visitamos a região de Haut Medoc, Médoc, St. Emilion (maior produtora de merlot) e dois “Chateaux” em Entre-Deux-Mers que é uma sub-região localizada entre os rios Dordorgne e Garonne que se juntam depois de Bordeaux e formam o gigante Gironde; nessa região os brancos são mais conhecidos que os tintos; finalmente conhecemos Pomerol. Na realidade os vinhos tintos de Bordeaux são o resultado de uma excelente “assamblage“( combinação) entre o Cabernet sauvignon, o merlot e algo como 5% de cabernet franc; excelentes e aveludados caldos, com toques característicos de metais e taninos bem macios. Cada produtor tem o seu segredo. 

Château Courtade- Dubuc, em Camblanes, Bordeaux, 2013
Parrerais de merlot em Entre-Deux-Mers

         

Na realidade, no passado essa era uma região produtora unicamente de vinhos brancos. E nada excepcionais!!!

O vinho estrela dessa pequena região vem do Château Pétrus (que é uma pequena propriedade que produz pouco mais de 5 mil caixas de vinho por ano). O vinho aqui elaborado está entre os melhores e mais caros do mundo. O grande detalhe é o solo calcário que está sob toda a propriedade e outras propriedades desse terroir com argilas ricas em ferro. O metro quadrado desse terroir vale uma verdadeira fortuna!! Pessoalmente não sou o maior apreciador da merlot (lembram-se do filme “Entre umas e outras” (Sideways) em que o merlot foi sacrificado até a morte em detrimento do Pinot Noir?) Porém esse de Pomerol é de tirar o chapéu. Em termos de paisagem o Pomerol não é grande coisa (tudo bem plano) e só foi a partir dos anos 60 que esses vinhos (me refiro ao Pétrus) começaram a ser conhecidos como o mundo os conhece hoje graças a estratégias bem elaboradas e executadas de comercialização.

Eu tive a honra de tomar um Pétrus…ironicamente…na Espanha, convidado que fui de um casal de amigos franceses. Realmente, “vale o que pesa”.

A França tem muitas outras importantes zonas de produção de vinhos de alto nível sendo a Borgonha a minha preferida pois ali teve origem e desenvolvida por monjes cistercienses no século 13, a minha uva preferida, a Pinot Noir, porém eu farei um post específico para a Pinot Noir e voltarei a falar de todas as zonas produtoras do mundo.

O interessante é que quando estamos na Borgonha e seguimos para o sul seguindo o Rio Saône e partindo de Dijon pela A6, passamos pela cidade de Beaune, Chalon-Sur-Saône, Mâcon e vamos até Lion, nos damos conta de quanto a França contribuiu para a riqueza enológica mundial já que por ali tiveram origens cepas como a Pinot Noir, Gamay, Grenache, Shiraz, Cinsault, Pinot Gris e outras que originaram os famosos, Beaujolais, Côtes de Rhone, Chablis, Mâconnais, Pouilly, Côte de Beaune, Côte de Nuits e tantos outros.E não gostaria de esquecer de mencionar um outro grande vinho mais ao sul da região, especificamente em Avignon, que é o Châteauneuf du Pape. O único na França oficialmente liberado para utilizar até 13 diferentes castas em sua elaboração. Vamos falar desse detalhe em outra oportunidade.

Todas essas cepas foram originadas desse país. O cabernet sauvignon do Chile ou Califórnia, o Carmenere do Chile (na realidade teve origem no Sudoeste da França entre Bordeaux e Toulouse), o Tannat do Uruguai, igualmente. O malbec que encontrou um excelente terroir na região de Mendoza, Argentina, é originário também do Sudoeste da França. O chardonnay, o sauvignon blanc, o Chenin blanc, Ugni blanc sem esquecer o pinot noir. “Vive la France”.

Para finalizar essa segunda parte do meu post, falarei algo da Espanha. Como mencionei em minha apresentação eu tive a “sorte” de residir por um ano em Valladolid, capital da Província de Castilla y León que fica a pouco mais de 200 quilômetros ao nordeste de Madrid (42 minutos de trem!). Justo alguns quilômetros do centro da cidade começa a Ribera del Douro que é a região vinícola mais forte da Espanha seguida somente da Rioja Alta (ao redor da cidade de Haro) que é praticamente um seguimento da Ribera del Douro. O Rio Douro nasce nessa região e segue para Portugal desembocando na cidade do Porto.

Os melhores e mais caros vinhos tintos da Espanha estão aqui. A uva predominante é a Tempranillo muito embora a cabernet sauvignon, merlot, garnacha tinta e mesmo a malbec já estejam autorizadas na região. Lembro-me dos anos 80 quando os vinhos espanhóis não eram nada do que são hoje. Eram vinhos baratos, fortíssimos, muito usados para fazer “sangria”. Hoje são vinhos de alta qualidade e internacionalmente bem competitivos.Os estudantes de Freiburg quando tinham que celebrar algo corriam para comprar vinho na “Das Haus aus Spanien” (a casa da Espanha), um empório que vendia vinhos espanhóis em garrafão de  5 litros bem baratos… e a festa estava garantita… pelo menos a bebedeira.

As grandes etiquetas espanholas nascem nessa Denominação de Origem (Ribera del Duero) como a “Vega Sicília”, Protos, Pingus, Pago de Caraovejas, Pesqueira, e outros que não mencionarei aqui, porém, voltarei a discutir posteriormente em outro Post mais específico para os vinhos espanhóis já que a Espanha merece um Post especial tamanho a sua grandeza enológica.

Recomendo aos amigos interessados em conhecer melhor a beleza enológica espanhola que consultem o livro “Atlas Ilustrado de los Vinos de España” da Susaeta Ediciones: http://www.susaeta.com.

Até a próxima!

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