Branco ou Tinto? (Parte 1)

Não importa quão raro, antigo ou excelente seja, só um vinho é realmente excelente … aquele que tu bebes calmamente com o teu mais velho e silencioso amigo.

Robert Mondavi,Napa Valley,California
Robert Mondavi, Napa Valley, Califórnia

BRANCO OU TINTO?

Essa é uma pergunta que eu tenho escutado continuamente nos últimos anos, porém a resposta depende de uma série de considerações. Uns preferem o branco no verão e os tintos no inverno ou em momentos com temperaturas mais frias. Outros preferem fazer o “abbinamento” como dizem os italianos (casamento da comida com a bebida) acompanhando o branco com queijos mais suaves, carnes brancas e pratos menos condimentados e os tintos com carnes vermelhas, queijos e pratos mais fortes e condimentados. E por aí vai… a verdade é que um fator muito importante e menos discutido é o tipo da uva (cepa) e o seu “terroir” de origem.

Eu pessoalmente sou apreciador de uma bela taça de sauvignon blanc a temperatura de uns 13 graus no verão. E que esse vinho seja da Nova Zelândia ou do Chile, pois esses são bem frescos e frutuosos.Não quero com isso descartar que um fino Chardonnay de Chablis também não seria uma ótima opção!! No caso do sauvignon blanc, diria até que se for do Chile recomendo os do Vale de Casablanca ou de Leyda, pois são os melhores terroir para a sauvignon blanc. Está na moda a uva Voignier. Também os californianos não são mal ou mesmo os de Bordeaux (mais caros e não tão frutuosos)… o importante é que sejam de uma colheita recente; digamos, de no máximo dois anos. E nada de madeira…senão estraga o brilhante sauvignon blanc…e o verão!!!

Também, na minha passagem pela Espanha, especificamente em Valladolid, aprendi a apreciar um excelente branco de Rueda (uma região próxima a Valladolid) que é elaborado com a uva verdejo. Uma maravilha para o verão bem fresco e bem barato. Dizem alguns que a uva verdejo é prima da uva Alvarinho( talvéz também a Arinto ou Loureiro) que é uma das uvas principais  dos vinhos verdes brancos portugueses…( que na verdade não tem nada de verdes….são vinhos jovens) esses também são deliciosos para uma tarde de verão(Bons tempos aqueles em terras Lusitanas!!!).

Porém a verdade, meus amigos, é que a minha verdadeira admiração pelos brancos nasceu nos anos 70 quando fui viver e estudar em Freiburg no Sudoeste da Alemanha; região de Baden e capital da famosa floresta negra, Freiburg tem a grande vantagem de estar a somente 15 quilômetros da fronteira com a Alsácia francesa que é um paraíso francês para os brancos. O Rio Reno separa nesse ponto os dois países. Cidades como Colmar, Besançon, Riquewihr e mesmo Estrasburgo são alguns dos melhores exemplos de elaboração a nível mundial de brancos (vide mapa abaixo).

 

Mas Freiburg é, por si só, uma estrela de quinta grandeza na produção de brancos. Acontece que essa região situada sobre a planície do Alto Reno, é uma das mais ensolaradas da Alemanha e no seu entorno se situa a região de “Kaiserstuhl” (cadeira do Imperador) que é uma área onde existiu um vulcão e os solos sao excelentes. Pois bem, as uvas que crescem nessa região são algo excepcional e não é por acaso que o slogan dos vinhos de Baden é “Badischer Wein…von der Sonne verwöhnt” (vinhos de Baden são acariciados pelo sol).

 

Cepas de Pinot Noir da Prefeitura de Freiburg no centro da cidade-2016). Produzem um vinho excelente que é usado, entre outras ocasiões, em recepções oferecidas pela cidade)
As cepas que aqui são produzidas não são muito conhecidas do normal apreciador fora da região como por exemplo a Gutedel, a Sylvaner, Gewürztraminer, a Ruländer, a Scheu-Rebe, a Nobling, a Müller-Thurgau ou mesmo a Riesling. Todas excepcionais!!! Para esclarecer, a Ruländer é a conhecida como Pinot Grigio, porém a de Kaiserstuhl é imbatível e bem mais encorpada que as primas italianas ou francesas e com um aroma a castanhas. A Müller-Thurgau é uma variedade originada do cruzamento da Riesling com a Sylvaner efetuado pelo Professor Müller do Cantão Thurgau na Suíça. É um vinho fino, verde palha, sabor a cereja verde que é ótimo para acompanhar carnes brancas ou mesmo como aperitivo Também se pode encontrar bons Müller-Thurgau na região de Franken (Franconia) perto de Frankfurt. Esses têm a peculiaridade de possuir uma garrafa oval localmente conhecida como “Bocksbeutel“.

 “Pessoas felizes e um bom vinho devem estar sempre juntas”
Lema dos vinhos de Baden

E os famosos vinhos brancos da região de Mosel-Saar-Ruwer, RheinPfalz, Reinhessen (no baixo Reno mais ao Norte) tão apreciados no Brasil nos anos 80? Lembram-se? Um pouco doces e suaves?? Existia até o conhecido Liebefraumilch que alguns traduziam como o leite da mulher amada…..Na verdade, Liebfrau era uma Paroquia católica na cidade de Worms, região onde se elabora o “”famoso”” vinho. Bom, não entrarei no momento em detalhes sobre esses vinhos e  deixarei o tema para outras oportunidades.

Uma curiosidade: muita gente acha que a Alemanha só elabora vinho branco. Errado!!! A região de Baden ou de Ahr elaboram  excelentes Pinot noir que ali são conhecidos como Spätburgunder Rotwein. Em outras regiões utilizam a uva Blau Portugieser para outros vinhos tintos. Pessoalmente a minha uva preferida é a Pinot noir e foi justamente em Baden que começou a minha “paixão” por esta cepa. Recomendo que busquem provar os pinot noir de Baden e tirem suas próprias conclusões.

Uma recomendação: quando tomar um vinho Alemão, prefira, se possível, um vinho de Qualidade com “Predicado” (Qualitätswein mit Predikat)… a classificação Kabinett creio que já seja suficiente e voce estará seguro de tomar um vinho seco de alto nível. Os outros “predicados” (classificação) são Spätlese (mais doces pois as uvas são colhidas mais tarde) e Auslese (seleção especial das uvas). E ainda há os “Hinbeerauslese” e os “Weihnachtenwein” (vinho de natal) também conhecidos no Canadá como Ice Wine, mas esses detalhes vamos deixar para outra oportunidade.

Voltarei ao tema dos brancos e tintos no próximo post.

Até lá.

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