Bardolino ou Valpolicella (Romeu ou Julieta) ??

Tenho observado nos últimos anos que muitos dos meus amigos, alguns com experiencia com vinhos, tanto italianos como de outras nacionalidades, não parecem ser “fluentes” no idioma dos vinhos brancos ou tintos da região do Veneto.

Para o caso dos italianos, isso pode ser explicado (embora não convença muito!!) pela expressiva quantidade de “vinhos regionais” que elabora a Itália e o pessoal não parece ter tanto tempo para explorar vinhos (as vezes mais caros) de outras regiões ou mesmo porque acham que os outros vinhos não são tão bons quanto os de suas regiões. Ou mesmo pelo hábito de tomar seus próprios vinhos. Sei que existem outras razões que aqui não comentarei.

Dessa forma decidi entrar com alguns detalhes nesse mérito e visitar, ou melhor, revisitar Verona em Março 2017, coração geográfico dos vinhos do Veneto.

Verona, Março 2017

Na terra de Romeu e Julieta ao lado do Rio Ádige
Devo confessar que minha primeira experiência com um tinto veneto foi nos Estados Unidos em 1984. Na oportunidade tive a curiosidade, como sempre fazia (por isso tenho mais de 600 etiquetas comentadas de alguns dos vinhos que tomei nos últimos anos) de retirar a etiqueta do Bardolino que reproduzo abaixo. Curiosamente se trata de um vinho da Vinícola do Barão Ricasoli de Firenze, Toscana; porém elaborado em Verona.

Posteriormente, já em 1989, em Roma, descobri um restaurante na área do Vaticano, cujo proprietário era originário da área do Lago de Garda e tinha como especialidade da casa o vinho Bardolino coisa rara para Roma naquela época. Seguindo a minha curiosidade histórica, retirei a etiqueta da garrafa, comentei algo no verso e a reproduzo abaixo. Se trata de um vinho da vinícola Zeni, muito conhecida na região do Lago de Garda e proprietária do único museu do vinho da região.

Bardolino de 1989
 Por toda essa “intimidade” com o Bardolino, decidi conhecer melhor a região do Lago de Garda embora, reconheço, não ser Março o melhor mês para essa atividade já que os parreirais “ainda estão dormindo” (como mostra a foto abaixo) e só a partir de algumas semanas mais é que começarão a florescer.
Mês de Março 2017
Verona e o Lago de Garda. Para situar Bardolino e Valpolicella em relação a Verona.
Bom, sabiam os amigos que o Veneto é a terceira maior região produtora de vinhos da Itália e a maior exportadora?? São 750 a 800 milhões de litros produzidos anualmente em uma área de 75 000 hectares. Contudo cerca de 70% de toda essa produção é exportada para inúmeros países de todos os continentes e os 30% restantes é quase toda consumida pelos habitantes do Veneto ou pelos milhões de turistas que visitam essa linda região. Por isso parece não sobrar muita coisa para o resto da Itália.

Sobre esse tema se poderia escrever um livro mas, vamos tentar resumir. Os vinhos mais conhecidos globalmente do Veneto são o Valpolicella e o Bardolino na área dos tintos e esses são produzidos com as mesmas uvas autóctonas a Corvina (que confere cor e caráter), a Rondinella (estrutura) e a Molinara (acidez) e outros produtores ainda adicionam a Negrara, Merlot, Sangiovese. Como curiosidade tomei um Bardolino em que acrescentaram merlot e o encontrei bem equilibrado.

Vamos mapear a grosso modo as principais áreas de produção (ver o mapa acima): Valpolicella está a norte da cidade de Verona; o Bardolino a oeste do lago de Garda; a região do Soave a oeste de Verona em direção de Veneza. Custoza, a sudoeste de Verona e ao sul do Lago de Garda também produz vinhos brancos.

Com relação ao vinho, o Bardolino clássico ou superior é um vinho de cor vermelha médio, aroma pouco pronunciado, pouco encorpado e que deve ser tomado bem fresco em temperaturas de 13 a 15 graus centigrados ainda jovem (preferivelmente no mesmo ano de produção). A madeira, segundo minha experiencia, tem a tendência de estragar essa frescura e aroma natural desse vinho pois se trata de um vinho bem sensível.

Para provar um autêntico e fresco Bardolino (clássico) fui a um restaurante de uma vinícola (Guerrieri Rizzardi) na cidade de Bardolino( veja as fotos seguintes).

 

Bardolino, Lago de Garda, Março de 2017

Já o Valpolicella, apesar de ser elaborado com as mesmas castas do Bardolino é um vinho mais encorpado, com teor alcoólico de 12 a 13 graus centigrados. Todos os vinhos que provei (valpolicella superior) haviam sido “envelhecidos” com madeira o que para o meu gosto fez com que o vinho perdesse o caráter jovial de suas características naturais com aromas balsâmicos e lembrando “acetonas” e retro gosto a couro. Pessoalmente não gosto desse tipo de sensação, porém sei que muitos apreciam essas características e categorizam o Valpolicella como superior ao Bardolino.

Eu prefiro que vinhos jovens sejam apreciados como jovens e não sejam artificialmente “envelhecidos” ou mascarados com madeira. Para mim, o aroma é fundamental.

A madeira pode mascarar as qualidades naturais de um bom vinho e por isso não aprecio vinho com muita madeira. À título de observação já provei muito Pinot Noir jovem e de um ano “normal” completamente descaracterizado e como não dizer, estragado pelo uso inadequado de barris de carvalho. Aliás, esse foi um grande erro dos primeiros Pinot Noir da Califórnia e do Chile.

Há outros casos como o do vinho grego Retsina que comentarei em outra oportunidade.

Casamento (abbinamento) de um excelente Tortellone de cogumelos com um Valpolicella Superior. Recomendo.
Jane analisando o Valpolicella
Na região de Valpolicella o vinho “Top” é o Amarone que é elaborado com as mesmas uvas do Valpolicella clássico ou superior porém por um processo diferente já que as uvas após colhidas são deixadas secar em caixas ou penduradas e perdem de 30 a 35 % da umidade e quando já estão quase passas são então fermentadas (Pacificação). Por tudo isso, é um vinho com maior teor alcóolico (de 14 a 17%), bem diferente e seco. Além de bem mais caro!!

Eu provei um Amarone (depois de certo tempo já decantado), cor âmbar, cujo buquê de cerejas e balsamos era evidente porém os taninos estavam bem equilibrados. Porém confesso que se trata de um vinho complexo para “casar” (abbinare) com comida por ter um sabor e buquê complexo e com sensação de vinho oxidado e retro gosto amargo. Eu considero um vinho para “meditar” ou “pensar” preferivelmente para aperitivo.

 

Outro vinho da região é um branco o SOAVE (que aqui não significa vinho doce); se trata de um vinho seco elaborado com uma casta autóctona a garganera. Alguns produtores acrescentam a Trebbiano Toscana ou Trebbiano Veronese. Também o Veneto produz outros vinhos brancos como o Prosecco porém não entrarei em detalhes nesse post.

A curiosidade me conduziu a fazer uma prova do Soave que pareceu a meu juízo um “pouco artificial” justamente porque passou por barricas de madeira com amêndoas, muito seco, e com aroma e retro gosto a amêndoas. Da uva mesma pouco se detectava. O mesmo ” pecado” do Valpolicella superior que havia provado antes.

 

Soave…com aroma e sabor a amêndoas; bem seco e aroma “acético”.

Um “até breve” de Verona!

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